7 Explanatory potential of LI, HI and ACF in relation to stakeholder influence
7.2 Analysing the process through the lenses of the advocacy coalition framework: advocacy coalitions as key
A rua é, nos dias de correm, o lugar onde os encontros entre homens e mulheres estranhos se dão com mais frequência. Seja no mercado, nos serviços ou na administração marroquina homens e mulheres cruzam-se e falam-se, são vendedores ou clientes, negoceiam, discutem preços, pagam as suas contas. Numa pequena vila a pouco quilómetros de Essaouira onde ao domingo de manhã se realiza um importante mercado regional, já não é assim. É raro encontrar uma mulher a vender ou a comprar. A cidade impõe-se enquanto espaço privilegiado das interacções entre géneros e, por
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essa razão, é também aí que os comportamentos são mais intensamente vigiados. O anonimato só muito remotamente é uma condição numa pequena cidade como Essaouira.
A rua é, por isso, um lugar de exposição que obriga as mulheres a regularem os seus comportamentos e a serem atentas aos seus próprios movimentos. Num estudo de mestrado realizado sobre a utilização do espaço pelos jovens de Essaouira (Grelet 1999), as raparigas afirmavam ter circuitos de passeio que não implicassem passar duas vezes pela mesma rua, uma estratégia para evitar os comentários dos comerciantes, que consideram a recorrência como uma exibição. Foi também com algum espanto que ouvi uma amiga dizer-me que tinha combinado um encontro com um pretendente num domingo de manhã (o momento e o dia da semana com menos pessoas na rua) numa pastelaria longe da medina (o centro da cidade), onde trabalha e vive há muitos anos, receando os comentários dos vizinhos e conhecidos. Maryam, outra amiga minha, afirmava que os merceeiros perto de sua casa, que já a conhecem há anos, continuam a fazer-lhe propostas indecentes, relembrando-lhe constantemente que a situação de divorciada lhe obriga a uma atenta vigilância nas interacções.
Estes exemplos mostram que a rua é o local onde as relações entre homens e mulheres são sexualizadas e vigiadas. É simultaneamente um espaço de segurança, uma extensão da casa através das redes de vizinhança, e de perigo, porque estas se diluem entre os desconhecidos. É também através do espaço da rua que as diferenças de género são naturalizadas e se reelaboram e legitimam tanto nos discursos das mulheres como dos homens. É através das interacções entre desconhecidos e dos perigos a elas associados, que homens e mulheres validam a disciplina islâmica no que toca a segregação de géneros. Por exemplo, algumas mulheres diziam-me que os homens «árabes» são descontrolados (em termos da expressão da sua sexualidade) e que, por essa razão, o Islão impõe uma forte segregação, com o intuito de proteger as mulheres.
Aicha, de vinte e sete anos e oriunda de uma família numerosa (são seis irmãos, três raparigas e três rapazes), foi a primeira entre os irmãos a tirar um curso universitário, tendo estudado em Rabat. Após a finalização do curso de Língua Alemã voltou para Essaouira. Quando a conheci, tinha conseguido um trabalho numa loja que vende produtos derivados do óleo de argão, onde ganhava 700 Dirhams (aproximadamente 70 €) ao mês por oito horas de trabalho. No entanto, para Aicha, esta era uma oportunidade para praticar o alemão, já que o público-alvo da loja eram os turistas, entre os quais muitos de nacionalidade alemã. O namorado vive em Rabat e
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conheceu-o quando fazia os seus estudos. Ele estava a fazer o doutoramento em Filosofia e esperava que as promessas do Rei de avançar com uma série de medidas de integração dos licenciados no aparelho do Estado, decorrentes das manifestações sociais do ano de 2011, o viessem a favorecer57.
Aicha desejava casar-se mas falava das dificuldades, sobretudo materiais. Para ela era impensável viver com a família do namorado depois do casamento, na medida em que não queria estar sujeita às vontades da família dele. Queria constituir uma família com casa própria, o que implicava um maior investimento monetário (dependente da empregabilidade dele), que até ao momento não tinha sido possível. Por isso, referia que adiavam a data do casamento. Há meses que Aicha não via o namorado. Rindo-se envergonhadamente, dizia-me que «achava piada» a «um barbudo» que passava na rua em frente à loja, mas que o rapaz nem sequer lhe dirigia o olhar. Para Aicha, os «verdadeiros barbudos» não devem olhar para as mulheres, nem mesmo tocá- las quando se cruzam acidentalmente na rua. Quando lhe perguntei o que eram os «verdadeiros barbudos», disse-me que são aqueles que são realmente praticantes, «diferentes dos que trabalham ali na zona dos telemóveis, que têm a mesma aparência mas que sempre arranjam maneiras de te tocar» (e fez-me um gesto sensual nas costas). Para Aicha, os «verdadeiros barbudos» mostram o seu respeito às mulheres estranhas, ignorando-as. Uma vez viu esse rapaz ir contra uma mulher por acaso e observou como se sentiu desconcertado por lhe ter tocado acidentalmente. Isso agradou-a.
