• No results found

Postvis omtale av ressursbruk på kap. 1320 Statens vegvesen

In document Årsrapport 2018 (sider 38-43)

Similar à escola e à família já compreendidas, segundo Setton (2008), como instituições produtoras de valores morais e identitários e, por conseguinte, formadoras de consciência, a religião pode se apresentar, também, como uma importante matriz de cultura, na medida em que “geraria em seu interior um sistema simbólico, um ethos organizado a partir de preceitos, máximas e prescrições morais e comportamentais” (SETTON, 2008, p. 17).

A prática religiosa, portanto, quando resultante da inserção em uma instituição religiosa, constitui, segundo Rabelo (2008), um exemplo de socialização secundária. Pois,

“segue e se articula à primeira socialização, travada na infância e usualmente no âmbito da família.” (p. 177) Em nossas entrevistas, por exemplo, como descrito a seguir, os participantes marcados pela experiência religiosa relatam tê-la iniciado ainda na infância, em concordância com a socialização primária, parecendo haver, portanto, certa articulação entre a educação familiar recebida e a formação religiosa vivenciada.

Pode-se assim dizer da existência de uma socialização marcada pela religiosidade, porém com intensidades diferentes. Pois, parte dos entrevistados menciona a religião como algo que fez parte de suas histórias, em algum momento, sem, no entanto, estabelecer-se com essa uma relação identitária. Isto é, percebe-se um distanciamento da vivência religiosa, na medida em que consideram terem sido educados em uma determinada religião, mas não a praticarem mais na vida adulta. Para ilustrar, trazemos as falas dos alunos Carlos, Tiago e Aline.

Quais eram os tipos de programas feitos por você e sua família em dias livres (feriados, finais de semana, férias, etc.)?Então, teve uma época que a gente ia muito pra casa de uma outra tia minha, que mora na Zona rural de Vespasiano. Aí a gente ia pra lá todo domingo. E a gente, eu e meus irmão eram obrigados a ir na missa Domingo. Mas depois a gente parou, revoltou. (Aline, Medicina)

Quais são os valores que você percebeu que foram adquiridos no seu ambiente familiar? (religiosos, morais, éticos...) Ah! Os valores morais. Acho que esses são os mais fortes. Religião nem tanto não. É...no início minha avó, minha mãe, acho que nem obrigava não, mas fazia a gente ir mais a Catequese, essas coisas. (Carlos, Ciência e Tecnologia de Alimentos.)

[...] (E tinha algum outro tipo de programa? Feriado, por exemplo...) Não. Sempre foi mais em casa assim. Feriado, geralmente, dá mais é feriado religioso. Então, eles saíam pra missa, voltavam pra casa, ficava todo mundo em casa. [...](Tiago, Ciências Biológicas)

Por outro lado, apesar do distanciamento da vivência religiosa identificada nos relatos anteriores, três dos alunos participantes da pesquisa parecem ter estabelecido o que Lahire (2004) chamou de “envolvimento moral em uma cultura religiosa”. Esse envolvimento foi percebido nos depoimentos, por exemplo, do aluno Fabrício, que durante sua infância, por influência familiar, passa a frequentar uma igreja evangélica, em que se lhe propicia o contato com prescrições de conduta moral e ações pedagógicas desenvolvidas no interior dessa igreja.

[...] É...minha mãe ela mudou de religião. Ela era católica da minha primeira a quarta série. Depois ela foi pra uma igreja evangélica e tal. Aí ela chamou a família toda também pra ir, né? Aí a gente ficou nessa igreja evangélica. Aí a gente adquiriu muita coisa. Por exemplo...é...dedicar...como é que é mesmo? Esqueci a palavra… mas aí ela ensinou a gente muita coisa. Por exemplo, na própria igreja mesmo cê tinha uma parte da igreja que era uma escola. Tipo uma escolinha bíblica. Aí lá eles ensinavam muita coisa, por exemplo, de não roubar, de não usar droga... [...] (Fabrício, Ciência da Computação)

Quais eram os tipos de programas feitos por você e sua família em dias livres (feriados, finais de semana, férias, etc)? Domingo a gente ia a Igreja. Todos iam à Igreja. Já era uma rotina. Isso aí já era uma rotina. (Fabrício, Ciência da Computação)

Esse mesmo envolvimento moral em uma cultura religiosa pôde ser percebido na fala do aluno José, ao reconhecer os valores religiosos praticados desde a infância como constituintes de sua conduta moral, no que diz respeito à compreensão da educação em seu sentido abrangente. Essa conduta moral mencionada pelo aluno, portanto, que se assemelha ao que Portes (2001) denominou de “educação para a vida”, predispõe ao bom comportamento valorizado pelo ambiente escolar, por conter elementos de “docilidade”, sociabilidade, facilitando o percurso educacional, por conseguinte. Pois, conforme relatado pelo próprio estudante: “a educação pode abrir portas”.

