5 Environmental risk assessment
5.2 Potential for gene transfer
junto a praias, à foz de rios, ou na margem lamacenta de portos, rios, lagoas etc. Disponível em <http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=mangue >, visitada em 18/05/2007.
Na paisagem da imperial cidade de São Paulo haviam muitos rios e córregos, em torno das quais a cidade se desenvolveu e promoveu os primeiros processos de abastecimento da população.
A bacia hidrográfica do rio Tietê praticamente domina a paisagem das terras baixas da cidade de São Paulo, sendo um de seus principais afluentes o histórico Tamanduateí que nascia ao sul, na Serra do Mar, atualmente na cidade de Mauá na grande São Paulo. Devido a sua posição, extensão e abrangência muitos afluentes da cidade imperial de São Paulo desaguavam nele suas águas.
O principal afluente do rio Tamanduateí na área central e histórica era o rio Anhangabaú que recebia as contribuições dos córregos Yacuba, Saracura e Bexiga. Desaguando no Tamanduateí a montante do rio Anhangabaú, havia muitos rios sendo os principais o Cabuçu Pequeno e o Cabuçu de Cima que recebia as águas do Cabuçu de Baixo. Já as águas do Tanque do Arouche escoavam para contribuir na formação do Córrego do Carvalho que desaguava a jusante do rio Anhangabaú, no rio Tamanduateí.
O rio Anhangabaú teve suas nascentes represadas formando os Tanques Municipal e de Santa Teresa, no antigo Morro do Caaguaçu na altura do Paraíso, estes dois tanques foram as primeiras alternativas de abastecimento da cidade e, portanto também foram motivo de estudo para possível regularização do abastecimento dos diversos chafarizes em 1884, no entanto não havia potencialidade hídrica para tanto.
No rio Bexiga não havia represamento sendo sua contribuição direta ao rio Anhangabaú, já o rio Saracura também teve suas águas represadas formando o Tanque Reúno. Não tão próximo às nascentes, também reunia quantidade de água considerável e abastecia o Chafariz do Piques através de seu reservatório a “bacia da pirâmide”, então as águas eram aduzidas através do Morro do Chá e do bairro de Santa Ifigênia para alimentar o lago central do Jardim Botânico – atual Jardim da Luz.
O Tanque do Zuniga, que também era conhecido por Praça das Alagoas, abrigava as nascentes formadoras do rio Yacuba que em seu trajeto até o rio Anhangabaú recolhia as águas de qualidade duvidosa da Bica do Acu. O dessecamento do Tanque do Zuniga transformou-o no Largo do Payssandu e o encaminhamento das águas foi feito em canos de ferro até a rua Payssandu, estas águas alimentaram o Chafariz do Zuniga.
Após 1881, com a entrada do sistema de abastecimento da Cia. Cantareira, os diversos chafarizes de abastecimento da cidade foram desativados, a fim de que todos os logradouros se interligassem ao novo sistema de abastecimento, neste momento as praças que abrigavam os chafarizes de abastecimento perderam seu público e tornaram-se lugares menos freqüentados.
Contribuindo neste cenário de dessecamento da cidade, o desenvolvimento da trama urbana drenou diversos rios e córregos e estruturou a rede de transporte através dos fundos de vale, como pode ser observado através das avenidas fundos de vale, tais como:
TABELA 01
AVENIDA RIO PLANO EM QUE FOI
PROPOSTA TRAÇADO
(TOTAL ou PARCIAL)
Avenida Nove de Julho Saracura Plano de Avenidas
(1930) Plano Moses Plano Sagmacs (1957) Total Total Parcial
Avenida 23 de Maio Anhangabaú Plano de Avenidas
(1930) Plano Moses Plano Sagmacs (1957) Total Total Total
Avenida do Estado Tamanduateí Plano de Avenidas
(1930) Plano Moses Plano Sagmacs (1957) Parcial Parcial Total
Alguns dos rios e córregos da cidade suprimidos da leitura paisagística, dentre muitos que desapareceram.
A leitura da paisagem não obedece aos limites do território de uma cidade, sendo que a modernização interfere severamente na paisagem, principalmente aquela ao longo dos rios e córregos, pois rapidamente os rios são vistos como potenciais reservas de abastecimento para as populações, sendo logo visualizado seu potencial hidroelétrico.
