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Gurson-based cohesive zone model

III. Crash stable epoxy adhesive 93

5. Macro-scale modelling of structural adhesives 129

5.2. Model descriptions and implementation

5.2.3. Gurson-based cohesive zone model

As primeiras referências do personagem beato enquanto ser hipócrita na literatura nacional são encontradas, já no século XVII, com Gregório de Matos. O Boca do Inferno teve o mérito de adaptar a poética clássica às circunstâncias da vida local, desnudando um rico universo de viciados e pervertidos, exigindo, portanto, um olhar incisivo sobre os ambientes em que estes tipos convivem.

Poesia que traduz vivências de amores, de hipocrisias, de agressões, de festas, de pândegas e fodengas. [...]. Crônica que traz a marca do dia-a-dia das ruas, da praça, dos terreiros, das sacristias, dos quintais, do interior das casas, das igrejas, dos becos, das ladeiras, das tavernas, das quitandas, dos engenhos, das festas, das feiras.289

Não se trata, simplesmente, em descrever ou produzir risos nos leitores, mas em denunciar as torpezas sociais da Bahia católica e escravocrata:

Sob essa visão, o poeta baiano ataca violentamente a ordem das coisas estabelecidas. É sua sátira uma revista onde “a mofina e mísera cidade da Bahia”, através de seus versos, é vista desfilar pelo que tem de “gente tão honrada”: “governador sodomita”, “mariola da igreja”, “fidalgos parolas”, “maganos de Portugal”, “Santo Unhate”, “escrivãos falsários”, “letrado gratis dato”, “beatos fingidos” [...].290

A dubiedade do modus vivendi beateril é ressaltada em sua obra. Identificamos no trecho supramencionado, alguns elementos recorrentes na literatura para designar estes sujeitos: se exteriormente manifestam piedade, em movimentos que denotam espírito penitente — cabeça curvada — e orante — quietismo e silêncio, no âmbito interno são maliciosos e fofoqueiros, seres dúbios, comparados ao deus das duas faces.291 É interessante

observar que este tipo séptico, capaz de produzir desarmonias na sociedade por meio da língua ferina, não é representado como ser individualizado e, portanto, singular. Sofrem um processo de pluralização, sendo, antes de tudo, uma coleção de partículas impessoais, vislumbrados mais como objetos do que como sujeitos:292

289

FREITAS, Maria Eurides Pitombeira de. O grotesco na criação de Machado de Assis — Gregório de Matos. Rio de Janeiro: Presença, 1981. p. 73.

290

Ibid., p. 79.

291 Compara-se o beato a Jano, divindade romana responsável em vigiar as portas das cidades, sendo representado como um

um ser possuidor de dois rostos, um vigiando as entradas e outro as saídas.

292

DESCHAMPS, Jean-Claude. Social identity and relations of power between groups. In: TAJFEL, Henri (Ed.). Social

Dêstes beatos fingidos cabisbaixos, encolhidos, por dentro fatais maganos, sendo nas caras uns Janos, que fazem do vício alarde: Deus me guarde.293

Partindo da perspectiva de que a eficácia de todo discurso é resultante do compartilhamento de um certos número de elementos simbólicos, podemos afirmar que o estereótipo do “beato” enquanto tipo popular, já se fazia presente no inconsciente coletivo do Brasil seiscentista.

Todavia, é a partir do século XIX, no processo gradual de desenvolvimento de uma literatura eminentemente nacional, que o beato ganha feições femininas e se estabelece enquanto personagem recorrente. Esse fenômeno se subordina, evidentemente, à terceira geração do Romantismo que, dentre outras pretensões, buscou delinear a realidade do país por meio de uma descrição de seus ambientes e figuras pitorescas, geralmente associados ao ambiente urbano, seja na prosa ou na poesia. A título de ilustração, citaremos algumas obras oitocentistas.

Francisco Moniz Barreto (1804-1868)294 publica, em 1864, uma coletânea de poemas pornográficos intitulada Álbum da rapasiada. Editada em Bruxelas, o autor acaba sendo denunciado pelo promotor público Antônio Eusébio Gonçalves de Almeida. Como pena, é impedido de comercializar a obra, o que o faz distribuir os exemplares entre os amigos. Em dois de seus poemas aparece a figura beateril, explorada muito mais como caricatura destinada a produzir riso que uma imagem de efetiva denúncia social. Como expoente da tradição fescenina, denuncia em Quer pica a verdadeira intenção da donzela que, mostrando- se zelosa pelos ofícios religiosos, carecia, esconde, de fato, sua real intenção:

Virgem, que, dando em beata, Só aos templos se dedica, Não aspira à eterna glória; Isso é impostura, é história; Quer pica.295

293

MATOS, Gregório de. Santigua-se o poeta contra outros pataratas avarentos, injustos, hypocritas, murmuradores, e por varias maneiras viciosos, o que tudo julga em sua pátria. In:______. Crônica do viver baiano seiscentista. Salvador: Janaína, 1968. v. 2, p. 444.

