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6 Political positions and lobbying strategies

6.1 Political positions: largest member states .1 Germany

Depois de ter construído uma genealogia das relações hierárquicas nas esferas expressamente políticas e religiosas em Marrocos, é importante sair delas para identificar a sua circulação no quotidiano. Nesta secção identifico três formas de constituição de hierarquias no quotidiano que decidi privilegiar em detrimento de outras, porque são de alguma forma representativas de situações a que assisti e em que participei: a primeira refere-se à importância da idade na constituição da hierarquia e a sua transitoriedade; a segunda introduz a devoção como elemento constituinte de assimetrias entre pessoas; a terceira identifica a sexualidade como componente que introduz uma diferença entre géneros. Cada uma destas três formas remete para estruturas mais alargadas e tentarei sempre relacioná-las com os comportamentos identificados na secção anterior, não só a validade de comportamentos como obediência e dissidência mas também a diluição de princípios religiosos em várias esferas da vida.

Introduzo o primeiro ponto através de uma experiência etnográfica. No início da minha estadia em Essaouira realizei uma visita a uma escola nos arredores da cidade. Acompanhei uma jovem, a Samira, pertencente a uma associação local para a realização de actividades lúdicas com os alunos dessa escola. Chegámos cedo e as crianças da escola (entre os 6 e os 11/12 anos) já nos esperavam. Toda a manhã foi passada em jogos variados, a fazer pinturas nas paredes da escola e os adultos (Samira, os dois professores, o director da escola e eu) acompanhavam e avaliavam as provas realizadas. No final da manhã, Samira chamou-me para uma sala de aula, onde uma mesa pequena rodeada de cadeiras estava preparada para um lanche. O director da escola, os seus dois filhos e um dos professores já estavam sentados a comer quando eu e a Samira

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nos juntámos. Um outro professor andava de um lado para o outro e comia de pé. Segurava bocados de pão que ia entregando às crianças que estavam no pátio. Estas esperavam inquietas no pátio da escola e ocupavam o espaço em redor à porta da sala de aula onde nos encontrávamos. Por vezes ousavam entrar, mas eram imediatamente repreendidas pelo director. Estavam obviamente esfomeadas. Depois de acabarmos de comer, o professor que estava de pé permitiu que as crianças mais velhas entrassem e estas saltaram quase literalmente para cima dos crepes (por oposição ao pão seco, que o professor lhes tinha dado anteriormente). Só depois as crianças pequenas puderam entrar e comer o que restava.

Senti-me desconfortável com a situação na medida em que me inquietava ver as crianças com fome enquanto comíamos, sem que pudessem entrar na sala. Em primeiro lugar pensei que fosse a minha presença que tivesse activado dispositivos protocolares, usufruindo das honras que um convidado merece em Marrocos. As crianças seriam assim afastadas para não perturbar a convidada, prática comum em Marrocos. Mesmo que assim fosse, o acontecimento merecia a devida atenção. Aquela situação indicava inevitavelmente uma certa ordem das relações em Marrocos, expressa num ambiente escolar e num momento de comensalidade.

A comensalidade é uma das formas de compreender o funcionamento da hierarquia, como aliás nos mostra Christina Toren (1990) no seu trabalho sobre uma aldeia das ilhas Fiji onde, nas horas das refeições, a disposição espacial dos parentes é organizada seguindo as hierarquias socialmente dominantes e que se expressam através de conceitos espaciais como i cake (acima/above) e i ra (abaixo/below) (Toren 1990). Esta mesma hierarquia é expandida para lá do domínio doméstico, na cerimónia de

yaqona, onde os chefes das linhagens e dos clãs se distribuem seguindo as mesmas

hierarquias espaciais. No que se refere à casa, muito embora estas noções não correspondam a um desnivelamento físico, a ocupação do espaço é organizada em torno de concepções e valorizações locais das actividades masculinas e femininas. Toren explica que é a relação das mulheres com o acto de cozinhar e o provisionamento de comida que é desvalorizado por comparação às actividades masculinas (plantar e semear, construção de casas, etc.).

