Chapter 1 – Structural effects
1.3 Political aspects
1.3.2 Political environment
Vimos anteriormente um pouco de como a escola ou os liceus de ofícios (que nasce sob a proposta burguesa de organização da sociedade) tem como função social a reprodução da manutenção da hegemonia da classe dominante. Desta forma, é importante descrever o modo como a modernidade supera as formas feudais de organização e de condições de trabalho.
No sistema feudal, havia o controle, pelo próprio trabalhador, do ritmo e da intensidade do próprio trabalho, caracterizando-se como uma economia de subsistência. Enguita (1989) aponta que com o surgimento da sociedade industrial a imensa maioria das pessoas se tornaram incapazes de decidir sobre o destino do próprio trabalho, pois neste modo de produção o controle é externo ao trabalhador. Assim, a partir das relações capitalistas o trabalho é dissolvido em dois pólos: o
pensar o processo de trabalho (dimensão intelectual) e sua execução (dimensão prática). O trabalho intelectual ficou a cargo dos proprietários dos meios de produção, enquanto o trabalho da ação propriamente dito, o trabalho manual, aos proletários. Enguita (1989) aponta que a cisão do trabalho em intelectual e manual acomete o elemento “vontade”; desta forma “vontade” e a “ação” do trabalho são rompidas e polarizadas no processo produtivo. Em suma, essa é a cisão do trabalho livre em trabalho alienado, isto é, grosso modo, trabalho mecânico, desfigurado da vontade e do controle do ser humano que trabalha.
A organização racional do trabalho (controle do processo – trabalho alienado/assalariado) é, de acordo com Weber, legitimada pelo amplo movimento puritano inglês, no seio da Revolução Industrial. A forma desta legitimação está na difusão ideológica do trabalho como meio de salvação do homem em contrapartida ao ócio e aos prazeres, estes últimos que eram condenados por Deus, sobretudo pela burguesia calvinista (CATANI, 1999); esta difusão ideológica do trabalho pelos calvinistas confunde-se com a ideologia capitalista do livre mercado. A ideologia (inclui-se a do Puritanismo) no surgimento do capitalismo industrial tinha um papel importante: apontar o homem como sujeito do trabalho perpétuo.
Enguita (1989) aponta a necessidade de uma política repressiva para a aceitação das novas relações sociais. Essa mudança de valores culturais da sociedade do ócio para a sociedade industrial deu-se por perseguições aos pobres, “marginais” e vagabundos, através de internações e obrigando os trabalhadores a ofícios forçados, bem como o uso de castigos.
Uma das ações políticas para essa revolução cultural dos valores da sociedade industrial foi a criação da educação pública, ou seja, uma instituição que nasce na incumbência de reproduzir a ideologia burguesa, livrando a massa da “ociosidade” pela preparação dos indivíduos para o trabalho assalariado e para a produtividade (ENGUITA, 1989; LOPES, 2008). A produtividade, oriunda do capitalismo acabou por reproduzir a alienação e a exploração da classe dominante sobre a classe trabalhadora.
Porém, instruir os adultos não foi tarefa fácil devido a grande resistência ao trabalho assalariado, mesmo com a baixa praticamente compulsória em seus salários; segundo Enguita (1989) isso se dava, pois o trabalhador tinha noções
sobre o nível de vida decente, portanto preferia o ócio ao rendimento. A medida tomada pela burguesia foi empregar a mão de obra de crianças e mulheres (ENGUITA, 1989). As crianças eram muito mais maleáveis do que os adultos acorrentados em suas tradições e as mulheres eram mais submissas segundo a cultura patriarcal. Além disso, a escola passou a ser obrigatória para as crianças; e para a burguesia sedenta desta mão de obra, isso seria um “investimento” em longo prazo (ENGUITA, 1989).
A escola pública nasce, então, como estratégia da burguesia com o intuito da reprodução das condições sociais necessárias para a expansão do modo de produção capitalista, ou seja, a instrução escolar foi incumbida de reproduzir as diferentes classes sociais, sobretudo fortalecer o caráter submisso da classe proletária em relação às classes dominantes. As formas de organização do trabalho sob o modo capitalista de produção sofreram mudanças radicais, ou seja, determinaram uma relação de submissão dos proletários para com a classe dominante, isto é justamente a divisão do trabalho assalariado, e a escola assumiu seu papel em prol da formação unilateral, desta formação ideologizada.
Numa perspectiva crítica de superação dessa função histórica da escola e, aprofundando-se no conceito de trabalho como princípio educativo, Gramsci afirma que essa escola burguesa não tem interesse na formação universal dos alunos educandos:
A tendência atual é a de abolir qualquer tipo de escola "desinteressada" (não imediatamente interessada) e "formativa", ou de conservar apenas um seu reduzido exemplar, destinado a uma pequena elite de senhores e de mulheres que não devem pensar em preparar-se para um futuro profissional, bem como a de difundir cada vez mais as escolas profissionais especializadas, nas quais o destino do aluno e sua futura atividade são predeterminados (GRAMSCI, 2006, p.33).
