3 Political implications for the British Isles
3.4 Further political consequences for the Union of Great Britain and the British state . 43
10.1 – A Possibilidade de um Pensamento Emocional
à Margem da Conceptualização e da Lógica
É bem de notar que com esta análise do comportamento das leoas não estou a sugerir que esses animais sofrem de uma absoluta incapacidade em construir conceitos. Defendo apenas, aproveitando o contributo de Damásio, que a conceptualização, tal como Langer a define, não é necessária para tomar decisões a partir de experiências passadas ou antecipadas. Talvez esta capacidade de decisão seja uma faculdade adaptativa evolutivamente antiga. Apoiado em resultados de vários estudos comportamentais, Griffin acredita que muitas espécies de animais constroem naturalmente vários raciocínios do género: «se enveredar por este tipo de acção», «posso conseguir comida», ou «se evitar animais com as características x, y e z», «posso evitar ser comido». Na sua opinião, estas são concatenações mentais simples que todavia envolvem conceitos gerais.112
Respeitando a tese de Damásio, talvez essas concatenações não necessitem de generalizações abstractas. Pode bastar a acção dos marcadores emocionais, ferramentas igualmente úteis quando se pretende discriminar de entre uma multitude de objectos aqueles que são comestíveis, perigosos, etc., sem incorrer em mentalizações desnecessárias. Por outro lado, talvez muitas dessas concatenações também não procedam de encadeamentos inferenciais (lógico-dedutivos). Pois, em determinadas circunstâncias, os marcadores emocionais poderão ser suficientes para estabelecer correspondências entre diferentes representações disposicionais mantidas na memória dos organismos dotados de consciência alargada, e, nessa medida, serão suficientes para elaborar novas representações acerca da realidade.
Foi por isso que mencionei no princípio deste capítulo (na secção 1.2) que talvez seja possível gerar novas crenças a partir da conexão entre outras crenças sem o recurso a deduções lógicas. Aparentemente, este tipo de operação consegue mover o
112
pensamento humano a vários níveis, desde o mais básico ao mais elevado. Explica Damásio, até o pensamento criador mais complexo, como é o caso do pensamento científico, parece dever muita da sua originalidade a esquemas mentais inspirados pela emoção.113
Porém, não obstante todas estas possibilidades, existem várias evidências comportamentais exibidas por aves e mamíferos (superiores e inferiores) que indiciam a sua capacidade de formar conceitos gerais. Porque Damásio não examina a fundo a base neurobiológica da conceptualização, achei por bem, no que respeita à atribuição desta capacidade, defrontar Langer em igualdade de circunstâncias – cinjo-me, como faz a autora, à interpretação do comportamento animal. Os casos a que recorro são referidos por Dawkins e Wise. Contudo, não se pode afirmar que a apreciação destes casos enquanto manifestações de fenómenos mentais carece de ser fundada numa ordem causal. Ainda que não aponte uma relação causal directa entre determinados mecanismos neurais e a formação de conceitos gerais, deve-se porém constatar que Damásio radica essa capacidade na posse de consciência alargada.114 Dado que os animais cujo comportamento vamos agora analisar são aves e mamíferos, essa análise não se revela portanto totalmente desprovida de fundamentação neurobiológica.
10.2 – O Caso das Aves
Em relação às aves, Dawkins comenta uma experiência que o psicólogo Herb Terrace desenvolveu com vista a descobrir se os pombos são capazes de construir «uma ideia generalizada com um grau algo elevado de complexidade, neste caso a “ordem” pela qual eventos devem ocorrer.»115 Essa experiência compreendeu duas fases. Na primeira fase, os pombos, para ganharem a sua recompensa em comida, aprenderam a bicar em cima de três diferentes luzes coloridas numa ordem
113
Cf. A. Damásio, Descartes’ Error, pp. 187-189. 114
Cf. A. Damásio, The Feeling of What Happens, pp. 309-311. 115
No original: «[a]n internal representation of their external world that enabled them to work out what to do in a novel situation using a generalized idea of a quite high degree of complexity, in this case the “order” in which events should occur.» M. S. Dawkins, Through Our Eyes Only?, p. 114. Para a análise da autora acerca dessa experiência, cf. M. S. Dawkins, Through Our Eyes Only?, pp. 109-114.
determinada. As luzes apareciam projectadas sobre um painel de vidro disposto no chão e a cada nova tentativa a posição de cada uma das cores mudava aleatoriamente dentro da área do painel para impedir que os pombos pudessem fazer uso da sua memória espacial.116 A ordem que eles tiveram de aprender foi VERDE-VERMELHO-AZUL.
