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Analysing the process through the lenses of historical institutionalism (HI): highlighting the role of EU’s

7 Explanatory potential of LI, HI and ACF in relation to stakeholder influence

7.3 Analysing the process through the lenses of historical institutionalism (HI): highlighting the role of EU’s

Cada vez que apanhava um táxi em qualquer ponto da cidade de Essaouira para regressar a casa, a referência eram as duas lojas de mussamen (crepes em massa folhada, que são feitos e vendidos sobretudo por mulheres), jūj hanuet dyal musammen existentes na rua onde vivia. Por vezes, os taxistas, ainda incrédulos face às explicações em árabe e ao destino escolhido pela gauria (termo que se usa para designar os estrangeiros), longe dos itinerários turísticos da cidade, tentavam confirmar a informação, perguntando se se tratava da rua perto da residência d patron dyal ḥammām

Malika (da patroa do ḥammām Malika), o que ao início da minha estadia, devido ao

desconhecimento da sua localização, me deixava sem resposta. O uso do termo masculino patron em francês escondia, na realidade, que era de uma das minhas vizinhas de que se falava, a Ḥājja Salima, uma mulher séria e rigorosa. Só mais tarde vim a saber que era dela que se tratava, a dona de um dos mais conhecidos ḥammām-s de Essaouira.

Para me deslocar à minha rua, portanto, utilizava indicações que nos levam até às mulheres, as duas lojas de musammen, atoladas de gente ao final do dia, à conhecida residência da Ḥājja «l-patron dyal ḥammām Malika», ou finalmente, mostrando o poder da família real nas instituições marroquinas, o nome do bairro e da escola, Lalla Amina, a irmã mais nova do já falecido monarca Hassan II. As referências desconstruíam assim a ideia de que o universo público é sobretudo masculino. Como mostraram Hildred Geertz (1979) para o Bairro Adlun em Sefrou ou Silva para a medina de Salé (1999), as geografias labirínticas dos bairros marroquinos não sucumbem às institucionais toponímias urbanas, são antes, conhecidas e percebidas através daquilo que as caracteriza: a vida que nelas se faz e as personagens que nelas habitam. Em Essaouira, a escassez de placas indicativas ou ainda a confusa e por vezes diversificada nomeação das ruas, lugares e praças (as facturas da água e da electricidade que recebia em casa

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tinham duas moradas diferentes), aliadas à importância das redes de vizinhança e de bairro, mostravam-me que o espaço é reconhecido por aquilo que socialmente o caracteriza, e aquela pequena rua cheirava a crepes que, em lojas concorrentes, eram amassados e cozinhados ao longo do dia.

Os ritmos diários das mulheres que vieram a ser minhas vizinhas eram sobretudo pautados pelo trabalho e nem tanto pela residência nas proximidades, à excepção da

Ḥājja Salima. Assim, as actividades diárias que vim a conhecer não eram tanto as dos

ritmos domésticos, mas sim as da confecção dos crepes, da venda dos qaqʿa (uns bolinhos em forma oval temperados com erva-doce) e dos bghrir (crepes de massa mal cozida), do cabeleireiro, da marcenaria do patrão da Fatiha, da mercearia do Hicham, das crianças a saírem aos pulos da sala de karaté e, finalmente, das ocupações temporárias de espaços: desde a garagem que tinha sido uma pastelaria falida, à mesquita ao ar livre em tempos de Ramadão. Um pouco como noutros contextos, o crescimento imobiliário em Essaouira não parece ter sido acompanhado pelo aumento do poder de compra dos marroquinos e, por isso, aquela rua de construção recente era pouco habitada, muito embora a alguns metros de distância, nas ruas labirínticas dos edifícios brancos de portadas azuis, tipicamente souiris, se insinuasse uma intensa vida familiar.

Fatiha, de 31 anos, geria a loja de crepes mesmo por baixo da minha casa, equipada pelo patron, Abderrahim, que trabalhava na marcenaria a poucos metros. Com ela estavam normalmente duas mulheres que desde cedo preparavam a massa dos crepes e o pão (rghīf). Embora as relações entre Fatiha e o patrão fossem por vezes conflituosas, aquele era um negócio lucrativo para ambos. Com o tempo, e à medida que me aproximei de Fatiha, que era uma mulher paciente e atenta ao que eu dizia e desde cedo se assumiu como professora do meu incorrecto árabe, percebi que aquele trabalho árduo e diário, dez horas por dia e sete dias por semana, a ajudava a construir a sua própria casa, no bairro al-khāmiss, mesmo do outro lado da auto-route. Esta mulher era para mim a expressão de que o casamento não é o único ideário possível para o sucesso e para os desejos das mulheres das classes populares. No entanto, não podia alhear-me do facto de que talvez assim fosse porque ela era divorciada. Fatiha, não sabia ler nem escrever mas isso não era razão para se vitimizar: sabia que era uma mulher trabalhadora e que os seus crepes eram famosos para lá dos limites sinuosos do bairro.

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A sua natural simpatia acompanhava a delícia dos seus crepes e, portanto, era parte da receita para um bom negócio, mas contida aos limites da boa conduta e da ḥachūma58.

