Naturalidade João Belo, Moçambique
Tempo de experiência profissional 34 anos (canta desde 1978) Está neste projeto desde o seu início? Não
Que motivos levaram à escolha deste tema? (Lisgoa) Penso que foi pela viagem que ele fez. Pelos temas que ele escolheu. Por que é que ele escolheu um tema relacionado com a Índia ou com Goa? Pelo que eu sei ele já teve trabalhos com a China, com cantoras chinesas, e com o Brasil. Penso que era mais um, para ser diferente. Para ser diferente? Acho que sim. (risos)
Acha que há muitas diferenças entre a música goesa e a música do resto da Índia? Penso que a diferença está na língua, mas o estilo de música é praticamente parecida. Achas que é parecida? É igual, só que, dá-me a impressão que eles agora misturam um bocadinho mais de música portuguesa e fogem um bocadinho aos instrumentos indianos. Estou a perguntar- te a diferença entre a música goesa e a música do resto da Índia, na própria Índia. Exatamente. É uma coisa que eles fazem em Goa, fogem um bocadinho aos instrumentos. Eles estão a fugir um bocado pró cinema. Tiram as tablas, tiram os instrumentos mais típicos. Isso em Goa!? Em Goa.
Porque se optou por introduzir “film songs” no repertório do disco? Olha que isso! Estou um bocado fora do projeto. Não sei responder a isso. O que é que te poderá vir à ideia? qual poderá ter sido a razão? Eu penso que o mestre, ou quem fez o CD, não sei quem é que fez o CD, eles não sabem que é diferente, a música goesa, ou a música de outra coisa. Para mim é tudo Índia. Música goesa como as músicas de Bollywood, é tudo indiano. Não tem diferença, porque há marathis, há punjabis, há vários, bengalis. É tudo é música indiana. Aliás eu recebi um comentário, dum video do Youtube, do Zindagi, ouve um que disse que o mestre devia estar doido, em pôr esse tipo de música, uma vez que o álbum se chama Lisgoa. Ele de certeza que é um goês a falar, que queria só músicas portuguesas e goesas. Não sei se tu viste esse comentário!? Não. Tu falaste-me nele. O que achas desse comentário? Faz sentido? Acho que ele é ignorante. Não faz sentido. Lisgoa? Até porque o álbum só tem dois
mandós. O resto é tudo músicas de Bollywood. Agora só se faltou informação a quem produziu o álbum. Pode ter sido. Falta de informação. Eu acho que,... eu não sei quem é que escolheu o Lisgoa, o nome “lisgoa”. Deve ter sido o Nuno Sampaio, não sei. Achas que se houvesse mais informação…o álbum seria melhor! Era? Eu penso que sim. E o que é que podia acontecer para o álbum ser melhor? Por exemplo, naquela música do “Beijo”, que puseram uma mistura de, a parte que a rapariga canta, por acaso eu não canto o que ela rapariga canta, “Jai Ram Shri Ram”, isso não combina com o que a fadista canta. Não tem nada a ver. Acho que foi uma coisa fora do contexto. Não tem mesmo nada a ver.
Conhece a música indiana? Conheço. (risos)Costuma ouvi-la? Muito. O que sentes ao ouvi-la? Eu gosto um pouco de tudo. Das músicas mais calmas, mais clássicas, eu sinto paz de alma. Quando estou stressada, oiço. Faz-me bem ao coração, à alma.
Que músicos indianos conhece? R.D. Burman, para mim acho que é um dos melhores músicos. Mais. Esse nome que referiste é um compositor de Bollywood!? Músico, músico mesmo? Nunca vi assim por esse lado. Sabes dizer um músico, só? Seja de que género fôr. Ravi Shankar. Talvez o Ravi Shankar.
Acha a música de Bollywood representativa da música indiana? Penso que sim, acho que sim. Porquê? Representa a música indiana. Basta falar em bollywood, a pessoa já está a ver do que é que se trata.
Acha o sitar um instrumento importante na música indiana? Acho. Importantíssimo. O sitar e tabla. E da música de Goa? Eu para mim... a música de Goa não tem diferença do outro tipo de música. Os goeses lá, é que estão a transformá-la. Para mim música de Goa é uma música indiana. Cantada em goês, é uma música indiana. Música indiana, de Goa. Se eu ouvir uma música punjabi, Mas daquilo que conheces da música de Goa, o sitar faz parte dos instrumentos escolhidos para representar essa música? Não me parece, não me parece.
