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Os avanços do pensamento materialista, racionalista e científico, o surgimento de novas formas políticas de arrazoar sobre o poder, fizeram com que o movimento anticlerical se tornasse extremamente ativo no curso do século XIX. Assistimos, nesse período, a um processo generalizado de culto à mudança, em oposição ao fixismo reinante de décadas anteriores, em que a burguesia nasce e se estabelece como força hegemônica. É um tempo profundamente marcado pela instabilidade, pelas guerras no campo ideológico, especialmente por um conflito travado entre a burguesia e o proletariado, e destas duas classes, contrárias a uma Igreja extremamente dogmática, pouco espiritualista e, em certos casos, avessa aos problemas sociais.
É recorrente, em obras naturalistas, uma oposição política acentuada ao clero, não raramente apresentada em estado simbiótico com as teses biológicas deterministas. Entretanto, o espírito anticlerical já se fazia presente em movimentos estéticos anteriores, de orientação burguesa, como o romantismo. Ernest Renan, por exemplo, árduo defensor do regime autoritário francês, chegou a ser elevado a status de pensador da Terceira República, por seu escancarado anticlericalismo científico, que fez enorme sucesso, particularmente por sua obra La vie de Jésus (1863), em que, baseado na crítica evangélica de David Friedrich Strauss126, nega a divindade de Cristo. De todo modo, a gênese da literatura de veio anticlerical, assumido por naturalistas ou seus predecessores, os realistas, também chamados de anti-românticos, era o mesmo, ou seja, uma sujeição absoluta à ciência enquanto força capaz de tudo desvendar e, por conseguinte, desprezo a sistemas ideológicos destituídos de lógica e incapazes de comprovar o indefensável.
Nesse sentido, a percepção de veracidade, outorgada, exclusivamente, àquilo que é passível de experimentação, fez com que a religiosidade assumisse o papel de inimiga a ser definitivamente derrotada, o que, historicamente, se materializou, simbolicamente, na figura da Igreja Católica. Além do mais, a ciência, dentro de uma perspectiva burguesa, passa a ser vislumbrada como a única via capaz de resolver, em caráter decisivo, as agruras da humanidade, o que não havia sido feito pelo cristianismo em todo o período no qual submeteu
126 Teólogo alemão e discípulo de Hegel. Duvidando da veracidade dos quatro evangelhos canônicos, publica em 1835 Leben
Jesu, Kritisch bearbeitet (Vida de Jesus criticamente analisada), defendendo que a vida de Jesus não passava de um mito
no intuito de se comprovar uma ideia religiosa. Foi a principal obra anti-religiosa cultuada pelos hegelianos. Em 1864 publica uma segunda edição da obra, só que um pouco mais abrandada. Dois anos antes de sua morte, ocorrida em 1874, publica Der alte und der neue Glaube (A velha fé e a nova fé), em que defende a impossibilidade de ser cristão no mundo moderno, resultado de sua adesão ao materialismo.
a sociedade a seu domínio. Em suma, a crença salvífica na ciência se oporia, frontalmente, ao obscurantismo religioso.
Entretanto, o anticlericalismo oitocentista brasileiro se distancia do racionalismo revolucionário francês, à medida que esse pretendeu servir de instrumento à ascensão de uma classe alijada do poder, enquanto o primeiro, instrumentalizando a ciência, inclusive na esfera literária, pretende se eternizar como força hegemônica. Em outras palavras, o primeiro seria revolucionário, e o segundo conservador. A ciência, portanto, outorgaria à burguesia um instrumental potente na defesa do progresso enquanto fenômeno instaurado a partir da ordem natural das coisas, sem derramamento de sangue ou golpes políticos:
O anticlericalismo burguês do tempo conjugava-se nitidamente com essa confiança científica confortadora das ilusões da classe dominante. Já não era o racionalismo dos tempos da Revolução, de que ficaram tão impregnados inclusive os seus melhores historiadores - peculiares à fase ascensional e, portanto, desobrigado de compromissos, livre em seus movimentos - mas um anticlericalismo firmado em materialismo empírico e estático, vulgar e vesgo.127
Acreditamos ser perigosa qualquer leitura que tenha por fim estabelecer padrões valorativos entre estes dois movimentos anticlericais, constritos a tempos cronológicos tão distintos. O fato de o anticlericalismo oitocentista ter sido moldado por intentos singulares, e insuflado por um espírito menos beligerante e sangrento que o revolucionário francês, devido ao seu próprio status de conhecimento positivado, não o converte, de modo algum, numa modalidade mitigada de anticlericalismo, ou menos ainda, de um fenômeno elitista, destituído de interesses sociais claros e profundos.
