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In document Årsrapport 2018 (sider 61-64)

Estudos recentes em torno da longevidade escolar de alunos oriundos das camadas populares apontam o papel da escola como benéfico ao processo de escolarização (ALMEIDA, 2006; ANDRADE, 2012; CARVALHO, 2012; COSTA, 2013; LACERDA, 2006; PIOTTO, 2007; 2011; PORTES, 1993; 2001; VIANA, 1998; 2000; 2009; 2012;

SOUZA, 2009; SILVA SOUZA, 2009; ZAGO, 2000) por possibilitar entre outras coisas ganhos como: o estímulo à permanência no sistema escolar mediante os êxitos educacionais parciais nas séries iniciais; filiação institucional consequente ao sentimento positivo em relação ao ambiente escolar. Sentimento esse que pode ser associado, principalmente, ao papel atuante do professor e da relação com os colegas de turma e, também, a aspectos tais como: maior conhecimento sobre o funcionamento do sistema educacional resultante do acesso a informações e incentivos; destaque no ambiente familiar e escolar em função da valorização do bom desempenho e comportamento acadêmico, fazendo-os acreditar em suas potencialidades; valorização e responsabilização da escola pela chegada ao Ensino Superior; formação como ser humano; ampliação do capital cultural via escola; constituição de habitus de estudo e dedicação; superação de limites; ser um mecanismo de aquisição de um futuro melhor; e ampliação do capital social e seus respectivos ganhos, entre outros.

A discussão, no entanto, de que a escola poderia agregar algo ao aluno ao ponto de influenciar seu rendimento acadêmico apesar de sua origem socioeconômica é relativamente nova, datando da década de 1960, tendo como marco, nos Estados Unidos, os resultados dos estudos de Coleman (1966) e Jencks (1972) e na Europa, os trabalhos de Baudelot & Establet (1977), bem como as teorias crítico-reprodutivistas, tão bem representadas por Bourdieu e Passeron (1975). Assim, esses estudos, ao postularem a ineficácia da atuação escolar diante do determinismo da origem social dos alunos, abrem um campo frutífero para pesquisas que

buscavam verificar se os determinantes do sucesso ou do fracasso na escola poderiam, também, originar-se de fatores intraescolares, como tamanho das classes, formação dos professores, qualidade do material didático, entre outros, e não apenas de fatores externos, tal qual previam os achados anteriores (MELLO, 1994). Iniciam-se, portanto, as investigações

sobre o efeito escola, também conhecido como efeito estabelecimento e eficácia escolar (COHEN, 1983; PURKEY & SMITH, 1983; JOYCE & SHOWERS, 1980; DWYER, LEE, ROWAN & BOSSERT, 1983; LEITHWOOD & MONTGOMERY, 1982; CRANDALL et

al., 1983; FULLAN, 1985; PURKEY & SMITH, 1983.)

De maneira análoga, portanto, ao que já foi verificado por outros autores e a despeito da visão tradicional que compreende a escola como ineficaz e reprodutora de desigualdades educacionais (BOURDIEU E PASSERON, 1975; COLLARES E MOYSÉS, 1996; PARO, 1995, PATTO, 1990; entre vários outros), nossos entrevistados relataram experiências positivas com e na escola que envolvem: a percepção sobre a organização escolar como sendo de qualidade em aspectos referentes aos materiais didáticos utilizados ou a processos

internos; existência de práticas pedagógicas que ora partem da instituição, ora partem do professor e que contribuíram muito para a formação do aluno; a disponibilização de informações que orientam sobre o funcionamento do acesso ao ensino superior; a valorização da escola por agregar conhecimentos, bem como formar para a vida, imprimindo um diferencial competitivo; escola como fonte de capital social; além da convivência com professores que orientam e são referência para a formação técnica e humana.

