4 Food and feed safety assessment
4.6 Nutritional assessment of GM food and feed
FIGURA 16
1650 - Vista do Vale do rio Tietê a partir do encontro com o Jurubatuba (atual Pinheiros): Fonte: Aziz Ab’ Saber. Revista Veja, 1995, apud ALVIM: 2003, pág. 222.
A paisagem natural da cidade de São Paulo64
na época de sua fundação – nos idos tempos da Província de São Paulo de Piratininga – era composta por recursos naturais em harmonia, formando um cenário ambiental amplo e complexo, definindo a estrutura e identidade65
do local. A percepção da paisagem registrava uma identidade ambiental rica, úmida e única, comparável à individualidade existente em cada homem que viria a habitar o local.
A região, sendo parte do bioma da Mata Atlântica, apresentava intensa biodiversidade, com flora e fauna integradas à paisagem natural, na qual havia grande riqueza de água doce encontrada nos rios e córregos, devido à profusão de nascentes existentes entre os “mares de
64
Cf. capitulo 2 – 2.2 A importância das fontes e chafarizes da cidade de São Paulo, na organização do espaço urbano e na construção dos valores ambientais, onde no Mapa da Imperial cidade de São Paulo de Carlos Rath – 1855, estão locados vários aspectos naturais da paisagem e também algumas das primeiras intervenções antrópicas da cidade de São Paulo, tais como o Tanque Municipal, o de Santa Teresa e o Reúno, dentre outras características naturais da paisagem.
65
morros” 66. As águas provenientes de nascentes nas terras altas foram e são responsáveis pela
formação e manutenção de inúmeros rios e córregos que se espraiavam em planícies e várzeas compondo a paisagem de áreas úmidas nas terras baixas da região.
Na meia encosta do rio “Tamanduathey” fixaram-se os primeiros assentamentos humanos da província, em pequenas clareiras abertas na mata, e a proximidade da água era fator decisivo na escolha do território a ser ocupado, sendo a sobrevivência e a subsistência da província dois dos principais motivos, já que ao mesmo tempo o rio e a várzea proporcionavam alimento através da pesca e proteção à província, devido à grande dificuldade de acesso imposta pela várzea do Carmo.
Ao norte, para além da várzea do Carmo e do Tietê, impunha-se na paisagem a Serra da Cantareira, majestosa – abrigando povoados indígenas e suas lendas, ocultando da província instalada “aqui” o “além”67 e delimitando ao olhar um limite territorial natural bem definido e
instigando aos mais corajosos a exploração de terras distantes.
Ao sul, junto às nascentes do rio “Tamanduathey”, localizava-se a Serra do Mar, como parte da cadeia de montanhas que cercavam a província de São Paulo.
Os rios paulistanos fugiam aos mercados exportadores, rumando em direção ao interior do país e não à costa brasileira, sendo utilizados apenas no século XVIII pela monções que se constituíam em frotas comerciais a fim de transportar alimento às minas de Goiás e Mato Grosso. Para as bandeiras, o rio constituía um obstáculo à marcha e seu uso era ocasional; já para as monções o rio era a regra atuando como um disciplinador do movimento.68 A
fundação da província a princípio deu-se para constituir um ponto de descanso e abastecimento aos viajantes que atravessavam a serra do mar 69 rumo ao interior da colônia.
Os rios Tietê e Tamanduateí foram os mais importantes durante o período de colonização, pois através deles iníciou-se a exploração do interior brasileiro pelas tropas conduzidas por 66 AB’SABER: 2003, pág. 17. 67 CULLEN:1981, págs. 5 – 99. 68
Sergio Buarque de Holanda definiu “os rios como disciplinadores do movimento”. SÃO PAULO (ESTADO). Secretaria do Meio Ambiente: 1999, pág. 12.
69Denominada de maneira poética ou não como “A Grande Muralha”, a Serra do Mar recebe esta denominação
literária de forma a enfatizar sua grande extensão e a magnitude da montanha que separa a cidade de São Paulo de seu litoral. QUEIROZ: 2000, passim.
bandeirantes70, que em canoas embarcavam nas águas do rio Tamanduatei, deslocando-se até
o rio Tietê, no qual poderiam viajar por aproximados 1100 km, vencendo declividades que somam 600 metros e aportando no rio Paraná ou onde lhes fosse mais útil.
Utilizando os rios como canais de acesso ao interior do continente, era possível promover expedições bandeiristas de reconhecimento do território além de permitir a conquista de uma porção ainda maior de terras e ampliar a busca de riquezas naturais.
Em meio a este cenário ecologicamente descrito como paradisíaco - tecido entre morros e vales, com abundância de rios e córregos onde havia áreas úmidas e secas suficientes para o abastecimento, a defesa e o desenvolvimento do povoado - iníciou-se a urbanização de uma das maiores megacidades da atualidade.
O ambiente natural da cidade de São Paulo foi relatado por diversos viajantes71 e apresentava
e diferentes dificuldades de acesso, como a manutenção das estradas, principalmente devido à freqüência de uso imposto pelas tropas e as estalagens também eram poucas para percursos tão distantes.