A concepção materialista da vida proposta pelo realismo literário é fruto de uma atmosfera histórico-social mais ampla, marcada por uma profunda hostilidade à autoridade hegemônica da Igreja que não deixou sequelas, apenas, na alma da burguesia, extasiada pelos progressos técnicos e científicos de então, mas também na dos operários franceses, pouco preocupados com questões de cunho intelectual, mas insatisfeitos com a indiferença dos burgueses católicos frente aos graves problemas sociais que os acometiam, levando, muito deles, a substituir a religião católica pela fé no progresso social128.
127 SODRÉ, Nelson Werneck. O naturalismo no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965. p. 19. 128
A abordagem de vários temas de “cunho naturalista” por romancistas, como o anticlericalismo, desenvolvido por Renan, já denunciava uma mudança de perspectiva social e cultural na Europa oitocentista. Renan e Taine já se autodenominavam positivistas, por considerarem que toda análise de realidades palpáveis, deveria ser conseguida pela adoção de um método, circunscrito à lógica formal.
Portanto, o advento do anticlericalismo como fenômeno literário, não se principiou com a escola naturalista. Apesar de o termo ter surgido no século XIX, na França, a fille aînée
de l'Église, tal noção existe desde o Antigo Regime. Acredita-se que as primeiras e grandes
manifestações anticlericais políticas datem do século XVIII, na Galícia, movidas pelo desejo de independência contra o papado. A ideologia anticlerical se afirma, idealmente, graças ao Iluminismo e a maçonaria. Com a Comuna de 1871, surgem manifestações violentas contra a Igreja e seus partidários, o que culminou na execução de centenas de clérigos e religiosos.
Nos anos subseqüentes, a Igreja perde influência e espaço consideráveis na França: é revogada a lei que vedava exercer qualquer atividade laboral aos domingos (1879); os cemitérios perdem seu caráter confessional (1887); os hospitais são laicizados e os crucifixos são retirados das salas de audiência dos tribunais (1884); o divórcio é novamente autorizado (1884); as ordens e congregações religiosas não autorizadas são dissolvidas (1880); o ensino primário é laicizado (1882), bem como seus professores (1886). É fácil compreender que estas medidas legais tiveram um impacto sobre a literatura e os intelectuais de então, em especial os realistas, que embasavam seu ofício de escritor no desejo de desvendar a verdade sob o viés científico.
De fato, no contexto histórico francês, travou-se um luta ideológica extremamente acirrada no campo literário em oposição à religião e sua instituição de maior representatividade, a saber, a Igreja Católica. Entretanto, é bom salientar que, mesmo durante a escola romântica, a presença da imagem do padre é frequentemente explorada nos textos folhetinescos. Mencionaremos, nesse sentido, apenas algumas obras anteriores a Zola que contemplam essa figura em suas páginas: Le rouge et le noir (1830); de Stendhal; Le curé de
Tours (1833), de Balzac; Volupté (1835), de Sainte-Beuve; La tentation de Saint Antoine
(1874), de Flaubert; Le Missionnaire (1869), de Ernest Daudet e La confession de l’abbé
Passereau (1869)129, de Alfred Assolant; Aurélien (1863), de Gaston
129
Ambos os romances se desenvolvem enquanto texto de oposição ao celibato sacerdotal. Consideradas obrassem forte apelo estético, influenciam Zola ao sublinhar no caráter desumano da continência sexual imposta aos clérigose do tom irônico do combate (OUVRARD, c1986).
Lavalley e Le château d’Issy ou Les mémoires d’un prêtre (1854), de Alphonse Esquiros130, vão na mesma direção de forte crítica ao celibato clerical; Un prêtre marié (1865), de Barbey d’Aurevilly.