Dessa forma, apresentamos, inicialmente, relatos em que os alunos descrevem as escolas nas quais estudaram como boas por possibilitarem tanto a formação humana quanto técnica, em função de suas práticas pedagógicas, recursos didáticos, espaço físico, corpo docente, bem como de sua própria organização. A propósito, essas impressões descritas por nossos entrevistados acerca das escolas frequentadas coincidem com a definição de Qualidade da Educação proposta pela UNESCO (Boletim Unesco, 2003, p.12), que a pressupõe como decorrente da relação insumos-processos-resultados. Ou seja, a qualidade da educação seria consequente à relação entre os “recursos materiais e humanos, bem como a partir da interação que ocorre na escola e na sala de aula, isto é, mediante os processos de ensino aprendizagem, os currículos, as expectativas de aprendizagem com relação ao desenvolvimento das crianças etc.” Para exemplificar, há o julgamento da aluna Andrea sobre a qualidade da escola na qual cursou todo o ensino fundamental. Em concordância com a definição acima, ela avalia a escola como boa em função dos livros adotados (recursos materiais e didáticos), por sua vez, iguais aos da rede privada, assim como pela atenção dispensada pelos professores (recursos humanos). Além de considerar o número reduzido de alunos em sala propício à interação professor-aluno (processos).

(Como você descreveria as escolas em que estudou?) A primeira era muito boa. A segunda já não tinha condições de aproveitar tanto quanto...a sala era muito lotada…os professores não se importavam tanto. (Mas o que que você considera boa na primeira?) Ah! Assim em questão de livros....os livros que a gente tinha em sala de aula eram os mesmos que as escolas particulares adotam. E os professores procuravam passar aquilo pra gente. Como a sala era bem mais vazia eu...esse contato era mais facilitado. (Você fala com o professor?) É. (Andrea, Direito)

José e Tiago também associam a qualidade escolar das instituições pelas quais passaram aos seus recursos humanos. Nesse caso, em específico, a duas figuras principais: do professor, considerado por eles como qualificado e envolvido, e do diretor da escola, também apreciado como atuante e próximo da comunidade escolar. Sobre esse último, Mello (1994)

corrobora a fala dos alunos ao considerar que, dentre os elementos que caracterizam uma escola eficaz, considerada assim por ofertar um ensino de qualidade, a figura do diretor desempenha um papel importante por conduzir tecnicamente a equipe escolar e o corpo discente, mediante sua liderança administrativa e pedagógica.

Já em relação à contribuição do professor, que, usualmente, aparece restrita aos processos de ensino-aprendizagem, sua importância é ampliada pelas pesquisas sobre efeito- professor que colocam em evidência características individuais como podendo ser benéficas ao contexto escolar. Na perspectiva de Soares (2007), esses atributos seriam os seguintes:

“competência acadêmica, experiência, oportunidade de desenvolvimento profissional, satisfação com o trabalho, comprometimento, valores e percepção das condições de trabalho, bem como inserção na comunidade escolar” (p.226). Observe que essas características mencionadas por Soares (2007) são similares àquelas que os alunos relatam como positivas, tais quais a qualificação e o comprometimento.

A escola básica onde eu estudei, isso é uma coisa muito boa, ela tinha professores fixos, sabe? Então os professores trabalhavam com os mesmos alunos, então tinha contato tanto com os alunos quanto com os pais. E eram professores muito bons também. E a Diretora da escola era excelente. É uma escola referência pro Município e pra Superintendência de Ensino de lá. Uma escola referência lá. (José, Licenciatura em História)

[...]É...e...então uma escola muito humana e muito perto da sociedade. Então, a ligação dela com a sociedade era muito colada. E o Instituto Federal, eu acho que ele envolvia muito a infraestrutura e a tecnologia, sabe? E aí são duas formações muito eficientes. Eu acredito que foram muito eficientes, sabe? Porque, por exemplo, o professor de Química do ensino médio ele era o coordenador do curso superior em Química. Então ele já tinha um conhecimento que ele ia passar pra gente muito diferente do que qualquer outra escola estadual. Ou, por exemplo, a minha professora de Língua Portuguesa. Ela estudou na França. Ela fez Letras, né? E ela foi pra França depois. École alguma coisa lá na França, pra estudar Francês. Então ela sabia Francês também. E a minha professora de Redação que era excelente, no Instituto Federal. Mas, excelente mesmo. Ela tinha passado no Mestrado com louvor, né? E ela passava isso pra gente. Então, eu acho que hoje em dia, o curso, por exemplo, de Português Instrumental que eu fiz no curso superior, é muito inferior ao curso de Redação que eu fiz durante três anos no Ensino Médio. Por causa da qualidade da professora, sabe? Acho que vale muito isso também. (Então, você acha que foram escolas que te agregaram muito?) Agregaram muito. Primeiro com agregação humana e depois com uma espécie de tecnologia, sabe? Infraestrutura. (José, Licenciatura em História)