O final do século XIX e primeira metade do século XX são momentos tecnocentristas nos quais todas as alternativas econômicas giram em torno do desenvolvimento de técnicas, a cidade de São Paulo vive a industrialização e a modernização dos serviços urbanos, momento em que a atenção política está voltada para a criação de infra-estrutura necessária à expansão econômica da cidade e também do estado. Projeta-se, então, a transformação da paisagem de forma a adequar a natureza às necessidades do desenvolvimento econômico, tanto que a Light, ao receber a concessão para explorar o alto Tietê, comprometeu-se em estabelecer uma
hidrovia para escoamento de mercadorias através dos rios Tietê, Pinheiros e Grande, que atingisse até o alto da Serra do Mar. Nesta época os rios eram vistos como vias de comunicação secundárias à estrada de ferro, sendo utilizados apenas nos casos em que a estrada de ferro era inacessível devido às grandes distâncias das fazendas produtoras de café aos troncos ferroviários centrais.
Os últimos resquícios de pescadores e lavadeiras, profissionais relacionados diretamente com a água e com os rios da cidade de São Paulo, data de antes da poluição e conseqüente canalização dos corpos hídricos do município, o que inviabilizou suas atividades colocando em risco sua saúde e a de todos que se abasteciam de seus serviços.
FIGURA 17
Vista aérea da Ilha dos Amores, 1929, autor desconhecido.
Fonte: São Paulo - 450 anos. São Paulo: Instituto Moreira Salles: 2004, pág.142.
Um fato que aparentemente pode parecer banal é que as lojas da cidade não vendiam ‘calções de banho’, sendo o banho nu proibido por ser considerado amoral. Assim, o contato direto com o rio tornou-se constantemente policiado devido às brigas de lavadeiras, aos pescadores inescrupulosos e aos banhos nus.
Apesar da ótica míope de uma colonização apressada na qual o território era visto como pura fonte de exploração em busca da descoberta de riquezas fáceis, a partir de 1870 por aqui
aportaram imigrantes interessados em fixar raízes, pelo menos por algum tempo, de forma que enxergaram no rio potencialidades de lazer e inauguraram clubes através dos quais tornou-se possível praticar alguns esportes náuticos.
FIGURA 18
Vista aérea da Ilha dos Amores, 1929, autor desconhecido.
Fonte: São Paulo - 450 anos. São Paulo: Instituto Moreira Salles: 2004, págs. 156 – 157.
A Ilha dos Amores – 1872 foi outro espaço que não prosperou, junto ao rio Tamanduateí, em parte por estar localizada em meio a terrenos que abrigaram depósitos de lixo, tornando o acesso desagradável devido à presença visível de ossos, latas velhas, colchões e travesseiros apodrecendo. Outro fato relatado por Ernani da Silva Bruno75
é que a Ilha dos Amores “não podia ser freqüentada com facilidade, no inverno, por causa do vento sul, frio e úmido; e no verão, tempo das chuvas, era em parte alagada pelas águas do Tamanduateí”, sendo desativada dois anos após sua construção.
75
Em 1924, apesar da discutida poluição do rio Tietê, foi realizada a primeira travessia de São Paulo a nado. No entanto os clubes paulistanos percebendo a situação de poluição crescente dos rios optaram por construir piscinas particulares ao invés de lutar pelo direito ao uso do rio. A poluição e a retificação dos rios assim como as proibições de banhos nus causaram abandono da prática de natação nos rios.
A partir de 1950, os rios deixaram de participar da vida da cidade, os clubes construíram muros e as marginais foram consolidadas sobre os antigos espaços de acesso aos rios, nos quais era possível admirar a paisagem do pôr do sol espelhado nas águas, observar os barcos a remo e as competições de natação em canais junto aos rios, as áreas de observação da paisagem natural foram definitiva e tristemente afastadas da população paulistana, perdendo- se o significado simbólico e religioso da água. Convertida em fonte de energia ou de abastecimento, a água está longe de ser considerada pela maioria da população como um elemento sagrado, muito embora as tradições cristãs, judaicas, islâmicas, budistas e outras assim como as crendices populares ainda considerem de grande importância a conservação dos significados religiosos e supersticiosos da água.
Foi nas águas do rio Paraíba, à altura do porto de Itaguaçu, durante o século XVIII, que três pescadores ao lançarem suas redes sem êxito, algumas vezes, pescaram a imagem milagrosa de Nossa Senhora da Aparecida, que se tornou a padroeira brasileira.76
No estado de São Paulo foi encontrada as margens do rio Tietê a imagem do Senhor Bom Jesus de Pirapora, 77 em 1724, quando o rio era utilizado como caminho dos Bandeirantes. Em
1897 a paróquia de Pirapora foi desmembrada de Parnaíba e elevada a freguesia, recebendo em seguida as honras de santuário cujas festas religiosas contavam com procissões fluviais. A festa do Divino Espírito Santo,78 também em São Paulo ,tem sua origem nas tradições
religiosas portuguesas e é realizada na cidade de Tietê tradicionalmente desde 1830. Conta a história que após uma promessa ao Divino, os habitantes da cidade sentindo-se atendidos desceram em canoas arrecadando fundos para a festa nos povoados a jusante da cidade. Ao
76
SÃO PAULO (ESTADO). Secretaria do Meio Ambiente: 1999, pág. 63.
