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vezes representados? Que instrumentos musicais aparecem repetidamente na mesma iconografia? Que temas iconográficos privilegiam a representação de aspectos musicais?

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Relativamente à etapa seis deixamos considerações breves acerca do Método de Panofsky que privilegiamos para a construção do Inventário do corpus (Vol. II).

A análise iconográfica que faremos no Vol. II não tem a pretensão de ultrapassar a simples identificação dos aspectos musicais, descrição ou classificação de imagens. Sabemos que não podemos atingir um nível mais profundo, o da interpretação dos seus significados como compete à Iconologia, quando para a maioria dos casos não temos ao dispor documentação que nos permita atingir esse nível. A Iconologia, na esteira do crítico e historiador de arte alemão Erwin Panofsky (1892-1968), e enquanto Método, preocupa-se com o significado último das imagens, isto é, procurando explicar o porquê das imagens num determinado contexto, entendendo-as dentro da cultura que a criou e da época a que pertence. Quanto a isto Gombrich é claro ao apontar que é difícil ou impossível separar os dois conceitos - Iconografia e Iconologia - e não será de todo

44 desejável. No entanto, para melhor se compreender o que acabamos de discorrer expomos alguns pontos sobre o Método [Iconográfico] Iconológico de Erwin Panofsky.

- Panofsky surge numa época em que a historiografia da arte estava ainda agarrada à análise formal, estética e estilística, deixando para segundo plano (ou ignorando) o que dissesse respeito ao tema ou conteúdo (sobre isto cf., por exemplo, Heinrich Wölfflin, Principes fondamentaux de l’histoire de l’art, 1915).

- É o Instituto de Warburg que vem chamar a atenção para o facto da obra de arte não poder ser considerada fenómeno isolado, mas que o seu valor deve ser entendido em função do significado religioso, da bagagem de cada artista (e oficina) e dos condicionalismos do contexto cultural no âmbito do qual a obra foi produzida.

- Panofsky, uma das figuras ligadas ao Instituto Warburg, entendeu que a História da Arte deveria ser o resultado de um processo convergente e unificador entre a arte, filosofia, literatura e ciência, ou seja, disciplinas que conjuntamente viriam fornecer os meios necessários para a identificação, leitura e interpretação da obra como um todo.

Foi neste seguimento que Erwin Panofsky propôs o Método Iconológico (1939), estabelecendo três níveis de significado:

1- Significado primário ou natural

Também chamada descrição pré-iconográfica da obra de arte. É a etapa do reconhecimento da obra no sentido mais elementar recorrendo à experiência prática em reconhecer, descrever ou interpretar o significado primário e natural do que se observa. (Exemplo: perante a representação da Última Ceia de Leonardo da Vinci, esta primeira etapa diria respeito à alusão simples de um conjunto de treze homens, sentados em volta de uma mesa com alimentos). No caso do nosso corpus de pintura o nível pré- iconográfico consistiria em assinalar somente a presença de figuras humanas ou figuras portadoras de asas segurando objectos com caixas de ressonância arredondas, triangulares, etc. e livros abertos com caracteres.

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2- Significado secundário ou convencional

Também designada iconografia em sentido restrito esta segunda etapa consiste na análise iconográfica propriamente dita, cujo objectivo é descobrir o conteúdo temático, isto é, o significado secundário ou convencional, sendo necessário recorrer às tradições culturais e às fontes literárias coetâneas e/ou anteriores, a símbolos, alegorias e personificações de forma a identificar uma figura ou uma cena. (Exemplo: a figuração de um conjunto de treze homens sentados à volta de uma mesa com alimentos, deveria ser identificada com uma representação da Última Ceia, tema recorrente na iconografia cristã e a sua ligação a três Evangelhos canónicos (Mt. 26, 20-29, Mc. 14, 22-26 e Lc. 22,14-20) e na carta de S. Paulo aos Coríntios (1 Cor 11, 23-26). A aplicação deste segundo estádio ao nosso reportório de pinturas passaria por identificar cada uma das figuras – anjos, pegureiros, menestréis, Rei David – e os instrumentos musicais de que se fazem acompanhar ou que tangem. Nesta etapa entraria a procura dos termos de época nas fontes literárias coetâneas ou anteriores. Seriam ainda descritos as características dos agrupamentos e outros detalhes relacionados com as técnicas de execução e ambientes. Em síntese, após uma contextualização do painel e conhecido o seu historial passaríamos à Análise Iconográfica, descrevendo as características mais importantes das figuras, identificando atitudes, gestos, descrevendo locais, elementos simbólicos e pormenores relevantes do espaço de representação.

3- Significado intrínseco ou conteúdo

Este último nível que Erwin Panofksy designa inicialmente por Iconografia num

sentido mais profundo e que, mais tarde, classificará como Iconologia contrapondo-a à Iconografia corresponde, nas suas próprias palavras, a um método de interpretação, mais de síntese que de análise. No exemplo apresentado por Panofksy, relativo à Ultima

Ceia, este terceiro nível permitirá compreender, na óptica deste historiador de arte alemão, o próprio carácter de Leonardo da Vinci e a sua visão sobre o mundo e a sociedade do seu tempo. Por isso, o objectivo da Iconologia parece ser não apenas interpretar a história representada mas averiguar o significado dessa história no contexto concreto em que foi criada. A aplicação deste nível interpretativo ao Reportório implicaria conhecer, por exemplo, o contexto em que a obra foi criada, a intenção do

46 comitente (eclesiástico, nobre ou da realeza) ao propor um determinado programa iconográfico de modo a justificar a inclusão da pintura no local que lhe foi destinado, compreender as fórmulas adoptadas por um determinado pintor à luz da sua formação e cultura, compreender a mentalidade religiosa da época e a relação de proximidade/distância que tem o pintor relativamente aos aspectos musicais que representa. Em síntese, esta 3.ª etapa consiste numa série de exigências às quais, na maioria das vezes, não é possível dar resposta pela falta de documentos como contratos, pelo desconhecimento da sua proveniência, dos «Descritores» ou painéis que com ela fariam conjunto e, por isso, em grande parte do nosso estudo, não se torna possível avançar, como gostaríamos, no campo do significado iconológico.

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Capítulo II