Além de obras com autoria conhecida, há um grande número de obras sem autoria, que chegaram até nós. Dentre estas merece destacar uma série vastíssima, assinada, apenas, com três estrelas. Trata-se de romances de tese denunciando os abusos da Igreja romana, em especial o ultramontanismo, e defendendo, por outro lado, as posições da Igreja da França. Dentre estas obras sem autor conhecido, citamos algumas: Le Maudit (1864), La Religieuse (1864), Le Jésuite (1865), Le Moine (1865), Le Curé de Campagne (1867), Les Odeurs
Ultramontaines (1867), Les Mystiques (1869) e Les Mystères d'un Evêche (1872).131
Além dos padres, abundam as figuras de outros personagens, geralmente mulheres, devidamente caracterizadas como pertencentes à Igreja ou afetas às coisas da religião, bem como enredos que ridicularizam a atuação pastoral da Igreja, pouco sensível à pobreza material que devastava a sociedade européia. Em Les Misérables (1862), Victor Hugo (1802- 1885) denuncia a inércia das forças religiosas frente às mazelas que afligiam os pobres e incultos por toda a França. Na produção poética, o escritor nascido em Besançon refuta o caráter dogmático e moralista do catolicismo romano, propondo uma religião de tom espiritualista e humanitária. Influenciada por esse mesmo viés, George Sand (1804-1876) produz romances : Spiridion (1838), Le compagnon du tour de France (1840), Consuelo (1842-1845) e Le pêché de M. Antoine (1847).
A resposta da Igreja tarda, mas é enérgica: todas as obras de George Sand são proscritas pela Congregação do Índice, em dezembro de 1863 e, posteriormente, em 27 de junho de 1864, os mais importantes textos realistas de escritores franceses são incorporados à lista proibida, tais como, Les Misérables (1862), Madame Bovary (1857) e Salambo (1862).
130
Escritor romântico e político francês, nascido em 1812 e morto em 1876. Abandona a Igreja Católica e torna-se um anticlerical militante por influência de seu amigo Lammenais, padre e filósofo francês liberal que, condenado pelo papa Gregório XVI por meio da Encíclica "Mirari vos", em Agosto de 1831, abandona o ministério presbiteral. No mesmo ano em que Lammenais é sepultado como indigente por se recusar a reconciliar-se com a Igreja, Esquiros publica a obra Le
château d’Issy ou Les mémoires d’un prêtre. Em um dos trechos condena veementemente o obscurantismo da formação
oferecida aos candidatos às ordens sacras pelo Séminaire de Saint Sulpice e defende Lammenais: “A Besta do Apocalipse, com suas sete cabeças, é uma criatura amável, diferente da ideia que os sulpicianos fazem do Senhor Lammenais. Um professor de filosofia era encarregado de exumar, todos os anos, o Essai sur l'indifference en matière de
religion [obra em que o padre Lammenais, ainda em comunhão com Roma, crítica a formação religioso-cultural do
período napoleônico e do galicanismo francês, defendendo a autoridade do pontífice como guia da razão] numa refutação latina que durava seis meses e, certamente, a sua dialética era tão fria quanto um túmulo. Quanto aos novos livros de Lammenais, não se deve mesmo pronunciar o título (ESQUIROS, 1854, p. 57, tradução nossa).
131
Estas obras, publicadas sob o pseudônimo abbé ***, são de autoria do abbé Jean-Hyppolite Michon. Literatura de veio panfletário e virulento, denuncia os abusos do ultramontanismo, defendendo as posições do galicanismo, ou seja, uma tendência separatista da Igreja Católica da França em relação à Roma. Zola lançou críticas em relação a estes romances pelos seus erros na tessitura de um discurso imparcial, atributo basilar de uma literatura naturalista-científica. Entretanto, o que se observa nas obras zolianas é que o autor francês “[...] adere e supera os ataques do autor contra as vocações forçadas e as perseguições contra aqueles que abandonam os votos religiosos.” (OUVRARD, c1986, p. 149, tradução nossa).
Estes dois últimos, de autoria de Gustave Flaubert, por revelarem, de modo exageradamente visceral, a profundidade e complexidade da realidade psicológica e social dos homens, foram considerados extremamente perigosos à ordem coletiva.
