• No results found

Pai J. (35 anos).

É o responsável espiritual – e neste caso é também o principal dirigente administrativo – por tudo que acontece no terreiro. Tem como principal função cuidar espiritualmente da “Casa” e dos médiuns, orientando e dirigindo os trabalhos rituais abertos e fechados ao público. Além disso, Pai J. responde pelo correto cumprimento “no plano terreno” das diretrizes estabelecidas na Aruanda.

2) Mãe Pequena:

Jnt. (37 anos – irmã de sangue e de santo de Pai J.)

Médium desenvolvida que ocupa a segunda posição na hierarquia do terreiro. Tem como função auxiliar e substituir o pai-de-santo quando necessário, bem como deve procurar estabelecer uma relação íntima e direta com os médiuns. Jnt., com seu jeito brincalhão, a primeira vista pode parecer não se preocupar muito com a tarefa de “orientar” os membros da “Casa”. O fato é que ela cumpre esta função ao “servir de exemplo” como ela mesma diz, não sendo necessário falar a todo tempo o que outros devem fazer. Deste modo, agindo muito mais do que falando, Jnt. auxilia os médiuns (principalmente os iniciantes) quanto à disciplina, a pontualidade, o vestuário, e também no que se refere à organização de toda a parte material dos rituais do culto, como as obrigações e festividades.

3) Médiuns:

São consideradas médiuns todas as pessoas que apresentam a capacidade de estabelecer algum tipo de comunicação entre o mundo dos vivos e dos mortos. Seja através de incorporações, visões, recepção de mensagens em sonhos ou escutando vozes, seja pelo fato de apresentar uma especial habilidade para tocar e cantar ou

78 sensibilidade espiritual para compreender e agradar orixás e entidades, servindo também como “interpretes” entre estes e os fiéis. A cada um destes “dons” ou habilidades corresponde um nome e uma função específicos, a saber:

a) Médiuns “rodantes”:

Homens e mulheres que “trabalham” incorporados, cujas entidades dão consultas e passes.

b) Médiuns não rodantes * Cambonos:

Subdividido em duas categorias (ogãs - homens) e (equedes - mulheres), este é um cargo de fundamental importância para tudo corra bem numa “gira”, festa ou qualquer outra cerimônia. Cumprindo os papéis de “pais” e de “mães” do terreiro, exercem a função de zelar, acompanhar, dançar, cuidar das roupas e apetrechos (chapéus, cocares, turbantes, saias) específicos de cada santo da “Casa”. São eles também que lhes servem bebidas, fumos e enxugam o suor do seu rosto.

As equedes e ogãs conduzem os médiuns incorporados pelo barracão e é deles a responsabilidade de ajudá-los a “desvirar” ou “acordar” (desincorporar), acolhendo-os e observando suas as condições físicas após o transe. Outro papel fundamental exercido por este grupo de médiuns se refere à recepção e auxílio prestado as pessoas que se dirigem ao terreiro em dias de “giras”, festas ou consultas particulares66. As atuais equedes da “Casa do J.” são An., F. e Tt. que coordenam toda a dinâmica dos trabalhos e interações que ocorrem nestas ocasiões e esclarecem a assistência quanto às orientações dadas pelas entidades, servindo como uma espécie de tradutores entre dois mundos.

* Ogãs de Toque67:

Os ogãs também são considerados pais da “Casa”, mas estes que fazem parte da “curimba”68 têm como responsabilidade especial “puxar” os pontos cantados e tocar os

66 Este grupo de freqüentadores do terreiro é chamado de “assistência”. 67

Também chamado de “curimbeiros” ou “tabaqueiros”.

68 Curimba é o nome dado ao grupo responsável pelos toques e cantos sagrados dentro de um terreiro de

umbanda. São eles que percutem os atabaques (instrumentos sagrados de percussão), assim como conhecem “pontos cantos” para cada uma das muitas fases dos rituais umbandistas. Esses cantos, junto dos toques de atabaque, são de suma importância para a correta realização de uma cerimônia.

79 atabaques. Ajudar na evocação das entidades e auxiliar a manter a “firmeza” da corrente mediúnica durante as cerimônias e nos pequenos intervalos em que não estão tocando, colaboram como os companheiros assumindo também algumas tarefas de “cambono”. Nas palavras do G.:

RENATA: Para tocar os atabaques tem que ser ogã? Ou não? G.: Tem que ser.

R: As meninas não tocam? G: Só toca ogã, que é homem. R: As equedes não?

G: Não. Equede na verdade é mãe e tem outra função dentro da “Casa”. Por exemplo, se vem um santo, é ela que vai lá dar assistência pra esse santo, vesti-lo de forma adequada, enfim, vai ficar ali zelando por esse orixá. De dançar com ele dentro da “casa”, porque o ogã não dança. Ou seja, vai ficar zelando por aquele espírito ali. Ela é como se fosse um anjo da guarda dele que está ali. A gente também é, só que na nossa parte é mais de segurança da “casa”. R: De preparar as coisas...

G: De ter contato assim direto. Vamos supor que tenha que fazer um prato específico para aquele orixá, é ela que vai fazer, dentro da cozinha, por exemplo, o que não impede que o ogã também possa ajudar, mas é ela que vai fazer.

R: E todo ogã é obrigado a saber tocar?

G: Na verdade, o ogã quando é confirmado, cada um recebe um cargo dentro da “Casa”, específico. O que não impede de você aprender de tudo um pouco. Eu até aconselho que aprendam.

R: Mas são vocês mesmo que descobrem se são ogãs ou não?

G: Não, o santo é que determina qual é o seu posto, porque tem ogã de toque, outro só vai cantar, tem ogã também que só vai ficar recebendo a assistência e vendo quem é, qual é o caso ou não. Uns já vão fazer serviços de rua, que é levar despachos, oferendas, alguma coisa assim. Tem ogã, por exemplo, que só vai na mata pegar folhas, é especialista em folhas no terreiro. “Qual é a folha boa pra isso, isso e isso?”. Aquele ogã sabe em que ponto ele vai achar. São vários tipos de ogãs, na verdade. No meu caso, por exemplo, na “casa” da minha Mãe [de santo] eu sou o primeiro, minha função é dar aos outros que vão chegando condições de tocar a “casa” pra frente. R: E os meninos que tem tocado aqui na “Casa do J.”são ogãs também?

G: São.

(Entrevista gravada em 23/09/2008)

No atual estágio em que se encontra a “Casa do J.”, além dessas tarefas próprias ao trabalho mediúnico, seus membros cotidianamente assumem outras funções diversas para a manutenção do terreiro, tais como tesoureiro, administrador, relações públicas,

80 cozinheiro, faxineiro, pintor, pedreiro, marceneiro ou motorista. De fato, acompanhar a rotina de funcionamento desse terreiro me levou a identifica que ali há muito mais que um mero conjunto de pessoas que executavam, individualmente, tarefas pré-definidas. É graças a um efetivo envolvimento coletivo que se torna possível ter tudo pronto, tanto na parte espiritual quanto na parte material, para receber entidades e consulentes nas “giras”, festas e outras cerimônias e rituais sagrados da umbanda.