Em Marrocos é frequente que outros tipos de distinções e hierarquias se expressem através da comensalidade. Come-se frequentemente de um só prato, colocado no centro de uma mesa pela altura dos joelhos (ou no chão). A comida é colocada neste prato redondo: primeiro comem-se os legumes e depois a carne

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(considerado o alimento mais saboroso, mais rico e frequentemente em pouca quantidade). Cada qual deve comer apenas da parte do prato que tem à sua frente e é indelicado retirar algum alimento de outro espaço (uma prática que os estrangeiros, frequentemente desconhecedores da etiqueta, fazem). Habitualmente, é o chefe da casa ou a pessoa mais velha que reparte os legumes entre as pessoas garantindo o acesso à diversidade. Por último, come-se a carne, igualmente repartida pelo chefe da família ou pelo anfitrião/a. Os convidados recebem sempre o melhor e em maior quantidade assim como os homens que, de acordo com o que me disseram muitas mulheres, precisam de força física.

Homens e mulheres comem frequentemente juntos, sobretudo no âmbito da família mais próxima. Quando se reúne a família extensa e se recebem visitas e convidados, mulheres e homens comem em pratos, mesas e por vezes salas separadas. Os homens ocupam o salão principal da casa (por isso algumas casas têm duas salas). O carácter organizativo das refeições é apontado como uma das razões para a separação espacial de homens e mulheres. As famílias marroquinas são numerosas, o que obriga a uma repartição espacial; mas além disso homens e mulheres acreditam que têm interesses e conversas diferentes e que podem estar mais à vontade entre os seus pares33.

Para além destas diferenças, um terceiro nível de hierarquia existe, representado pelas sobras de um prato principal dado aos pobres, um gesto entendido como caridade. Algumas pessoas contaram-me que, em algumas casas, quando se juntam convidados e a família alargada, os homens comem primeiro e as mulheres comem depois (o que sobra). Nunca assisti a isso. A única situação em que verifiquei o funcionamento dessa hierarquização social foi quando almoçava com as vizinhas que trabalhavam na loja de crepes por baixo da minha casa. Nas sextas-feiras, dia em que se tem por hábito comer

cuscus, normalmente uma refeição tomada em família e em comunhão, uma das

vizinhas recebia os irmãos em sua casa e cozinhava para eles. O que sobrava dessa refeição era entregue à gerente da loja por baixo da minha casa, que comia com as demais empregadas (e comigo). Esta situação não era vista como embaraçosa ou desprestigiante para as mulheres; ela decorria de uma proximidade (de vizinhança) que estas mulheres tinham. No entanto, tínhamos sempre que esperar que a refeição «principal» terminasse para sermos surpreendidas com um prato de cuscus.

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Estas justificações, que se enredam em noções mais estruturais da segregação de sexos, são exploradas num capítulo que se segue, «Mulheres e Homens: construção do género».

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A espera é indicativa de uma posição secundária, por oposição aos que comem em primeiro lugar. É através do tempo, da degustação dos melhores alimentos, da separação em espaços diferentes (um mais central que o outro) que se pode analisar uma estrutura de hierarquia social através da comensalidade. Todos estes factores estão presentes na situação etnográfica anteriormente descrita: os adultos comem primeiro e em variedade; as crianças comem depois e são mantidas no espaço exterior até estarem autorizadas a entrar. A lógica de distinção é etária e implica outras distinções: professores que receberam uma educação em meio urbano e convidadas (a Samira que organizou a actividade e eu que era estrangeira e visitante) por oposição às crianças, vindas de um meio rural.

Vários estudos indicam a importância da idade na construção de hierarquias em Marrocos (Bennani-Chraïbi 1995), sobretudo numa sociedade tão jovem. De acordo com o Recensement General de la Population et Habitat de 2004, 37,6% da população tem menos de 18 anos. A população com mais de 60 anos representa apenas 8,1% da população (Royaume du Maroc 2004). A hierarquia social baseada na idade tende a alterar-se ao longo da vida; por isso é frequentemente vista como transitória (o que reforça a sua reprodução e naturalização). Este reforço, dentro da lógica cultural dominante, é expressão da hierarquia. A ideia de que as posições se vão inverter, comportamento político identificado por Hammoudi (1997), e que, portanto, um dia as crianças serão adultos e poderão elas também ser uma referência de autoridade para outras crianças, contribui para que estas situações se venham a reproduzir, independentemente do aparecimento de discursos que valorizem as crianças. Na verdade, a finalidade da actividade realizada naquele dia na escola era sensibilizar as crianças para práticas ecológicas e de cuidado com a natureza, o que demonstra como a educação é valorizada na formação de futuros adultos. Se, por um lado, a performance de actividades lúdicas é valorizada na educação das crianças e na mudança de comportamentos, por outro, a performance informal tende a reproduzir formas de relação entre pessoas, reiterando hierarquias de idade alimentadas pela inevitável inversão de posições.