O termo «barbudo» (em francês barbou ou em árabe Lḥya) é utilizado para designar os homens que são conotados com uma interpretação religiosa mais estrita e, portanto, cumpridores de uma rigorosa segregação entre géneros. A expressão material e performativa dessa prática e conduta faz-se através da utilização de uma cuidada barba, comprida em tamanho mas aparada dos lados, e da fuwqiyya, uma peça de roupa comprida de origem paquistanesa por oposição à jilāba, tipicamente marroquina. Esta aparência pretende ser a expressão física da adesão a uma leitura puritana do Islão, cuja devoção passa pela imitação e reprodução daquilo que se consideram ser as acções e hábitos do profeta e dos quatro primeiros califas. De acordo com Aicha, esta aparência só faz realmente sentido quando estes homens respeitam verdadeiramente as premissas religiosas e a segregação ao ponto de ignorar as mulheres que passam. Por isso,
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Em sequência das revoltas nos países árabes, o Rei de Marrocos anunciou uma série de novos empregos para os jovens qualificados desempregados. Os desempregados diplomados constituem um importante movimento social em Marrocos desde a década de oitenta. Ver Emperador (2009)
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estabelece a diferença entre os verdadeiros barbudos e os outros, que apesar da aparência, continuam a ter vontade de lhes tocar. Numa realidade onde o assédio sexual dos homens sobre as mulheres é constante, a atitude destes homens destaca-se. O desejo de cumprirem o ideal islâmico reflecte-se na forma como (não) olham para as mulheres. Se, em algumas situações, observei a forma crítica como se considerava estas pessoas, pelo facto de se julgarem portadoras legítimas de uma leitura correcta do Alcorão e da
Sunna, muitas vezes também as mulheres referiam o cuidado destes homens no trato
que mantinham com elas, inclusive na ausência de um olhar directo. Mas a situação mostra também a forma não conflituante com que Aicha olha, contrariando as imagens de passividade atribuída às mulheres; e de querer ser olhada ao mesmo tempo que valoriza a ausência dessa procura pelo rapaz.
Numa aula de árabe dialectal marroquino que frequentei na AFBK, a presidente e simultaneamente professora, falou-nos das relações entre homens e mulheres e daquilo que afirmava ser a «nossa cultura». A conversa começou porque algumas das mulheres presentes, francesas residentes em Essaouira, referiram que os homens se dirigiam a elas na rua e lhes diziam bonjour. Alegavam não saber como reagir na medida em que consideravam indelicado não responder a uma saudação, mas que a resposta iniciava uma conversa, o que as importunava. Na sequência destas queixas, Leila explicou algumas das suas opções no que se refere à relação com os homens, para não ser molestada. Mesmo que sejam seus conhecidos, como, por exemplo, amigos do marido, Leila ignora-os quando se cruza com eles na rua e afirma que não o faz por desrespeito mas sim para criar uma distância. Também nos disse que quando vai à mercearia perto de sua casa finge não ouvir determinadas perguntas que o vendedor lhe faz, para evitar expor a sua vida e abrir a possibilidade de uma conversa, a qual segundo ela, teria sempre segundas intenções.
Para Leila, as razões do desrespeito pelas mulheres em Marrocos e o constante assédio de que são alvo são resultado de uma cultura da ignorância e não da religião. Na realidade, Deus conhece a natureza dos homens e das mulheres e por isso impôs a segregação de género, protegendo ambos, impossibilitando-os de cair tentação, de pecar. A natureza sexual dos seres humanos pode levá-los à desordem, ao caos (fitna). Em conversas que tive em privado, dizia-me que era necessário distinguir entre religião e cultura, porque muitas pessoas, sobretudo estrangeiras, tendem a avaliar os comportamentos dos marroquinos em função das prerrogativas religiosas e não da cultura do assédio e desvalorização feminina que, na perspectiva de Leila, nada é
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devedora do verdadeiro espírito do Islão. Na sua visão, o Islão respeita as mulheres. Ao evitar o contacto com os homens na rua, Leila está a evitar situações que possam ser prejudiciais socialmente, mas está também a dotar de valor e significado o corpus de conhecimento que o Islão oferece relativamente a estas questões. A ideia de protecção, que também é patente nas relações conjugais, moraliza as relações de poder.