Era na loja de Fatiha que Abida, casada e com quatro filhos, e dona de uma pequena e escura loja do outro lado da rua, deixava de manhã os bghrir. Nas horas de menos movimentação, juntava-se a Fatiha, atravessando lentamente a rua, olhando sempre de soslaio para a porta da sua loja, não fosse alguma cliente aparecer. Aí tinha exposto empoeirados vestidos de criança e objectos que há muito não deviam ser tocados; aí também vendia os bolinhos que fazia em casa. A filha mais nova, Safiya de 14 anos, juntava-se à mãe muitos dias da semana, depois da escola, e as conversas transcorriam no alpendre em frente à loja de Fatiha, enquanto esta colocava a massa dos

musammen na placa a gás. Também Aicha, dona de um pequeno salão de cabeleireiro,

se juntava ali nas horas vagas, enquanto a sua filha de quatro anos circulava aos pulos entre os dois lugares, beijando-me entusiasticamente sempre que me via e saltando um vigoroso bonjour, que acompanhava com um comentário, em alto e bom som, o que sempre me incomodava, sobre o que levavam os meus sacos das compras.

Aí vinha também, a Ḥājja Salima, a quem ao início eu tratava pelo nome próprio, e que rapidamente Fatiha me corrigia dizendo «Ḥājja, Ḥājja», introduzindo-me assim ao universo das nomeações por reverência e relembrando-me a momentaneamente esquecida riqueza etnográfica contida na literatura sobre Marrocos, que já me havia precavido para estes aspectos. Mas, neste caso, não se tratava apenas de uma reverência graças à idade e estatuto acumulados; o que a distinguia era que Salima já tinha feito a peregrinação a Meca59. Era uma mulher solteira, vivia sozinha na casa de uma irmã emigrada em França e era extremamente devota. Por isso, zelava e controlava os movimentos das mais novas. Porque a sua casa ainda estava inacabada, Fatiha pernoitava na casa da Ḥājja, próxima à loja de crepes. Durante esse período, queixava- se do controlo apertado a que era sujeita, sobretudo depois de fechar a loja, quando

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Ḥachūma é traduzível pela noção de «vergonha». Este é um termo utilizado para se referir a uma qualidade que as mulheres devem ter e que deve reger os seus comportamentos, sobretudo a discrição e o autocontrolo (cf. Abu-Lughod 1999; Silva 1999, entre outras). Em Marrocos, utiliza-se muito a expressão Ḥachūma ʿalīk quando se quer ralhar com alguém e avisar que determinada observação ou acto é vergonhoso.

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Os termos Ḥājj (masc.) e Ḥājja (fem.) são utilizados para descrever as pessoas que realizaram a grande peregrinação a Meca (Ḥajj), um dos cinco pilares fundamentais do Islão, que se distingue de outras pequenas peregrinações (denominadas de ʿUmra). A grande peregrinação realiza-se antes e durante a Festa do Sacrifício (ʿId al-Aḍḥa). É uma das obrigações impostas a todos os muçulmanos livres, com condições físicas e meios materiais e económicos e deve-se realizar uma vez na vida. Ter realizado a peregrinação é um sinal de estatuto, não só porque demonstra uma grande religiosidade da parte do peregrino, porque se visitou os lugares mais importantes da história do Islão e porque em Marrocos, implica grandes condições económicas para o fazer.

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queria ir dar um passeio à praia e desanuviar do cansaço do dia de trabalho. Também eu não escapava às perguntas insistentes da Ḥājja Salima: «Raquil, fīn ghādya?», «onde é que vais». Depois das minhas respostas, por vezes disparatadas, para fugir ao controlo, olhava-me de esguelha, esboçando um sorriso apertado. Era a Ḥājja que às sextas-feiras, sempre trazia para a loja da Fatiha o que sobrava do cuscus que tinha preparado para os irmãos que a visitavam nesse dia; e era aí também que as minhas sextas-feiras se tornavam o dia de um almoço especial, partilhado entre vizinhas e que me retribuíam a sensação de pertença que por vezes me faltava.

Como se pode ver, estas dinâmicas enfraquecem a dicotomia entre espaço público e privado mostrando que também a rua é espaço onde se desenrolam solidariedades e laços que unem mulheres. A linha ténue entre trabalho e convívio permite que a rua seja domesticada, ou seja, tornada espaço possuído, com ritmos e pessoas que a caracterizam. Aquela rua, simultaneamente pública (portanto aberta a todos) e domesticada (logo conferindo conforto e canalizando a vigilância), demonstra que a criação da distância e do respeito referente à segregação de géneros é por vezes situacional e depende de outros marcadores socioeconómicos. A persistência quotidiana de redes de apoio inclui homens, o centro de piadas e brincadeiras, que ajudam na resolução de problemas tipicamente masculinos (eléctricos, canalizações, transporte de coisas pesadas), incluindo patrões e clientes que a força do hábito aproximou. Nem todas as mulheres se relacionavam igualmente com os homens, mas a maior liberdade de que Fatiha usufruía como divorciada, não lhe merecia um maior isolamento social; muito pelo contrário, era a sua vitalidade e reconhecimento que aproximava as mulheres casadas, solteiras e ainda socialmente respeitáveis, como a Ḥājja, que se juntavam à porta da loja que geria.

Ao mesmo tempo, tal como Silva (1999) refere relativamente às redes de solidariedades na medina de Salé, a proximidade (qarāba) «não obedece a princípios rígidos de ordem socioeconómica» (Ibidem:85), como também não se limita ao sexo feminino. Sem dúvida que a assiduidade é fundamental para a força destas redes e, por essa razão, inclui homens que, não partilhado do mexerico ou da intimidade feminina, são integrados pelas brincadeiras e pelo apoio mútuo que prestam em actividades vistas como exclusivamente femininas ou masculinas.

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