Evidencia-se, desde já, que as circunstâncias históricas estabelecem uma relação de dependência com a literatura, diluindo, consideravelmente, a autonomia do escritor enquanto criador absoluto da fala:
O sujeito do discurso não poderia ser considerado como aquele que decide sobre os sentidos e as possibilidades enunciativas do próprio discurso, mas como aquele que ocupa um lugar social e a partir dele enuncia, sempre inserido no processo histórico que lhe permite determinadas inserções e não outras.132
E desta constatação justifica-se a profusão de textos anticlericais no século XIX. Se Zola não é pai do anticlericalismo oitocentista, o que o singularizaria dos seus predecessores romancistas? Acreditamos que a particularidade em Zola é sua pretensão em dar um caráter cientificista à literatura, convertendo-a em instrumento confiável na representação da realidade. Com o extraordinário avanço da ciência, os recursos estilísticos do Romantismo, em especial o falseamento, o desfalque da realidade, a preocupação com o sensorial e a superficialidade da análise, já não atendem aos anseios de uma sociedade dividida, marcada por diferenças inconciliáveis. A interpretação positivista, pretensamente neutra, objetiva e profunda dos fatos sociais, apresenta-se como um movimento capaz de dar uma resposta mais coerente à expansão burguesa e à ebulição de novas ideias em vários campos do saber. Nesse aspecto, Zola e seus seguidores aprofundam e sistematizam o veio racionalista do texto literário em comparação aos seus predecessores.
Zola, cônscio da importância de um arcabouço teórico da escola que está seno gestada, acolhe os princípios filosóficos positivistas, que lhe permitiram, assim, obter reconhecimento em um momento histórico no qual o método experimental se impunha com exclusividade, o que culminou na feitura do Roman Experimental, obra que pretendia ser a consolidação, no campo literário, das conquistas científicas da época:
132 MUSSALIM, Fernanda. Análise do discurso. In: MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Orgs.). Introdução à
Taine, meu mestre, declara que só é grande romancista aquêle cuja obra encerra uma filosofia. [...]. Necessito planejar completamente a obra que vou empreender, preciso procurar a lei a que tôdas as coisas devem obedecer para que possa impor-me e tornar-me, por meu turno, o maior romancista de meu país e de meu tempo. É o que quero. Julgo inútil buscar outro fundamento. Pois bem, filosofia não é o que me faltará; arranjarei uma previàmente. Necessito de um sistema que seja totalmente nôvo, tirado do movimento de ideias do meu tempo... Qual deve ser?... Creio na Ciência... É nela que está o futuro e o ponto de vista que desejo. 133
Contudo, não foi a obediência estrita a um método de cunho positivista que fez com que o Naturalismo representasse uma fissura no modus operandi da literatura oitocentista européia. Como asseverado anteriormente, o que lhe garantiu este caráter singular em relação à escola romântica foi o seu modo de interpretar os mais variados aspectos constitutivos da vida do homem, materializado em estudos fisiológicos do ser humano, pautados no determinismo biológico. A linguagem do escritor deveria manifestar, com limpidez, os dramas sociais vinculados aos aspectos hereditários, e a influência do meio na degeneração do homem e dos grupos sociais. Guiado pela “ciência universal”, Zola134 era resoluto quanto ao seu linguajar direto, sem amarras e emendas, disposto a denunciar tudo o que contrariasse as leis científicas: “Eu escolhi os meios violentos e mantenho meu chicote na mão”.
Idealisticamente, pode-se concluir que, ao dar primazia ao sentido do real na produção literária, Zola e seus discípulos se afastam de qualquer corrente ideológica, transformando a literatura em fenômeno objetivo e impassível, analisando, impassivelmente, o mundo e, colocando-se fora dele. Entretanto, sabemos que toda prática discursiva se edifica em um solo previamente preparado, o que chamaríamos de ideologia, ou seja, um campo do saber que se ocupa em estudar as ideias, sobretudo quanto a sua gênese. Destutt de Tracy135, criador do termo “ideologia”, postulava à ciência das ideias a missão de tornar conhecida a verdadeira natureza humana, atribuindo-lhe um sentido plausível ao reconhecer sua constituição meramente biológica, resultante do contato entre o homem, organismo vivo e sensível, e o seu meio natural de vida. Não por caso fortuito, Auguste Comte foi inspirado por suas ideias.
Semelhante ao Romantismo, o Naturalismo nasce como um fenômeno eminentemente burguês. O que o singulariza é o fato de que o último nasceu com a ascensão da burguesia, enquanto o outro é resultante de sua decadência. De todo modo, Zola reconhece o papel messiânico da escola literária ainda embrionária, ao afirmar que o progresso somente seria alcançado, quando a sociedade adotasse um olhar naturalista em relação às suas próprias
133 Apud SODRÉ, 1965, p. 20. 134
ZOLA, Émile. Correspondance. Montreal: Presses de l’Université de Montréal-C.N.R.S, 1978. t. II, p. 307, tradução nossa.