A escola “desinteressada” de Gramsci é aquela que se opõe ao modelo de educação disseminado junto à burguesia, isto é, um modelo que, pelo interesse na formação imediata e exclusiva para o trabalho, explicita-se como discriminatório e excludente. Para Gramsci (2006), a escola “desinteressada” é a “escola unitária”, isto é, uma escola que além de sua dimensão intelectual e cultural, tenha a capacidade de inserir os jovens na prática social; além disso, quanto a sua forma
organizativa, a escola unitária leva a dois rumos: caráter científico (estudos universitários) e o caráter prático-produtivo, isto é, voltados ao campo da indústria, burocracia, etc. A escola unitária, segundo Gramsci (2006), traz novas perspectivas para o trabalho intelectual e para o trabalho industrial, do ponto de vista da práxis, formação dos educandos no âmbito da vida social na perspectiva de sua transformação.
É nesta perspectiva da escola “desinteressada” que se dá a formação do homem onilateral. Manacorda (2010) aponta que em Marx, a formação do homem onilateral se dá pela integração da ciência e da técnica, bem como o vinculo do trabalho a educação, vale ressaltar que o trabalho é entendido em Marx como manifestação vital do homem no mundo, elemento que lhe assegura a sua liberdade. Embora Marx não tenha usado o termo “onilateralidade”, ele foi definido em contraposição ao termo “unilateral”, ou seja, o que Marx denomina de homem formado a partir da divisão do trabalho e pelas relações burguesas. A onilateralidade é para Manacorda (2010), a formação humana através do trabalho não alienado, este que é imbuído da preocupação com o pleno desenvolvimento do homem enquanto ser social, histórico, cultural, econômico e etc; e completa: “que não seja ou sapateiro ou filósofo, mas ambos e algo mais “onilateralmente”” (MANACORDA, 2011).
De acordo com Manacorda (2011), a onilateralidade do homem só será reintegrada quando a ciência for reunificada e o modo de produção capitalista superado, se levarmos em consideração todas as consequências oriundas dos meios de produção e das relações sociais do capitalismo, ou seja, com base na propriedade privada e na divisão do trabalho.
O conceito de politecnia em Gramsci abarca, portanto, as questões do trabalho tal qual é entendido por Marx (2004): como atividade vital, isto é, atividade de sua própria vontade e consciência, este trabalho difere o homem dos demais animais, ou seja, o pior arquiteto realiza o seu trabalho de forma consciente, diferentemente das melhores abelhas, castores e das formigas que engendram suas habitações somente pelo crivo da existência. Desta forma, o trabalho e a educação politécnica para Marx (2004) é uma unidade dialética entre teoria e prática, e indissoluvelmente é práxis, ou seja, esta atividade vital é ao mesmo tempo
intelectual (antecipação do trabalho material) e material relativo à produção. Todo trabalho humano envolve concomitantemente o trabalho intelectual com o trabalho manual (MARX, 2004; GRAMSCI, 2006; MAKARENKO, 2012).
A educação, assim como a politecnia, coadunam no sentido de serem atividades especificamente humanas, e estas devem ser compreendidas de acordo com o entendimento da realidade humana. A realidade humana, segundo Marx (2004) é a própria atividade do trabalho, que obviamente não é dada pela natureza em si, mas é fruto da atividade intencional do homem em modificar a natureza (SAVIANI, 2008b).
Saviani (2003) argumenta que o trabalho é o fundamento da existência humana, bem como a formação do próprio homem, que está centrada no trabalho. Conclui-se, então, que o homem produz sua própria existência a partir desta atividade, bem como, compõe sua história. A partir do trabalho, o homem modifica a natureza para criar as condições de sua existência. Dependendo da forma com que a humanidade encara o fenômeno do trabalho, se modifica o modo de produção (SAVIANI, 2003).
De acordo com Gramsci (1968) apud Martins (2000) a racionalização do modo de produção, em especial aquele desenvolvido nos Estados Unidos da América pelo fordismo, determinou um novo tipo de homem: o homem alienado. As mudanças caminharam da economia para a cultura e a proposta fordista foi uma nova alternativa de mudar o sentimento de coletividade, penetrando-se nas classes populares, com disciplina e brutalidade para que fosse aceito as novas formas de relações (MARTINS, 2000).
Portanto, a escola unitária e o ensino politécnico para Gramsci (2006), são formas sociais de enfrentamento da educação para o trabalho, isto é, da educação em benefício das relações capitalistas de apropriação da mão de obra como mercadoria, e a escola como indústria formadora desta mão de obra, mercantilizada pelo capital, voltado à classe dominante, às relações de poder e atuando na proletarização dos professores e alunos. De modo geral, em Gramsci (2006), a educação deve ser realizada pelo trabalho, ou seja, na forma da denúncia de suas atrocidades quando leva em consideração a não distinção social das mais diversas funções de nossa sociedade. A escola unitária é um importante processo na
formação do sujeito, sujeito intelectual, sujeito trabalhador, em uma unidade indissolúvel.