(Você poderia mencionar pessoas significativas na sua trajetória escolar?)Teve um diretor da escola estadual. Ele já faleceu, mas foi uma pessoa que eu valorizei muito. Sempre quis ajudar a comunidade, que foi a pessoa que criou o projeto de monitoria, de rádio. Nossa! Ele foi um cara muito massa. Então, geralmente eu penso em escola e educação e ele já vem na minha cabeça. Deixa eu ver se alguma

outra pessoa. Ele é o único que eu penso assim. (Desse projeto de rádio você participou, também?) Já. Já. Já. Teve rádio. TV escola. TV escola eu não participava não. Já fui gravado, mas não ajudava. Mas na rádio era tipo...um tipo de projeto que era um grupo de alunos que separavam matérias, que eram interessantes ou que era uma novidade ou coisa do tipo e falava. Dicas de saúde ou dicas de beleza. Piadas....entretenimento com a comunidade. Que a rádio lá da minha cidade chama Rádio Escola. Então, é uma coisa da escola criada por ele. [...] ( (Então de pessoas significativas você lembra dele?)Lembro dele [...]. (Tiago, Ciências Biológicas)

José relata, ainda, acima, outras duas características próprias das escolas eficazes, a saber, a proximidade entre escola e comunidade e a condição de possuírem boa infraestrutura (SOARES, 2007).

Carlos, por sua vez, ao dizer da formação que a escola lhe agregou de maneira complementar a educação que recebeu em casa, acaba por ilustrar a perspectiva da socialização secundária que, habitualmente, dá-se no espaço escolar. Pois, tal qual definido por Berger e Luckmann (1973), “a socialização secundária é qualquer processo subsequente que introduz um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade.”

(E como você vê o papel da escola na sua vida?) O que a escola marcou pra mim? Então, primeiramente, acho que o motivo da gente tá na escola é estudar, né? Então, esse estudo acaba te educando também. Acaba te criando socialmente, te ensinando regras e valores. Então, eu acho que como pessoa a escola contribui muito. Fala: Ah! Educação vem do berço. Sim. Pai e mãe educam, mas na escola também a gente aprende muita coisa (Tiago, Ciências Biológicas)

Já para Daniela e Fabrício, a influência positiva da escola aparece ao possibilitar, a partir de seus processos de ensino e aprendizagem, um diferencial competitivo sem o qual não teriam adquirido o conhecimento necessário aos exames de entrada para o ensino superior. A esse respeito, Sammons (2008), ao caracterizar escolas eficazes, considera que elas assim o são por apresentarem fatores constitutivos ligados à aprendizagem positiva do aluno e um ensino focado nessa aprendizagem. Dentre esses fatores podem ser mencionados: um ambiente de aprendizagem, concentração no ensino-aprendizagem, ensino e objetivos claros, incentivo positivo, monitoramento do progresso. De modo complementar, poder-se-ia dizer, igualmente, que o impacto dessa escola mostrou-se relevante e decisivo, por possibilitar aos

seus alunos “um desempenho acima da linha que define a determinação social.” (SOARES, 2007, p. 14).

[...] Mas se eu tivesse continuado na escola que eu fiz até a oitava série, eu não sei se eu seria qualificada. Eu não daria conta, entendeu? (Você acha que a escola foi um diferencial?) Aquela escola foi. Minha mãe fala que mesmo eu tendo perdido um ano lá, foi, tipo, dinheiro que eles economizaram com cursinho e foi tudo muito bom. Assim, ao mesmo tempo que eles me criticam, eles falam que foi uma boa escolha. Eu ter continuado, mesmo tendo sido repetente. Mas, se eu tivesse, igual era planejado deles de continuar nessa pública, é...o Elias, que é a Estadual. Eu acho que eu não teria tanto conhecimento. Eu ia precisar de um cursinho...ou senão eu ia me acomodar, se eu passasse numa particular eu iria, sabe? [...]Então, eu acho que foi isso, mas acho que isso foi um diferencial pra mim.[...] (Daniela, Engenharia Ambiental)