Na segunda fase da experiência, os pombos foram então separados em dois grupos, e, em vez de terem de bicar em cima de três cores, passaram a ter de bicar numa cor e em dois símbolos novos, a saber, uma linha horizontal branca num fundo preto e um diamante branco também num fundo preto. Um dos grupos teve de aprender duas ordens novas: LINHA-VERMELHO-DIAMANTE e LINHA-DIAMANTE-AZUL, ordens essas nas quais a luz colorida correspondia a uma daquelas três que os pombos viram anteriormente e surgia no mesmo lugar que ocupava na sequência antiga. O outro grupo teve de aprender outras duas ordens: LINHA-VERDE-DIAMANTE e LINHA- -DIAMANTE-VERMELHO; nestas, a luz colorida surgia em lugares «errados» respectivamente à sequência antiga. Dawkins esclarece o propósito desta experiência com a seguinte passagem (na qual incluo duas adendas):
Terrace teorizou que se as aves, durante o seu treino inicial, tinham aprendido realmente a pensar sobre a ordem pela qual elas tinham de bicar coisas, então isto deveria passar para a nova tarefa e tornaria mais fácil para elas resolverem o novo problema se uma cor aparecesse no seu lugar correcto do que se estivesse no lugar errado.[…] Se, por outro lado, tudo o que os pombos estavam a fazer era memorizar padrões de luzes [enquanto blocos monolíticos de estímulos distintos] e não a pensar verdadeiramente sobre a ordem [num plano conceptual capaz de discernir as relações abstractas próprias da sucessão de eventos: primeiro x, no meio y, e no fim z], então ambos os grupos deveriam considerar a nova tarefa igualmente difícil (ou fácil) de aprender pois ambos estavam a ser confrontados com novos padrões. 117
116
Uma memória por sinal prodigiosa, dada a espantosa capacidade de navegação destes animais em vôos de longa distância. Portanto, se lhes fosse dada a oportunidade, não haveria como saber se os pombos tinham aprendido tal tarefa através de associações espaciais simples, tais como por exemplo: LUZ À ESQUERDA→PRIMEIRA BICADA, LUZ AO CENTRO→ SEGUNDA BICADA, LUZ À DIREITA→TERCEIRA BICADA.
117
«Terrace reasoned that if the birds had, during their initial training, really learnt to think about the order in which they had to peck things, then this should carry over into the new task and make it easier for them to solve the new problem if a colour appeared in its rightful place, than if it was in the wrong place.[…]If, on the other hand, all the pigeons were doing was memorizing patterns of lights and not truly thinking about order at all, then both groups should find the new task equally
De facto, o desempenho dos pombos revelou que eles estavam a «pensar verdadeiramente sobre a ordem». O grupo com a luz colorida no lugar «correcto» necessitou de um número bastante menor de tentativas para aprender a nova tarefa do que o outro grupo.118 Assim se conclui que os pombos são capazes de abstrair conceitos gerais (neste caso, um conceito geral de ordem) a partir de situações particulares experienciadas e de os aplicar a novas situações.
10.3 – O Caso dos Mamíferos Inferiores
No que concerne aos mamíferos inferiores, Dawkins alude a um estudo em que, mais uma vez, foi utilizado um labirinto para avaliar o desempenho de ratos. A fim de apurar se estes pequenos roedores são capazes de pensar por meio de conceitos, o psicólogo Hank Davis (com a ajuda da sua aluna Sheree Bradford) arquitectou um labirinto bem mais elaborado do que aquele que vimos atrás.119 Este era composto por um corredor no qual desembocavam seis túneis perpendiculares cujas entradas se situavam todas do mesmo lado do corredor e estavam fechadas por uma portinhola que os animais podiam abrir. No fim de cada um dos túneis foi colocada uma recompensa em comida, mas cinco dos seis túneis estavam barrados a meio caminho por um pequeno bloqueio que impedia a passagem dos ratos. A tarefa destes consistia em atravessar o corredor desde uma ponta e encontrar o único túnel que lhes permitia aceder à recompensa. Os ratos foram separados em três grupos e o túnel «correcto» variava de grupo para grupo: para um dos grupos, era o terceiro túnel, para outro, o quarto túnel, e para o último grupo, o quinto túnel.