Bennani-Chraïbi (1995) questiona como deve ser definida a categoria de jovem em Marrocos e indica que a entrada na vida adulta é tardia, transição marcada pela constituição de família e pelo casamento. Aos 28 anos, uma grande maioria da população ainda vive em casa dos pais, em parte devido ao desemprego. Muitos, principalmente os homens, adiam o primeiro casamento porque se vêm incapazes de

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lidar com as expectativas matrimoniais que eles, as pretendentes e as famílias têm para a nova unidade conjugal. A transição é colocada em causa.

A idade não foi o único factor identificado como construtor de hierarquia na situação descrita na escola. Os filhos do director, apesar de serem crianças, comeram na mesa dos adultos, o que mostra como a posição institucional, a pertença familiar e a classe social constroem formas de diferenciação entre aqueles que partilham uma semelhança de idades. Na realidade, a reprodução de lógicas de favorecimento institucionais transversais a linhas familiares ou grupais tem sido identificada por vários autores que trabalharam o contexto marroquino. Num contexto de recursos escassos, as lógicas de distribuição são organizadas com base numa noção de proximidade – qarāba (Eickelman 2002, H.Geertz 1979, Silva 1999). A noção contribui para alargar noções estritas de parentesco, evidenciando que a composição das relações entre pessoas se faz não apenas por laços de sangue, mas também por afinidades, alianças, casamentos, negócios, vizinhança, etc. Por esta razão, para o director, só tinha sentido favorecer os seus filhos na participação do lanche. Na situação de poder em que se encontrava, e de acordo com as lógicas locais, outra coisa não se esperaria. A criação de infra-estruturas por parte do Estado (tais como a escola, os hospitais, a administração) não alterou por completo a vigência de estratégias de diferenciação social, que noutros contextos possam ter sido eventualmente camufladas, substituídas ou reelaboradas pela crença num Estado-providência cujo objectivo seria garantir o acesso a todos. Neste sentido, a integração dos filhos do director na mesa dos adultos (que, no entanto, partilhavam a sala de aula com os restantes colegas que esperaram pela sua vez no pátio da escola) representa a manifestação de um cuidado por parte do pai mas também determina o estabelecimento de uma assimetria, onde aqueles que ocupam uma posição institucional podem beneficiar de forma mais rápida dos parcos recursos existentes.

Por outro lado, o professor que andava pela sala e que se aproximava da porta para dar pão às crianças é o exemplo de como o cuidado é frequentemente entendido em Marrocos. Ao fazê-lo, ele tinha uma preocupação pelas crianças e a sua inquietação com a fome delas. Ele é a imagem do cuidador, que estando numa posição de dominação, se acerca daqueles que estão diminuídos de recursos. Ele quebra a distância entre dois espaços, atenuando a disparidade inerente à situação mas, ao mesmo tempo, reproduz os modelos de assimetria que estão associados ao cuidado: adultos e crianças não partilham o mesmo espaço, não comem ao mesmo tempo, não comem o mesmo.

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A partilha de algo em situação de desigualdade pode ser entendida como caridade ou benevolência, valores que os marroquinos apreciam e que têm uma importante ressonância prática na sua vida, muito mais do que a celebração da suposta igualdade efectiva entre pessoas. Muitas vezes, avaliam os outros, pela capacidade moral que demonstram, pela caridade praticada. A introdução e proliferação de ideologias de esquerda e dos direitos humanos têm influenciado as concepções do que é ser pessoa e cidadão. No entanto, estas não são mobilizadas quando alguém quer contar uma história sobre o cuidado e a atenção para com os outros. Muito embora o ideário islâmico situe os crentes em igualdade perante Deus, não os coloca necessariamente assim na articulação com o mundo social. Por essa razão, quando movimentos feministas e religiosos se confrontam em discussões sobre o papel da mulher na família e na sociedade, os religiosos advogam que homens e mulheres têm papéis complementares e não de igualdade absoluta. As feministas liberais recorrem à igualdade dos crentes perante Deus para justificar a igualdade jurídica entre homens e mulheres; os ulema e feministas islâmicas insistem que essa igualdade em nada é contrária à complementaridade social, que implica diferentes direitos e deveres.