135
Antoine-Louis-Claude Destutt, o conde de Tracy, nascido em 1754 e morto em 1836, foi um filósofo, político, soldado francês e líder da escola filosófica dos Ideólogos. Criou o termo idéologie, tendo surgido em 1801, na obra Éléments
mazelas, abandonando, de uma vez por todas, a estratégia de explicar os fatos sociais pelo viés metafísico. Mesmo que Zola não tenha defendido um tom de denúncia à sua literatura, ele pretende outorgar à sua obra um papel social, mesmo que subordinado à mera observação e registro da verdade social de grupos, estampando-os de modo, tantas vezes, cruento, especialmente na última fase de sua vida. Em Germinal (1885), por exemplo, debruça-se sobre o movimento grevista dos mineiros, mas, mesmo assim, a percepção patológica não é abandonada: Etienne Lantier, o protagonista, líder dos mineiros, se move na trama submetido às suas taras, quase que como um ser corporamente programado para adotar certas investidas.
Barthes136reconhece o papel desmitificador do Naturalismo francês, sua capacidade de
enfrentar questões perturbadoras, de visibilizar as perversidades sociais, e, ainda, o seu comprometimento em evidenciar ao leitor, o que merece ou não ser preservado coletivamente:
Mesmo em França, no século XIX, tivemos uma enorme quantidade de romancistas que se comprometiam muito mais do que hoje se crê; direi mesmo que o romance francês do século XIX tem um valor de testemunho, de diagnóstico, muitas vezes extremamente cruel, sobre a burguesia da época. Os romances atuais, mesmo tradicionais, já não possuem essa espécie de energia de testemunho sobre as chamadas classes dominantes. Deste ponto de vista, Zola permanece muito além do que nós fazemos. É aliás essa questão que me pareceria interessante levantar. Porque é que actualmente, a par de textos-limites, não temos textos de experiência, uma literatura propriamente realista, que descrevesse de uma forma crítica, desmistificante, a sociedade em que estamos e não queremos?
Zola não deixa de dirigir seu olhar em outras direções, como ao fenômeno religioso, sempre tocando em variáveis que incidiam diretamente sobre a constituição do sujeito, recorrendo, para isso, à imparcialidade, observando e experimentando os fatos sociais, revelando, então, os mecanismos funcionais e incontestes da natureza. Assim, sob o prisma do escritor investido em sua missão de esquadrinhador da realidade, obedecendo à lógica naturalista de uma análise laboratorial do fenômeno social, a religiosidade é registrada como mais um aspecto entre tantos outros da coletividade, sempre com o rigor descritivo e a crueza na linguagem. O fato de Zola tocar em questões de cunho religioso o converteria, prontamente, num genuíno representante do anticlericalismo literário oitocentista?
A literatura zoliana, como já salientada, está mais preocupada em se converter numa modalidade discursiva científica do que servir como instrumento de militância social. Em outras palavras, a missão da literatura em Zola se restringiria a desvendar os fatos por meio duma linguagem clara e visceral, deixando para os “estranhos” à literatura, a tarefa de
136 BARTHES, Roland. Para/ou onde vai a literatura. PILLAUDIN, Roger (Dir.). Escrever..., para quê? para quem?. Lisboa: Ed. 70, 1975. p. 29-30.
implantar reformas estruturantes na sociedade francesa. Efetivamente, seu “discurso anticlerical” é, essencialmente, resultado de uma fria observação.
De todo modo, é constante a presença de padres cretinos e beatas desequilibradas nos seus romances, evidenciando, assim, o estado imoral em que se encontrava o clero francês. Na primeira parte da trilogia Trois villes, por exemplo, apresenta o sofrimento dos peregrinos que, apoiando-se numa fé cega, rejeitam as conquistas científicas, deixam-se enganar por um clero dividido entre si pelo interesse em fazer fortuna com o local de aparição, nem que para isso tenha que simular milagres atribuídos à Virgem. Desse modo, Zola nega qualquer valor salvífico ao discurso religioso, simbolizado pelas cidades pólos de peregrinação. A redenção humana se daria no espaço citadino, ordinário e dessacralizado, destituído de qualquer influxo místico, o que invalidaria sair de si, de seu meio, de seu corpo, de seus instintos mais nobres para alcançar a felicidade. Deste locus trivial surgiria uma moral estável e robusta, embalada pelos valores eternos da ciência:
A mensagem cristã estava fraca e corrompida demais para regenerar a sociedade moderna: nem Lurdes, nem Roma podiam ajudar. A cura deveria ser encontrada no