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Bonded component tests

III. Crash stable epoxy adhesive 93

4.4. Validation of polymer model for structural adhesive

4.4.3. Bonded component tests

A exploração da personagem beata em textos ficcionais é recorrente na literatura ocidental, precedendo, em séculos, a escola naturalista. Entretanto, é a partir do século XIX, na França, que este tipo se populariza na prosa romanesca, passando os autores a recorrerem a ela como síntese de um mundo retrógrado, afundado em crendices opositoras de um novo sistema em gestação: a Modernidade.

Ora, com a redução da complexidade humana a um emaranhado de impulsos fisiológicos animalescos, a missão do escritor naturalista se restringe a observar todos os elementos efetivamente sensíveis a partir da adoção cuidadosa de um método científico rigoroso e apropriado para tal empreitada: “uma vez que a medicina que era uma arte se tornou uma ciência, porque é que a literatura não poderá se transformar em ciência graças ao método experimental.”255

Em resumo, à medida que a concepção de homem no Naturalismo é desprovida da espiritualidade e do livre arbítrio, o sujeito se converte em coisa, em objeto, em um ser mecânico, amoral, movido, unicamente, pelas forças intempestivas do ambiente e da sociedade. Imersa nas teorias científicas de então, a literatura se restringiria a identificar e descrever, pormenorizadamente, as causas que condicionariam o comportamento humano, buscando, assim, jogar luz sobre uma gama variada de comportamentos psíquicos e sociais tratados como desviantes.

253 MATOS, Maria Izilda Santos de. Gênero e história: percursos e possibilidades. In: SCHPUN, Mônica Raisa (Org.).

Gênero sem fronteiras: oito olhares sobre mulheres e relações de gênero. Florianópolis: Mulheres, 1997. p. 73-91.

254 FERNANDES, Florestan. O “romance social” no Brasil. Folha da Manhã, São Paulo, 27 abr. 1944. Disponível em:

<http://www.iff.org.br/listaDocumento.aspx?obj=229&sub=262>. Acesso em: 20 jun. 2007.

255

Texto original: “Puisque la médecine, qui était un art, devient une science, pourquoi la littérature elle-même ne deviendrait-elle pas une science, grâce à la méthode expérimentale?” (ZOLA, 1881, p. 30, tradução nossa).

Assim, ao se perceber como ciência aplicada, muito próxima da história natural e da medicina, pelo fato de preencher rigorosamente todos os quesitos do discurso positivista estabelecido — o método experimental, a descrição fria e detalhista das misérias sociais e, inclusive dos aspectos mais sórdidos e vis do corpo e da psique humanos —, a escola naturalista pretende ser arte, mas sem abandonar seu compromisso com a verdade:

O [romance] naturalista, controlando a sua sensibilidade, ou acomodando-a à

ciência, põe luvas de borracha e não hesita em chafurdar as mãos nas pústulas

sociais e analisá-las com rigorismo técnico, mais de quem faz ciência do que

literatura.256

A literatura converte-se em um instrumento potencializador da verdade consensual e estável do discurso científico, diferente do falseamento sensível dos autores românticos. Nesse contexto, a fisiologia impera sobre a psicologia e o meio é compreendido como fator preponderante na ação instintiva do ser humano. Ignorando a gênese divina do homem, Zola defendendo a restriçãoo do estudo dos seres vivos no plano físico, buscando patologizar comportamentos anômalos em suas mais variadas manifestações — hábitos, instintos, emoções, sentimentos, pulsões, vicissitudes — a partir das teias de saberes que vão se formando, concernentes à hereditariedade, à raça, ao meio e ao tempo.

De fato, a análise patológica seria um modo indireto de experimentação para chegar-se a considerações aplicáveis aos estudos sociológicos. Frente a um período histórico eminentemente cientificista, laboratorial, os corpos são submetidos a um processo de esquadrinhamento patológico e social.

Nesse sentido, o positivismo deve ser encarado como um sistema ideológico que, ao mesmo tempo em que se opôs ao poder estabelecido, a saber, o eclesiástico, constituiu claras relações de força na tessitura do seu discurso científico pretensamente neutro, apropriando-se, assim, do corpo para se produzir o poder: “Não há constituição de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua, ao mesmo tempo, relações de poder.”257

Assim, a configuração da corporeidade das beatas e, inclusive dos padres, no discurso ficcional oitocentista, deve ser analisada sob a perspectiva de uma acirrada disputa entre sistemas e atores no intuito de se apropriarem da produção de verdades. Acreditamos que o estudo do corpo nas obras ficcionais constitutivas do corpus desta pesquisa nos permitirá construir, de fato, o que Foucault intitulou de “história efetiva”: A história “efetiva [...] lança

256

MOISÉS, Massaud. Naturalismo. In:______. COELHO, Jacinto do Prado (Dir.). Dicionário das literaturas portuguesa,

brasileira e galega. Porto: Figueirinhas, 1960. p. 517, grifo nosso.

257

seus olhares ao que está próximo: o corpo, o sistema nervoso, os alimentos e a digestão, as energias; ela perscruta as decadências.”258

Reconhecendo que o corpo “é superfície de inscrição para o poder, com a semiologia por instrumento”259, pretendemos analisar, a seguir, o alcance do discurso positivista sobre os corpos das beatas e padres em O Mulato enquanto mecanismo de controle, submissão, docilidade, utilidade e normalização de condutas, disperso nas obras ficcionais supramencionadas.

A tentativa de se desenvolver uma área de estudos na qual o enfoque principal é o gênero não é tarefa simples. Afinal de contas, sabe-se que o discurso universalizante e bipolar entre homem/mulher não é a única fonte de construção de gênero e de seus papéis.260 O discurso de gênero fissura esta fala identitária ao orientar sua pesquisa para outro foco, qual seja, “a descrição das dispersões”, nas palavras de Foucault. Nesse sentido, a construção de gênero passa, necessariamente, pela desconstrução de um discurso naturalizador de convenções sociais. O texto literário, nesse contexto, é vislumbrado como produtor de uma “realidade” social determinada, e não simplesmente o que Rago intitulou de “reflexo de uma suposta base material das relações sociais de produção”261. Em outras palavras, a gênese da realidade é o discurso, refutando a ideia de que este seria apenas o produto, o resultado final da construção de uma “objetividade”. Desse modo, acreditamo que o texto literário naturalista deve ser vislumbrado como produtor de uma realidade social determinada, e não simplesmente como “reflexo de uma suposta base material das relações sociais de produção”262.

258

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. p. 29.

259 Id., 1975, p. 93. 260

Surgem, assim, dentro do feminismo, vários discursos caracterizados pela pluralidade e que propõem “desessencializar a identidade feminista” (CALDWELL, 2000, p. 93) a partir da identificação de aspectos das identidades das mulheres, tais como a raça, a opção sexual e a classe, que até então foram sufocadas e destinadas a um espaço periférico nos debates teóricos do feminismo.

261

RAGO, Margareth. Epistemologia feminista, gênero e história. In: PEDRO, Joana Maria; GROSSI, Miriam Pillar (Org.).

Masculino, feminino, plural. Florianópolis: Mulheres, 1998. p. 26.

262