Então, os valores religiosos eles contribuem muito para a construção da moral também, sabe? Toda a sociedade tem seus valores morais. E a religião manda muito nos valores morais, né? É...pela minha ser protestante desde que eu era pequeno e a cidade não ser grande, nós tínhamos valores e culturas, principalmente, ligados a, entre aspas, a educação, sabe? Por exemplo: nossa! Você tem que ser educado todo o tempo. O tempo todo, sabe? Porque é....educação...não no sentido que a gente tava falando antes, sabe de educação básica e tal, mas educação no sentido de tratar e lidar com as pessoas. A educação ela pode abrir portas. É uma coisa que o meu pai sempre diz, sabe? Então...é...tratar com educação...é um caminho que vai lidando, assim. [...] (José, Licenciatura em História)

A vivência de uma educação moral, portanto, no interior de uma certa cultura religiosa, contribui para a construção de uma “fé prática”, segundo Bourdieu (2009), que colabora para que os sujeitos, mesmo sem vivenciar práticas religiosas estritas, construam crenças como um “estado de corpo”. Isto é, passem a crer (com corpo e mente) em um conjunto de elementos moralizantes que se transformam em disposições que conduzirão suas ações. No caso do aluno José, por conseguinte, essas ações, podem ser exemplificadas, tal qual descrito acima, pela cordialidade, bem como pela sociabilidade, apreendidas,

inicialmente, fora do universo escolar, mas transpostas para tal ambiente, favorecendo o trânsito educacional.

A estruturação do cotidiano também se mostrou como mais um aspecto consequente à prática religiosa mencionada por nossos entrevistados. Nas palavras de Truzzi (2008), a “transmissão de valores e da socialização de indivíduos na fé religiosa coloca-se, de qualquer modo, com maior ênfase quando a religião é (ainda) estruturante do cotidiano, isto é, quando as práticas associadas à religião permeiam as condutas, atitudes e valores do dia a dia.” (p. 159) Para exemplificar, há a fala da aluna Mariana mencionando a forma como utilizava suas horas livres.

(Como utilizava seu tempo livre: extra-escola e lazer?) Até o ensino médio assim eu era da Igreja. Então no meu tempo livre eu ia pra Igreja. Basicamente. [...] (Mariana, Licenciatura em Letras)

[...] (E você frequentava lá toda semana? Como era?)Não...eu ia todo dia na igreja. Porque tinha culto terça, quinta, sábado e domingo, né? Terça, quinta e domingo meus pais iam. No sábado era de adolescente, eu e meu irmão. Aí na segunda fazia parte de alguma coisa, né? Um teatro... [...] (Mariana, Licenciatura em Letras)

[...] A sua mãe é evangélica desde quando você é pequena?) Desde quando eu tinha oito anos. Porque eu tive um irmãozinho que morreu aí a gente se tornou evangélico. [...] Mas, assim, até meus quinze anos, eu fui muito mais apegada a igreja. Depois eu comecei: ah! Acho que não tá certo isso e eu lia muito a bíblia, né? Então fazia estudo bíblico, dava aula de escola bíblica... (Você chegou a dar aula então?) Cheguei. Dava aula pra adolescente. (Mas você também era adolescente?) Eu também era adolescente. Dava aula pra pré-adolescente. Doze, treze anos e eu com quinze. Então, eu estudava a bíblia demais. Nossa! Eu preciso estudar pra dar aula. Eu lia muito e tipo...isso meu pai fazia muito também. Lembrando agora assim. [...](Mariana, Licenciatura em Letras)

Soma-se a isso o contexto familiar da aluna Mariana, marcado desde a infância por experiências advindas da religiosidade praticada por seus avós, inserindo-a, principalmente, no universo da cultura escrita. Tal qual mencionado acima, no caso de Mariana, parece ter havido uma concordância entre a socialização primária e a secundária, de modo que os conteúdos religiosos integraram a educação familiar recebida durante a infância, além do fato de que as gerações mais velhas constituem agentes importantes na formação religiosa das gerações mais novas (RABELO, 2008).

[...] Meus avós leem muito e escrevem muito. Ainda mais que eles são religiosos, então tem muitos livros de padres....então eles sempre tão lendo. [...](Mariana, Licenciatura em Letras)

[...] (Você foi criada com seus avós, então?) É...quando eu era criança ficava minha mãe e meu pai numa casa que era no fundo da casa da minha avó. (Mas aí vocês tinham contato com eles o tempo todo?) Sempre. Desde quando nasci. (Sua mãe trabalhava sempre, então vocês ficavam lá...) Não. Minha mãe começou a trabalhar quando eu tinha uns oito anos. Mas até os oito anos mesmo com a minha mãe, a gente ficava muito lá na casa da vó.[...] (Mariana, Licenciatura em Letras)

Em síntese, percebeu-se nos relatos dos alunos entrevistados a prática religiosa como socializante e produtora de costumes e hábitos, contribuindo, por conseguinte, para a formação de um ethos religioso, que parece ter favorecido a construção de certas disposições que direcionam as ações práticas de nossos alunos-agentes. Não apenas do ponto de vista moral e comportamental, mas, inclusive, no que diz respeito ao modo como se posicionaram diante da escolaridade. Pois, em razão do contexto religioso, em sua dimensão familiar ou extra familiar, nossos entrevistados puderam antever o universo escolar por meio de situações como, contato com dispositivos típicos da educação formal, tais quais livros e sua relação com a cultura escrita, bem como aulas em programas internos às igrejas frequentadas. Ou, ainda, as práticas religiosas relatadas, ao interferirem na constituição da rotina familiar e individual, desde a infância, parecem ter criado disposições rentáveis no ambiente escolar, como a emissão de bons comportamentos, certa familiaridade com o contexto escolar, bem como a disposição em dedicar-se às atividades pedagógicas.

In document Årsrapport 2018 (sider 38-43)