Todos os túneis eram amovíveis (podiam deslizar em ambos os sentidos ao longo da parede do corredor) e a sua posição ia sendo alterada de modo que as distâncias que separavam as suas entradas eram diferentes em cada nova tentativa. A certa altura, também o trajecto do corredor foi modificado: para poderem chegar ao
difficult (or easy) to learn since both were being confronted with new patterns.» M. S. Dawkins, Through Our Eyes Only?, p. 113.
118
Cf. M. S. Dawkins, Through Our Eyes Only?, pp. 113, 114. 119
Para a análise da autora acerca dessa experiência, cf. M. S. Dawkins, Through Our Eyes Only?, pp. 116-119.
«seu» túnel, os ratos passaram a ter de dobrar uma esquina de 90 graus, e o número de túneis posicionados antes e depois dessa esquina variava de tentativa para tentativa. Os próprios túneis, as portinholas, os bloqueios, e até a placa que servia de chão a toda a estrutura do labirinto, também eram constantemente reposicionados. Desta maneira, apenas a sequência dos bloqueios era mantida para cada grupo de ratos. Todavia, ainda assim, apesar de todas estas alterações, foi fácil para os ratos aprenderem correctamente qual dos seis túneis lhes dava acesso à recompensa. Que conclusões se podem tirar daqui?
Esta experiência comportamental excluiu qualquer hipótese dos ratos conseguirem detectar o túnel correcto através do cheiro, pois em todos os túneis havia comida, e tão-pouco os animais podiam ter seguido marcas de cheiro que eventualmente tivessem deixado perto ou dentro do túnel que os recompensou em tentativas anteriores porque os túneis, as portinholas e o chão eram reposicionados a cada tentativa. Estas modificações no labirinto também impediram os ratos de se orientarem mediante o reconhecimento de possíveis pistas visuais. Além disso, as portinholas fechadas não os deixavam ver se os túneis estavam ou não bloqueados, e eles não abriam outras portinholas a não ser a do túnel correcto para nele entrar. Mais ainda, em consequência do que foi atrás defendido acerca da cognição espacial destes animais, também se deve verificar que eles não podiam recorrer a memórias espaciais específicas, nem a um qualquer mapa cognitivo da totalidade do labirinto, porquanto eram constantemente alteradas as distâncias e as direcções.
Assim, após este aturado processo de eliminação, a explicação mais verosímil encontrada por Davis – e apoiada por Dawkins – foi a de que os ratos conseguiram aprender em qual dos seis túneis deviam entrar porque, de algum modo, eles foram capazes de contar os túneis. Mais propriamente, foram capazes de desenvolver conceitos elementares para identificar o lugar do túnel correcto numa sequência abstracta, conceitos esses que devem ser até certo ponto semelhantes aos nossos próprios conceitos de «primeiro», «segundo», «terceiro», e por aí fora. Porém, esta interpretação do comportamento dos ratos requer alguma cautela.
uma representação interna do seu mundo que foi além das suas características físicas óbvias e entrou numa abstracção de algo não muito diferente do nosso próprio conceito de número. Esta representação interna pôde ao menos capacitá-los para enfrentar com sucesso uma nova configuração – quando os túneis eram postos em novas posições – embora não tenhamos nenhuma evidência a partir disto que o conceito de «3» ou «4» dos ratos possa ser transportado para situações totalmente novas[…].120
Portanto, não se depreende deste estudo que os conceitos numéricos dos ratos possam vir a ser igualmente aplicados em variadíssimas outras situações (tal como sucede com os conceitos numéricos que nós, humanos, tão habilmente usamos) – mas mesmo que não possam, porquanto ultrapassaram o contexto concreto de cada disposição exacta do labirinto, não devemos deixar de reconhecer que tais conceitos revelaram algum grau, se bem que mínimo, de aplicação geral.