77
Ibid, pág. 65.
78
voltarem foram recebidos por outras canoas e deu-se então o primeiro encontro das canoas. Este roteiro é repetido ao longo das décadas e tornou-se uma festa intimamente ligada à água. A transformação da paisagem e da fisionomia dos rios que cruzam o estado de São Paulo está muito mais associada à instalação das cidades, das indústrias e à construção de hidroelétricas com seus respectivos grandes lagos, barragens e eclusas, do que à agricultura que constituiu paisagens nas quais os rios não sofrem grandes interferências, sendo apenas limites de propriedades. No entanto, a monocultura do café promoveu o aniquilamento da percepção indígena das águas, como também da utilização e representação das águas dos rios, pois ao apropriar-se das terras indígenas afastou os índios de seu território original.
Em resumo, nos diversos processos de urbanização, desenvolvidos no estado de São Paulo, houve a transformação da paisagem sendo a vegetação praticamente dizimada e as águas dos rios sofreram significativas alterações.
2.2
A IMPORTÂNCIA DAS FONTES E CHAFARIZES DA CIDADE DE SÃO PAULO, NA ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO URBANO E NA CONSTRUÇÃO DOS VALORES AMBIENTAISFIGURA 19
Crianças usando o bebedouro de um parque público, 1910.
Fonte: São Paulo - 450 anos. São Paulo: Instituto Moreira Salles: 2004, pág. 109.
Das pesquisas realizadas conclui-se que a diferença entre os termos “Fonte(s)” e “Chafariz(es)” parece remeter à principal função da água nas diferentes situações. Basicamente “fontes” são pontos de abastecimento de água potável e “chafarizes” não o são necessariamente, mas segundo observações isto é apenas um indicativo não existindo regras para nomear os diferentes espaços, pois em algumas situações parece que a nomenclatura foi dada de forma artística ou política.
“Chafariz” é um termo aparentemente sem associações simbólicas e utilizado para referenciar um trabalho artístico no qual a água é explorada plasticamente, só ou em conjunto com esculturas, intencionalmente valorizando um ambiente. O chafariz se apresenta como o principal elemento de construção da imagem no espaço em que se insere, identificando-o
muitas vezes de maneira inestimável e colaborando na refrigeração e no conforto ambiental do local, seja ele interno ou externo.
“Fonte” é uma palavra de simbologia muito ampla que aparece relacionada a diversos termos, promovendo outros significados.
A “água”, considerada sagrada ou curadora, sempre esteve relacionada a fontes ou poços sagrados, sendo representada em diferentes culturas de diversas formas, sempre relacionada à pureza e ao fortalecimento físico e espiritual, daí sua associação a divindades, de forma que podemos citar inúmeras relações da “água em fontes ou poços” com os “poderes superiores”. No entanto, as fontes e chafarizes paulistanos 79 não tiveram nenhuma representação mítica ou
religiosa, eram apenas fontes de abastecimento e raramente contavam com algum tipo de ornamentação. A simbologia das fontes como acima descrito é freqüentemente associada a poços, mas também não há descrição de poços para abastecimento público listados ou relatados na história do desenvolvimento e do abastecimento da cidade de São Paulo, embora haja registro de que no início do século XVI Afonso Brás – arquiteto, trabalhou na cidade de São Paulo orientando a construção de casas a moda lusitana80, assim como também a abertura
dos primeiros poços, fato que nos leva a discutir algumas idéias sobre o abastecimento inicial da cidade de São Paulo: havia poços particulares que não foram relatados na história do saneamento justamente por não constituírem um sistema público de abastecimento; havia poucos poços particulares e por não constituírem sistema público de abastecimento não foram dignos de nota, ou ainda pode-se especular que não houve maior confecção de poços devido às dificuldades da época em conseguir materiais adequados ao seu revestimento interno. A abundância da água brotando em nascentes promoveu a condução, reservação e construção de fontes e chafarizes destinadas ao abastecimento da cidade, processo que foi elaborado como o primeiro sistema de abastecimento público, sendo de extrema importância o resgate de sua história e espacialidade. Com base em alguns dos mapas da coleção de Mapas do IV Centenário da cidade de São Paulo, foi elaborada a espacialidade das fontes e chafarizes da cidade de São Paulo.