A caridade, que encontra expressão na prática do zakat (um dos cinco pilares do Islão, obrigatório para cada muçulmano com possibilidades económicas), reveste concepções expandidas de justiça social, sem no entanto colocar em causa as hierarquias entre pessoas. A linguagem religiosa, desde já, exprime uma diferença entre os crentes (os que têm baraka ou não, ou que têm descendência profética ou não); por essa razão as noções de igualdade não fazem parte de uma experiência social e religiosa. Como o exemplo que apresentei nesta secção claramente demonstra, processam-se formas de desnivelamento entre pessoas, sobrepondo-se vários valores e princípios.

Por último, o exemplo utilizado acontece num espaço específico, o de uma escola. No período pós-independência, a escola era considerada o meio de ascensão social e económica por excelência. Muitos jovens foram incluídos nos partidos políticos e integrados na administração marroquina pelo facto de deterem uma formação técnica que os mais velhos, concretamente nas zonas rurais, não possuíam (Leveau 1985). Tinham sido educados nas escolas francesas e aí adquirido conhecimentos que os distinguiam de uma geração mais velha que, se alguma formação escolar teve, foi no âmbito de escolas corânicas, onde o conhecimento técnico não era privilegiado.

Eickelman no livro Knowledge and Power in Morocco (1985) dá um pouco conta da transformação que o sistema de ensino sofreu em Marrocos, sobretudo com a

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introdução das escolas francesas durante o Protectorado. Até então, o sistema de ensino passava exclusivamente pelas madraças e pelo ensino avançado nas mesquitas- universidades (sobretudo Kairaouine em Fez ou Ben Yusuf em Marraquexe). A partir da década de 1930, muitos marroquinos formaram-se nas escolas do Protectorado, ocupando lugares na administração colonial e outros postos importantes disponíveis para muçulmanos (Ibidem:163). A educação islâmica foi perdendo o seu espaço privilegiado como ensino, relegando-se para alunos de meios socialmente menos favorecidos.

Nos anos oitenta, contudo, a crise económica associada às políticas de contenção impostas pelo FMI aumentou o endividamento público e esvaíram-se as expectativas de encontrar trabalho para jovens diplomados (Bennani-Chraïbi 1995; Badimon 2009). Estes vieram a constituir um movimento colectivo de reivindicação (Badimon 2009). A educação pública sofreu um desinvestimento e foram as escolas privadas, bilingues, que receberam as elites nacionais, que enviavam muitos dos seus filhos para universidades estrangeiras. A crise económica e o desinvestimento numa educação massificada contribuíram para que o ensino das escolas públicas e das privadas se diferenciasse. As escolas privadas insistiam particularmente no ensino do francês ou de outra língua estrangeira (incluindo nas várias matérias) e eram (e ainda são) melhor dotadas de infra- estruturas. Esta divisão entre escolas privadas e públicas contribuiu para que os factores económicos influenciassem o percurso escolar dos alunos e a sua inserção no mercado de trabalho, dado que a escola servia não apenas como um lugar de aprendizagem mas também de constituição de solidariedades, importantes para as redes de interesses e de contactos.

A significativa redução de investimento nas escolas públicas conduziu, apesar da actual valorização política da educação, pelo menos em termos de discurso, a que a desistência dos alunos seja muito elevada34. Em zonas rurais, a deslocação é difícil e a escolarização não é vista como um garante de obtenção de um bom emprego, o que reduz o interesse que as famílias têm na educação das suas crianças. Este desinvestimento e o descrédito da educação como instrumento de mobilidade social contribuíram, entre outras coisas, para elevadas taxas de analfabetismo. Em 2004, 10.183.455 de habitantes com mais de 10 anos declararam não saber ler nem escrever,

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Em 2006, a taxa de abandono escolar é de 5,7% no ensino primário e de 13,6% no ensino preparatório, uma das mais altas na região árabe. Entre 1999 e 2003/4, o número de crianças excluídas do ciclo primário e preparatório passou de 180 000 a 250 000. Em 2002-2003, apenas 69% das crianças inscritas no primeiro ano do ensino primário chegaram ao fim desse ciclo (UNESCO 2010/11).

