O modo mais recorrente de compreender a relação entre atenção e aprendizagem, sobretudo no campo pedagógico, toma o “prestar atenção” como uma qualidade individual que possibilita que os sujeitos aprendam. Na escola, por exemplo, vários são os mecanismos que visam direcionar a atenção dos estudantes exclusivamente para os “conteúdos” a serem aprendidos. Assim, a organização do espaço escolar, por exemplo, com a disposição das carteiras individuais e enfileiradas, as janelas acima do alcance da visão, a imposição do silêncio e da ordem, etc., visam direcionar todos os sentidos dos alunos para a figura do professor e para o que está sendo dito e feito por ele.
A definição de educação da atenção proposta por Ingold (2001 a), no entanto, aponta para outra direção, buscando justamente ultrapassar a perspectiva convencional. Esta expressão foi tomada emprestado de James Gibson (1979: 254) que desenvolveu na década de 1970 a abordagem conhecida como “psicologia ecológica”, que trata a percepção como “uma atividade de todo o organismo num ambiente”, em vez de “uma mente dentro de um corpo”.
O que Gibson disse foi que não é absorvendo representações mentais ou esquemas para organizar dados brutos de sensações corporais que nós aprendemos, mas através de uma sintonia fina ou sensibilização
62 de todo o sistema perceptivo, incluindo o cérebro e os órgãos receptores periféricos junto com suas conexões neurais e musculares, com aspectos específicos do ambiente (Gibson, 1979: 246-248). (Ingold 2001a: 142).
A proposta de Ingold é, pois, buscar a superação de um modelo de compreensão do conhecimento como informação e da aprendizagem como transmissão e/ou processamento de informações. A educação da atenção deve ser compreendida como sendo a capacidade de agir prontamente em relação às diferentes situações, e se constitui do desenvolvimento de certas modalidades de atenção com o mundo. Para o autor, ela equivalente, pois, a um processo de “afinação/refinamento” do sistema perceptual (2001a: 142).
As várias capacidades dos seres humanos de arremessar pedras a praticar “cricket ball”, de subir em árvores a subir escadas, de assobiar a tocar piano55, emergem através do trabalho de maturação dentro do campo da prática constituída pela atividade de seus predecessores. Não faz sentido perguntar se a capacidade para escalar está no escalador ou na escada, ou se a capacidade para tocar piano reside no pianista ou no instrumento. Essas capacidades não existem nem dentro do corpo ou cérebro do praticante nem fora no ambiente. Elas são especialmente propriedades de sistemas estendidos ambientalmente que atravessam o corpo (Ingold, 2001a: 133).
A perspectiva analítica apontada por Ingold, associada às observações de campo, permitiu-me entender a constituição da habilidade umbandista como responsividade de “movimentos para as condições do entorno que nunca são as mesmas de um momento para o outro” (Ingold, 2001 b, p. 21). Ou seja, como um tipo de educação da atenção. Conseguir acertar o tempo de batida nos atabaques, aliando força e precisão; conhecer as danças e os diversos “pontos cantados” dedicados a cada um dos santos e entidades; saber interpretar cheiros, ruídos e expressões emitidos pelos espíritos que se manifestam no terreiro; compreender os “mistérios” envolvidos nos transes mediúnicos, enfim, participar ativamente da religião é condição fundamental para que os umbandistas se produzam enquanto praticantes habilidosos (no sentido que Ingold atribui ao termo).
Pelo fato da habilidade umbandista ser bastante complexa e também muito sutil, ela exige a aprendizagem de um tipo de atenção que possibilite compreender aspectos
55 Em outra obra (2000), Ingold diz que a qualidade da atenção numa performance musical, por exemplo,
63 do culto, por exemplo, invisíveis a alguém “estranho” (outsider ) àquele universo. Sobre este aspecto, é importante destacar que conseguir perceber os próprios movimentos, os movimentos dos outros praticantes e agir (prontamente) no terreiro, pode parecer simples apenas para olhares externos. Na verdade, os praticantes pouco experientes têm dificuldade de captar os sinais emitidos pelo corpo dos outros e de antecipar ações. Às vezes, mesmo quando chegam a percebê-los, não conseguem, em tempo hábil, reagir ao outro.
Já para um praticante veterano (e, portanto, habilidoso) o terreiro é percebido quase como uma extensão do seu próprio ser. Isso significa que os novatos só se tornam praticantes habilitados quando são capazes de afinar continuamente seus movimentos segundo as condições do ambiente (Ingold, 2000: 415). A atenção não é, portanto, uma capacidade previamente estabelecida, pois que se constitui nos movimentos e ajustamentos a diferentes situações. Agir é prestar atenção, porque “a atenção do agente é totalmente absorvida na ação”56 (2001 a:142). O tipo de percepção que vão gradativamente desenvolvendo os permite “obter características críticas do ambiente” que inicialmente falham em notar (Ingold, 2001 a:142).
Os relatos dos integrantes da “Casa do Junhinho” possibilitam compreender também que, na umbanda, não está em jogo a assimilação passiva de um programa definido, mas a aprendizagem de uma relação, da qual é preciso considerar a dinâmica inteira e suas nuanças: o eu, o outro (humano ou não), os objetos, as energias manipuladas e o ambiente. Nesse caso, o que está em questão é aprender a partir da percepção das diferenças, já que, como afirma Bateson (1986), não existe aprendizagem sem a percepção da diferença, pois o processo de conhecimento é um processo comparativo.