A princípio o desenvolvimento da província foi lento, pois não havia em seu território jazidas de minérios valiosos ou pedras preciosas e a coroa portuguesa baseava o incentivo ao desenvolvimento das cidades da colônia neste tipo de exploração, mas com o passar dos anos a cidade paulatinamente tornou-se, cada vez mais, um ponto de descanso necessário às tropas após a travessia da Serra do Mar, necessário ao escoamento dos produtos extraídos no interior do continente. e ao abastecimento das cidades e províncias da colônia.
Durante a travessia pelas terras e paragens paulistas, nos idos do século XVIII, os relatos de viajantes 72 apresentavam claramente as intervenções antrópicas, o que não é inusitado, pois
não seria possível instalar uma província ou uma cidade em meio ao ambiente totalmente natural sem abrir clareiras, construir estradas, edificações para habitação e produção de bens assim como armazéns para a troca e a estocagem de mercadorias, mas como se organizaram
70
Os bandeirantes organizavam suas expedições baseados em trilhas a pé, no entanto utilizavam o rio para avançar para o interior até o local certo do início das explorações. SÃO PAULO (ESTADO). Secretaria do Meio Ambiente: 1999.
71
LANGENBUCH: 1971, pág. 09.
72
sobre o território natural é o ponto importante neste trabalho, pois esta é uma das raízes da percepção e da integração do homem com o meio natural e também da preservação e da conservação da água no ambiente natural e antrópico.
A vida presente nos diversos rios e várzeas – sistemas lóticos e lênticos 73, assim compostos,
definidos e subdivididos – obviamente não pode ser mensurada, mas pode ser considerada praticamente infinita já que esta unidade ambiental formada pelo rio e sua várzea é parte de um sistema maior, a bacia hidrográfica do rio Tietê, portanto a região do município de São Paulo pode ser classificada ecologicamente como um sistema aberto.
Desta forma é minimamente leviana a apresentação de um projeto de retificação do percurso de um rio sem a preservação da área úmida que abriga as várzeas, pois se este sistema abriga quantidade de vida infinita, como podemos aquilatar os danos ou os crimes ambientais cometidos neste processo?
O trecho urbano do rio Tietê pode ser classificado como um sistema aberto e sofre a influencia de fatores externos, principalmente a montante da cidade de São Paulo, os quais podem interferir ou até pré-determinar os processos de cheias neste trecho urbano do rio.
A interrupção do “trânsito da vida” através dos ambientes úmidos atualmente é completamente inaceitável com base nos paradigmas ecológico e ambientalista, pois os processos de decomposição e degradação de resíduos são extremamente importantes não só para a preservação da vida, mas são também necessários à cidade na depuração final de efluentes líquidos advindos do tratamento de esgoto doméstico e industrial proveniente das Estações de Tratamento de Esgotos (ETE).
Ocorre que a expansão das cidades é um fator indispensável ao desenvolvimento humano, portanto torna-se importante o questionamento e o desenvolvimento de estruturas ecológicas urbanas capazes de permitir o trânsito da vida silvestre através do tecido urbano. As principais zonas de vida silvestre geralmente estão lindeiras à cidade nas chamadas matrizes ecológicas e muitas vezes no processo de expansão do tecido urbano são praticamente dizimadas ou, se houver possibilidade, a vida silvestre migra afastando o máximo possível da área urbanizada. As matrizes ecológicas abrigas as principais nascentes do sistema hídrico que abastece as
73
cidades e, no caso de urbanização das áreas de mananciais, a busca de fontes mais distantes pode onerar demais a infra-estrutura da cidade.
Ainda que se constate que a cidade de São Paulo não existiria sem a presença da água, esta presença na paisagem for praticamente extirpada em um processo que se desenvolvem ao longo dos diversos períodos de sua história urbanística. Atualmente, devido a valores tecnocentristas, é clara a presença do trânsito da água potável na cidade pelas redes de abastecimento urbano. Assim, a paisagem foi relegada a um segundo pano e a gestão político- econômica da cidade não apresenta diretrizes para sua revalorização, resgatando e preservando as principais características naturais do território.
Mas a água na cidade pode apresentar outras vertentes, menos nobres e mais constantes, como os rios canalizados, as vias marginais, alguns lagos em meio a parques ... enxurradas e enchentes em dias de chuva crítica. A água está sempre presente na cidade de uma forma ou de outra, mesmo que ainda em escala reduzida se comparada às cidades litorâneas ou estearinas onde o mar prove o local com brisa e umidade constantes. No entanto, muitas destas cidades avançaram com sua urbanização sobre o extenso espaço úmido que o mar deixa descoberto durante a vazante e também nas diversas áreas junto à desembocadura dos rios, onde se desenvolve o mangue,74 de forma que também criaram diversos.problemas
ambientais para a cidade.
Muitos podem acreditar que não há necessidade de incluir a água no traçado urbano, no entanto percebe-se esta necessidade nos altos índices de pessoas que desenvolvem problemas respiratórios devido à má qualidade do ar na cidade.
Mesmo não sendo uma medida totalmente eficiente econômica ou hospitalar, no que tange ao combate a moléstias urbanas, a melhoria da qualidade do ar, com maior índice de umidade e menores índices de SO², Monóxido de Carbono e Material Particulado, contribuiria para uma melhor qualidade de vida, diminuindo a porcentagem da população que manifesta problemas respiratórios como sinusite, rinite, pneumonia e outros.