294

Poeta, repentista, militar, escriturário da alfândega soteropolitana, nascido em Jaguaribe (BA) e morto em Salvador (BA). Publicou as seguintes obras, todas poéticas: Clássicos e românticos: exercícios poéticos (1855, em dois volumes), A

estátua e os mortos (1862), além de Álbum da rapasiada (1864) tendo se identificado neste livro com as iniciais B. M. F.

(BARRETO, 1990, v. 1, p. 301).

295

BARRETO, Francisco Moniz. Quer pica. In: PELLEGRINI, Leônidas. Álbum da rapaziada: o humor obsceno de Francisco Moniz Barreto. 2008. p. 232. Dissertação (Mestrado em Teoria e História Literária) — Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008.

O trecho acima não é suficiente claro em qualificar o vínculo entre religiosidade excessiva entre as mulheres e a prática sexual. Identificamos três linhas possíveis de interpretação: a) A jovem se dirige ao tempo como único recurso de conseguir, por parte das forças celestiais, um homem; b) O templo evoca, necessariamente, a figura masculina do cura, homem perpetuamente solteiro, disponível a lhe corresponder aos seus préstimos; c) Permanecer fora de casa, longe dos afazeres domésticos, é sinal evidente da condição virulenta em que a moça se encontra; essa desesperança de encontrar um varão é que impele a virgem ao espaço sagrado, procurando ali transferir seus ímpetos sexuais para uma promesa de gozo celeste.

No poema intitulado Quer cono, debocha do padre e do beato que, pregando ou rezando, escondem intenções libidinosas. O beato é zoomorficado, comparado a um macaco e, em outro momento, a um roedor quadrúpede, revelando movimentos afetados durante a oração e nada desejando além de saciar os apetites da carne:

Padre, que mais recomenda, Quando prega, o sexto e o nono, Menos segue a lei sagrada; De solteira ou de casada Quer cono.

Beato, que, quando reza, Faz visagens, como um mono, Herói fino de marmotas. Quer agradar as devotas; Quer cono.296

Já no âmbito da prosa oitocentista, encontramos, com mais frequência, esta figura, normalmente circunscrita ao sexo feminino, impondo-lhe todas as implicações envolvidas concernentes ao gênero. Em O Guarani, de José de Alencar, publicado em 1857, a beata é rapidamente evocada, não como personagem, mas como figura que suscita um discurso moralizador reprovável:

— Assim deve ser. Diz a escriptura que não ha peior surdo do que aquelle que não quer ouvir.

— Oh! temos anexim. Aposto que aprendestes isto agora em S. Sebastião: foi alguma velha beata, ou algum licenciado em canones que vol-o ensinou? respondeo o cavalheiro gracejando.297

296 BARRETO, Francisco Moniz. Quer pica. In: PELLEGRINI, Leônidas. Álbum da rapaziada: o humor obsceno de

Francisco Moniz Barreto. 2008. p. 232. Dissertação (Mestrado em Teoria e História Literária) — Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008. p. 230.

297

Em Os retirantes, de José do Patrocínio (1853-1905), publicado em 1879, desenrola-se um diálogo entre os personagens masculinos que, além de evidenciar a vulnerabilidade do caráter feminino às insídias do clérigo, a ponto de ser facilmente ludibriada, transformando- se, assim, em uma beata, ilustra a percepção do corpo feminino como realidade depauperada, passível de enfermidades nervosas:

— Ora você, padre-mestre, não há de perder este sestro de me pregar sermões em casa, homem? Quer converter isto em ninho de beatas?! Até Eulália já parece inclinada!

— Quais beatas, se elas são suas filhas ? [...]

Riram-se todos; o próprio vigário sorriu meneando a cabeça. Eulália, porém, não mudou de atitude, e, ela que era a mais expansiva, conservou-se calada e indiferente.

— Estás sentindo alguma coisa, minha filha? — perguntou Queiroz, suspendendo-lhe a cabeça por uma pressão carinhosa sobre a testa.

— Eu? - respondeu ela, fitando-o tristemente. E sufocou-se numa explosão de soluços.