A mudança na forma de participação não segue, contudo, um ritmo homogêneo. Por esta razão os umbandistas pouco experientes não precisam dominar imediatamente todos os aspectos da prática. Do mesmo modo que a mudança na forma de participação (ou a movimentação para a participação plena, como propõem Lave e Wenger, 1991), o
56 Na mesma linha de argumentação, Kastrup (2005) recorre a Deleuze e Varela para afirmar que
aprender é antes “uma questão de invenção que de adaptação”. Usando o exemplo da música, a autora relata que “a habilidade musical não é meramente técnica, nem visa a um adestramento muscular e mecânico. Está envolvida aí a aprendizagem da sensibilidade, o que significa a aprendizagem de uma atenção especial que encontra a música, deixando se afetar por ela e acolhendo seus efeitos sobre si” (p. 1277-8).
64 tornar-se habilidoso também significa aprendizagem, desenvolvimento. Todavia, tal mudança traz consigo uma ampliação do comprometimento e da responsabilidade o que exigirá do filho-de-santo, mais regularidade na realização dos rituais e maior cuidado no que se refere à manutenção da “Casa”, ao atendimento das pessoas que acorrem ao terreiro em busca de soluções para seus problemas, aos “agrados” oferecidos aos santos e entidades, etc.
Assim, as múltiplas habilidades dos seres humanos emergem através do “trabalho de maturação” no interior de campos de prática constituídos pelas atividades de seus antepassados. Para Ingold (2001 a:133), não faz sentido perguntar se a capacidade de subir está na escada ou em quem sobe. Esta e outras capacidades não existem dentro do corpo ou cérebro do praticante e nem fora no ambiente. Elas são sim, inste, propriedades de sistemas ambientalmente estendidos que entrecortam as fronteiras do corpo e cérebro.
Parafraseando Ingold (2001a), a habilidade para praticar umbanda não está, portanto, no praticante ou nos objetos sagrados que manipula. Ela é fruto do trabalho que as pessoas fazem, construindo ambientes para as suas próprias gerações e as gerações futuras, contribuindo diretamente para a evolução das capacidades humanas.
Isto porque, é importante ressaltar, as aprendizagens da e na umbanda possibilitam não só a produção do praticante (ou seja, do umbandista), mas a produção da prática social em si. Os membros da “Casa do J.”, ao se constituírem praticantes de umbanda, produzem a própria umbanda, com seus valores, normas, significados, gestão, “segredos”. Por sua vez, a própria prática na qual foram se constituindo praticantes, orienta e faz parte dos conhecimentos que dispõem e colocam em ação ao se relacionarem com novos membros57.
Isso não significa, contudo, um processo mecânico de reprodução cultural, afinal na umbanda — como em outros contextos sociais — conhecimento e poder se entrecruzam, e a realidade não é dada. Sendo assim, para tratar destas questões, Ingold lança mão e dá destaque a dois aspectos inerentes a natureza dinâmica prática social – e que adquirem fundamental importância para descrever os processos de habilitação que
57 A habilidade que os membros mais experientes da “Casa do J.” já construíram está longe de ser o ponto
final do processo de aprendizagem de um praticante de umbanda. Umbandistas que se tornam pais ou mães-de-santo e que, por ventura, abrem seus próprios terreiros, por exemplo, necessitam de aprender continuamente outros elementos da prática religiosa.
65 ocorrem cotidianamente na “Casa do J.” – a cópia e o ensaio58.
Para o autor, o ato de copiar envolve sim repetição de tarefas e exercícios, mas não deve ser compreendido como uma mera “transcrição automática de dispositivos cognitivos (ou instruções para construí-los) de uma cabeça para outra”. Num sentido mais de imitação do que de transcrição, Ingold propõe compreendermos a cópia como “um aspecto da vida de uma pessoa no mundo”, como um processo “desenvolvimental” que implica “uma questão de seguir, nas ações individuais, aquilo que as outras pessoas fazem” (2001b: 130).
Já o ensaio é definido como forma fundamental de aprendizagem por se referir a um processo de aprendizagem que ocorre a partir do “exercício de mergulho no que se está aprendendo”. Segundo o autor (2001 b: 131) a capacidade de percepção e ação, nas diferentes práticas humanas (como andar, atirar, reter, etc.), são constituídas por meio da prática e do treino no ambiente característico da atividade e, principalmente, sob a orientação dos mais experientes. Logo, o ensaio — ou processo de “repetir o mesmo movimento como uma preparação ou condução para o seu desempenho prático” (Ingold, 2000: 418) — seria a experimentação dos movimentos em diferentes circunstâncias e ambientes.
Enfim, é participando (de diferentes modos) da prática religiosa que, paulatinamente, os membros da “Casa do J.” vão conseguindo oportunidades de atuar mais efetiva e qualificadamente (o que significa chegar a compreender certas maneiras de se relacionar, certas formas lingüísticas e o domínio da ação ritual) na comunidade, e assim produzem (e não adquirem) habilidade.