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ou seja, 43% da população é analfabeta. A diferença entre o contexto urbano (29,4%) e o rural (60,5%) é notável, assim como entre homens (30,8%) e mulheres (54,7%) (Royaume du Maroc, RGPH, 2004), o que mostra a exclusão destas do sistema de ensino. No entanto, assiste-se a uma diminuição destas taxas: no Recensement General de la Population et Habitat de 1994, 55% da população declarou não saber ler nem escrever, 37% em contexto urbano e 75% em contexto rural.

Esta realidade contribui igualmente para uma atitude pedagógica baseada no autoritarismo e na ausência de rigor. A situação acima descrita exemplifica bem as relações entre adultos e crianças fora do ambiente familiar, onde os mecanismos de hierarquia acabam por ser guiados por princípios socialmente generalizados.

A devoção organizada hierarquicamente

Conheci a Hasna no ateliê do pai, numa pequena loja perto do mercado do peixe que fica no centro da medina de Essaouira. A pequena e escura sala tinha um tear onde este fazia mantas. A Hasna, de 30 anos, passava o dia ao seu lado e tratava das encomendas e da contabilidade do ateliê. Segundo me disse, os irmãos, incapazes de gerir o negócio, tinham criado dívidas ao pai. Hasna, por isso, tinha decidido ficar em Essaouira e a trabalhar na loja do pai para equilibrar as contas.

Estudou na Tunísia, onde uma irmã mais velha vive, após se ter casado com um tunisino. Hasna frequentou aí a universidade, onde estudou programação de computadores. No regresso a Marrocos, porém, sofreu do mal de que sofrem tantos licenciados: incapaz de encontrar emprego, viveu em Casablanca e Agadir, onde trabalhou em cafés e restaurantes. A precariedade é uma condição de muitos jovens licenciados em Marrocos, como aliás acontece em outros lugares do mundo. Depois disto, regressou novamente à Tunísia, para tentar a sua sorte. Mas, após os acontecimentos políticos que marcaram a Tunísia em 2011, com a deposição e fuga de Ben Ali e de novo sem trabalho, viu-se obrigada a voltar a Marrocos.

Hasna lida mal com a falta de perspectivas de trabalho. Voltar para casa, para junto do pai, foi a única solução que encontrou para fazer frente ao desespero. Ao longo dos meses que a visitei, reparei que ia mudando progressivamente de aparência. Ao início, vestia calças de ganga e a cabeça destapada; com o tempo, começou a optar pelo uso do lenço e depois pelas saias compridas. As suas posições eram, na minha opinião, muito extremadas e fui verificando que cada vez mais, nas nossas discussões, utilizava

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argumentos dos chaykh-s dos canais de televisão emitidos a partir da Península Arábica. As nossas discussões cobriam uma vasta panóplia de temas sociais, políticos e religiosos.

Por vezes, as discussões tornavam-se acesas, envolvendo mesmo o pai de Hasna, um homem muito devoto, de barba aparada mas comprida e pelo uso da ṭāqiya (gorro usado pelos muçulmanos nas orações). Assim que se faz escutar o aḍān (chamada para a oração) nas ruas de Essaouira, o pai de Hasna apressa-se a vestir a sua bela jilāba bege para se deslocar à mesquita. Lembro-me quando uma vez se embrenharam numa discussão relativamente ao xiismo: Hasna argumentava que os xiitas não podem ser considerados muçulmanos, enquanto o pai e o irmão defendiam que acreditar no Alcorão e no profeta Mohammed é suficiente para se ser muçulmano. Hasna usava argumentos algo disparatados que tinha ouvido num dos tais canais de televisão (possivelmente da Arábia Saudita) e que ainda mal sabia dirimir. Nitidamente, porém, eu assistia a uma discussão onde a idade e o percurso de vida influenciavam de forma determinante as diferentes concepções de Islão em jogo. O pai de Hasna sempre contava