(Quando a escola entrou pra sua vida?) A escola entrou pra minha vida quando eu entrei pro Cefet. Porque lá o ensino...lá...lá...eu estudei mesmo. Lá foi o estudo. Porque no ensino público, igual eu te falei, não foi pra estudar mesmo assim. O ensino público foi só o básico do básico mesmo. Ler e escrever e fazer dois mais dois. Eu acho que é isso. Aí quando eu fui para o Cefet, lá teve uma cobrança maior, ficava horas e horas estudando. (Fabrício, Ciência da Computação)

E tem algum outro elemento, aspecto que você considere essencial pra sua entrada no ensino superior?) Algum outro elemento? É. A entrada do Cefet foi decisivo, porque o ensino do Cefet me ajudou bastante pra estudar pro SISU, pra prova do ENEM. Isso aí foi decisivo. Porque sem o ensino de lá eu não teria conseguido não. Teria que ter feito um cursinho pra prestar o Vestibular. (Fabrício, Ciência da Computação)

A escola surge, igualmente, nas falas a seguir como um local de acesso a informações atualizadas em torno dos mecanismos de entrada no ensino superior, possibilitando aproximações sucessivas do contexto universitário, tal qual vivenciado por José. Ou no caso de Mariana, em que a universidade é apresentada como perspectiva de adquirir uma profissão, enquanto um cenário futuro possível. Ou, ainda, como no relato de Fabrício, em que a universidade lhe é apresentada fisicamente por intermédio da escola. Percebe-se, assim, a

escola atuando como fonte de capital social, na medida em que, ao funcionar como uma

rede de relações, possibilitou a esses alunos que tomassem conhecimento da possibilidade de cursarem o ensino superior.

(Quando e como a Universidade entra como projeto na sua vida?) Eu já tinha o imaginário, no ensino fundamental: um dia eu vou chegar na universidade. Mas como projeto foi a partir do ensino médio, assim. ( No ensino fundamental vocês já discutiam questões de universidade?) Tinham vários programas na escola, por exemplo, é...o....Proerd, o...esqueci o nome...mas era pra tratar sobre sexualidade. Esqueci mesmo o nome que era o programa com a minha professora de Ciências.

Então...é...eu tinha...como eu vou dizer....a quem recorrer. (Você fala em que sentido?) Por exemplo...ah! Como é que eu entro. Ah! Você entra assim...Ah...e depois? “Você faz assim, Lucas. E, mestrado? Aí os professores estavam abertos e trabalhavam com isso porque era difícil alguém se interessar assim...ir pra universidade. Eles falavam também. Por exemplo, a minha professora de português lá um dia abriu a página e tava escrito lá universidade no livro didático. Então, vamos discutir universidade. Como é que se entra na Universidade. (Você tava na oitava série?) Hummm....Eu lembro disso na sexta série, sétima série. Ah! Mas Mestrado? Como assim? Ah! Cê faz isso. Faz uma prova, depois submete um trabalho... Só que é bem básico. Não é nada assim: você vai falar sobre historiografia contemporânea...Nada assim. Mas é uma noção e básica pra uma criança entender, né? (José, Licenciatura em História)

(Mas você escutava em algum outro contexto sobre a Universidade, sobre como você tinha que entrar...Como é que você ficou sabendo disso?)Ah! Foi por causa, tipo, da escola. A escola falava: “cê vai fazer um vestibular pra você ter uma profissão.” No ensino médio. Basicamente era isso. (Mariana, Licenciatura em Letras)

[...] Porque no Cefet quando você chega no terceiro ano, a UFOP lá te dá umas aulas de programação. Uma parceria pra fazer Olimpíadas Brasileira de Informática. Fazer uma prova de programação. (Fabrício, Ciência da Computação)

Em suma, o conteúdo das falas apresentadas aponta a influência positiva da escola para a trajetória longeva de nossos entrevistados. Para isso, parece confluir o fato de estarem matriculados, em geral, em escolas tidas como de qualidade. Compreendidas assim por contarem com boa infraestrutura, bons livros didáticos, corpo docente envolvido e qualificado, bem como Direção atuante. Tais características, por sua vez, ditas de uma escola eficaz, favoreceram a aquisição, por parte do aluno, de um diferencial competitivo diante da concorrência escolar, bem como a superação da falta de informações sobre a existência e forma de acesso ao ensino superior.

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