10.4 – O Caso dos Mamíferos Superiores
Resta-nos apreciar o comportamento dos mamíferos superiores. Não considero, ao contrário do que diz Langer, que a conceptualização seja inter-dependente da linguagem simbólica121 – comparativamente, a primeira parece representar uma função mental bem mais simples, enquanto a segunda supõe já a codificação de conceitos em símbolos e a descodificação de símbolos em conceitos. Não obstante, admito que, para
120
«They certainly appeared to have an internal representation of their world that went beyond its obvious physical characteristics and into an abstraction of something not so very different from our own concept of number. This internal representation could at least enable them to cope successfully with a novel configuration – when the tunnels were put into new positions – even though we have no evidence from this that the rat’s concept of “3” or “4” could carry over into totally new situations». M. S. Dawkins, Through Our Eyes Only?, pp. 118, 119.
121
Após Descartes, muita tinta foi derramada em defesa da ideia de que a ausência de linguagem nos animais prova a sua incapacidade de pensar mediante conceitos. O filósofo Bernard Rollin aventura-se mesmo a sugerir que, se existe alguma coisa como uma ortodoxia filosófica no século vinte, será a que acolhe tal ideia. Rollin escreve: «[T]radition has assumed that since animals lack language, they must lack concepts, and are therefore trapped forever in the momentary.[…]I would venture to guess that if there is anything like a philosophical orthodoxy in the twentieth century, that is it.» B. Rollin, «Thought without Language», in Tom Regan e Peter Singer (eds.), Animal Rights and Human Obligations, 2ª edição, Englewood Cliffs, New Jersey, Prentice-Hall, 1989, pp. 43, 44.
se obter as melhores provas comportamentais da posse de pensamento conceptual, há que recorrer ao estudo de sujeitos (humanos ou não-humanos, tanto faz) os quais sejam capazes de utilizar a nossa linguagem simbólica.122
Wise dá-nos a conhecer o caso de uma chimpanzé, de nome Ai, que na opinião científica de muitos peritos é claramente capaz de formar categorias conceptuais e utilizar símbolos. Ela sabe que o mesmo símbolo pode designar classes de coisas semelhantes. Num complicado exercício, Ai chegou a cruzar quinze símbolos referentes a cinco diferentes tipos de objecto, a cinco diferentes cores e aos números de um a cinco, aplicando-os correctamente na caracterização de séries aleatórias.123 Esta parece-me uma prova comportamental indubitável de que os chimpanzés conseguem formar conceitos, e que o fazem com relativa sofisticação. É que a dificuldade do exercício (símbolo↔objecto/símbolo↔cor/símbolo↔número) parece exigir um tal grau de abstracção que a utilização correcta desses símbolos implica necessariamente um processo de conceptualização. Não sou eu quem o diz, mas a própria Langer.
Como já vimos, de acordo com a definição da autora, todo o conceito apresenta um carácter geral na medida em que permite sintetizar aquilo que há de comum entre as diferentes concepções específicas adequadas ao objecto desse conceito. Por exemplo, no caso de se tratar de uma cor, a miríade de concepções resultantes da soma das várias tonalidades particulares é categorizada num único «padrão essencial» – num único conceito de cor composto pela semelhança formal entre todas essas tonalidades. Porque a função dos símbolos, segundo Langer, consiste em veicular estes padrões essenciais, cada símbolo aplica-se ao conjunto dos objectos que partilham os elementos relevantes (no caso de uma cor, aos objectos que partilham as tonalidades
122
Poderão existir, de facto, outras linguagens para além da nossa. Assevera Griffin, certos comportamentos podem ser interpretados como sendo expressões de «linguagem animal». Vejam-se os exemplos dos signature whistles dos golfinhos (os quais parecem denotar o «nome» de cada indivíduo) ou das vocalizações emitidas pelos macacos Japoneses, pelos macacos rhesus, e pelos macacos-verdes em estrita adequação a determinadas interacções sociais ou a situações de perigo. Cf. D. Griffin, Animal Minds, pp. 155-162, 213.
123
Cf. S. Wise, Rattling The Cage. Toward Legal Rights for Animals, Cambridge/Massachusetts, Perseus Publishing, 2000, pp. 226, 227; Tetsuro Matsuzawa, «Chimpanzee intelligence in nature and in captivity; isomorphism of symbol use», in William MacGrew et al. (eds.), Great Ape Societies, Cambridge, Cambridge University Press, 1996, pp. 205ss.
respectivas).124 Assim, é-nos possível descobrir se Ai produz pensamento conceptual respondendo à questão: Consegue ela utilizar símbolos, aplicando-os correctamente aos respectivos objectivos? O exercício em causa demonstrou, para além de qualquer dúvida, que consegue.