Qual o instrumento que escolheria para representar a música indiana? Tablas. Porquê? Porque acho que é típico. Tabla. Mais do que qualquer outro instrumento? Penso que sim.
Que outros projetos musicais não indianos conhece que usem ou tenham usado o sitar, aqui em Portugal? Tirando o mestre não conheço ninguém. Nem recentemente te lembras de nenhum projeto português que use sitar? Quer dizer, agora este teu, ah a orquestra, já me estava a esquecer.
Conhece outros instrumentos indianos? O santoor, conheço... como é que se chama aquilo, o sarangi, tablas, não me lembro de mais nenhum.
Reconhece alguma ligação entre géneros musicais de Portugal e da Índia ou Goa? Não. Não estou a ver. Consideras o fado um estilo de música portuguesa!? Típico. E o mandó reconheces como um estilo de Goa. Achas que há alguma relação entre fado e mandó? O mandó, não me parece ter ligação com o fado. Tem é com as músicas alentejanas. Alentejanas? Para mim tem. Penso que liga-se mais àquele estilo, ... pronto, como os alentejanos cantam. Tem mais a ver com o mandó do que propriamente o fado.
Qual a razão da escolha do sitar neste projeto? Desde que ele quis fazer qualquer coisa ligado à Índia, penso que foi muito importante em ter posto o sitar. Foi essa a razão? Penso que sim.
Na impossibilidade de haver um sitar no projeto, qual seria o instrumento escolhido? Talvez pusessem mais um guitarrista. Mas aí a representação da Índia deixava de existir!? Deixava de existir, exatamente. Então qual seria o outro instrumento, sem ser o sitar? Sem ser o sitar não estou a ver mais nenhum. Não estou a ver mais nenhum. Tinha que ser o sitar. A tabla poderia ser uma escolha? Poderia. Aquilo não é tabla, que o Manu está a tocar? O Manu toca tabla mas não é um tablista. Na minha opinião se pusessem um verdadeiro tablista ficaria melhor.
A opção para o Lisgoa seria sempre um instrumento de cordas? Tinha que ser cordas mesmo. Era? Sim. Para representar um instrumento da Índia? Da Índia com o fado. Portanto tinha que ser mesmo com cordas. Não podia ser outra coisa. Mas há pouco disseste que, em caso de não haver um sitar, pelo menos a tabla deveria existir!? Sim. A tabla deveria existir. O nome está mesmo a dizer, não é? Lis goa. Achas que, por exemplo poderia ser possível, a guitarra ser acompanhada com tabla? Não havendo um sitar por exemplo? Com sitar fica mais completo. Acho que completa mais com o sitar.
A convivência entre o sitar, a guitarra e os restantes instrumentos foi equilibrada? Foi. Combinam-se muito bem. Dão-se muito bem. Entendem-se entre eles. (risos)
Acha que o sitar teve o seu espaço merecido no disco? Não. Podia ter sido mais... como é que se diz? Podia-se ouvir mais, o sitar. Ouve-se muito pouco. E no espetáculo? Melhor no espetáculo do que no CD. Sobressai mais no espetáculo. No CD não dá muito nas vistas, podia haver mais. Mesmo nas canções que não são indianas. Podia-se pôr o sitar mais alto.
Em que escaparate procuraria o disco “Lisgoa”? Penso que seja no fado. Sim? Acho que sim. Por o nome do António Chaínho. Considera-o um projeto “World Music”? Na maneira como o CD está feito, não. Porquê? Na minha opinião o CD está mal feito. A vocalista está mal escolhida. Referes-te à vocalista indiana ou à vocalista que representa a música portuguesa? Não, a que representa a música portuguesa está muito bem representada, a que representa a música goesa está muito bem escolhida. Agora a indiana, é a que não está bem escolhida, uma vez que ela canta com um sotaque!? Ela tinha que ser uma cantora que cantasse indiano. Tipicamente indiano tal como a fadista canta e como a outra senhora canta, a Sónia Shirsat. A indiana canta com um sotaque que não tem nada a ver com Índia. Está mal escolhida. É a minha opinião.