— Vê? - observou Queiroz ao vigário. - O seu sermão fez-lhe mal. — Ora, uma história à-toa; há de ser nervos.298

O romance de costumes A família Agulha, também uma novela picaresca, de Luís Guimarães Júnior, é povoada por digníssimas senhoras fofoqueiras — Leonarda, Quininha Ciciosa, Eufrasinha Sistema, Quitéria do Amor Divino — destacando-se, entre elas, pela piedade, Dona Candinha, a personificação da mulher carola, “[...] fisionomia vulgaríssima entre os humanos [...]”299; “[...] com aquele profundo ar de catolicismo e de beatice que lhe ia às mil maravilhas [...]”300, consumindo o dia entre as igrejas dos mendicantes, cognominada, por isso, de “beata dos Barbadinhos”301. O rosário302 e, especialmente, a mantilha303, são elementos recorrentes para designar as mulheres pias no romance e o próprio sistema social vislumbrado como anacrônico.

298

PATROCÍNIO, José do. Os retirantes. Belém: NEAD, [200-?]. p. 20. Disponível em: <www.nead.unama.br/site/bibdigital/pdf/oliteraria/616.pdf>. Acesso em: 19 jun. 2010.

299

GUIMARÃES JUNIOR, Luís. A família Agulha: romance humorístico. 3. ed. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2003. p. 102.

300

Ibid., p. 182.

301

Dona Cândida é cognominada dezesseis vezes de “beata” na trama e quarenta e uma de “devota”.

302

“Com o clássico rosário entre os dedos trêmulos, corria a Sra. D. Cândida, dos Barbadinhos ao Carmo e do Carmo aos Barbadinhos, deitando não sei quantas milhas por minuto!” (p. 102); “[...]a Srª Quitéria do Amor Divino roncava com o rosário entre dedos [...]” (p. 133). A profanação do sagrado, ou seja, sua evocação enquanto elemento impassível, incapaz de produzir impacto na alma da devota, produz o riso, alcançando, assim, a finalidade do romance.

303

A mantilha é peça obrigatória na caracterização das beatas em A família Agulha: “[...] a devota dos Barbadinhos arremessou à rua mantilha para não atrapalhar-se na carreira [...]” (p. 225); “[...] exclamou a charadista, envolvendo-se na mantilha [...]” (p. 270); “A beata dos Barbadinhos embrulhou-se na mantilha e saiu correndo à cata do médico.” (p. 296); “A beata embrulhou-se na mantilha e saiu à caça de Felisberto Canudo de Oliveira Conceição Albuquerque e Melo.” (p. 304). O último registro da palavra em questão no romance evidencia que a mantilha, muito mais do que mero elemento simbólico e identitário de determinado indivíduo, reproduz uma ordem social vislumbrada como atrasada, anti- modernista, que dará vez a uma nova era, representada pelas máquinas e pela racionalidade: “Eis-nos em pleno século de eletricidade, de máquinas americanas, de Alcazar e de notas falsas! A mantilha, a beatice, a ingenuidade e o chapéu alto desapareceram completamente nas ondas tempestuosas da moda parisiense. O homem artificial tomou o lugar do homem da natureza; o figurino sucedeu à criatura, e há hoje quem duvide até da existência de Adão e do episódio do pecado original.” (p. 312).

Em Luzia-Homem, de Domingos Olímpio, Dona Inacinha, sempre enfezada e rabugenta, corrobora a percepção da mulher como ser impressionável pela religiosidade transmitida pelo clero, bem como estabelece uma relação direta entre o serviços às coisas da religião e o estado célibe, já que, “[...] desde as missões do padre Ibiapina, renunciara os efêmeros gozos mundanos, para se fazer beata professa [...]”304.

O romance alencariano A Alma do Lázaro, por sua vez, ilustra a beata enquanto ser forjado no fogo da coletividade, indissociável do grupo. São concebidas, portanto, como uma verdadeira massa indistinta, figuras pateticamente impressionáveis e fanáticas, habilidosas em congregar gente que partilham das mesmas crenças supersticiosas: “Vendo à luz baça dos tocheiros assomar um vulto, as beatas fugiram assombradas. Fiquei só ali em frente do ataúde. [...]. Nesse momento ouço rumor do lado da sacristia. É a gente curiosa que vem trazida pelas beatas, para espancar o espetro. [...]”.

Ainda nos novecentos, nos deparamos com Tia Joana, entre as páginas de A Falência, de Júlia Lopes de Almeida. Trata-se de uma velha beata, de rosto gordo e pálido, sovina e frequentadora da rua, disseminadora de crendices e fábulas místicas entre as amigas.305 Mesmo nos restringindo ao século XIX, observamos que a literatura está eivada de personagens religiosos, comumente ocupando espaços marginais no enredo, evocando uma religião demasiadamente humana, destituída de qualquer elemento que a transfigure numa experiência sobrenatural.