No jornal A Federação de 15 de agosto de 1920, o ex-governador do Rio Grande do Sul Carlos Barbosa publicou uma Carta Aberta a Wenceslau Escobar na qual objetivava contestar alguns fatos. Iniciou o artigo salientando que desejava conhecer os motivos que “determinaram a celeuma, não só no seio do Partido Republicano, como entre muitos federalistas com a publicação do vosso folheto”.397
Por isso, procurou a obra em livrarias de Porto Alegre e de Pelotas e não encontrou, “a edição se exaurira, o que demonstra, senão o mérito do papelucho, pelo menos o êxito com que embaçou a curiosidade pública”. A partir dessa afirmativa a crítica ao livro foi iniciada. Salientou que como subsídio para o futuro esclarecimento de um período da história rio-grandense o livro era:
(...) lamentavelmente inepto, evidentemente parcial e injusto, morbidamente agressivo, e, enfim, um sindroma [sic] do ódio que a intolerante parcialidade do historiador não pode encobrir.
Por esses motivos, teria causado “uma justa reação” por parte de vários “republicanos há muito consagrados pelos seus serviços ao Rio Grande e à República, e até protestos de alguns federalistas que não aceitaram as pretensas verdades históricas do Dr. Escobar”.
Carlos Barbosa, então, contestou dois trechos que diziam respeito diretamente a sua pessoa, eram atos violentos cometidos logo depois que Júlio de Castilhos reassumiu o governo do estado e provocou a queda do “governicho”. O primeiro consta na página 65 e diz o seguinte:
Em Cacimbinhas mataram um filho do major Velleda e em Jaguarão Cirilo Ribeiro, vulgo “Serengo”, sendo, para este fim, tirado da prisão com assentimento da própria autoridade que tinha o dever de guardá- lo, e, segundo versões da época, por ordem do chefe local, dr. Carlos Barbosa. 398
397 GONÇALVES, Carlos Barbosa. Carta aberta Sr. dr. Wenceslau Escobar. A Federação. Porto Alegre, 13 ago.
1920, p. 2. MCSHJC.
O segundo trecho rebatido foi a referência ao episódio de Jaguarão, recentemente narrado. Wenceslau Escobar elaborou uma lista vasta de assassinatos que teoricamente atestavam a “barbaridade do governo republicano dos drs. Vitorino Monteiro e Fernando Abbott”. Nessa lista novamente o nome de Carlos Barbosa é referido: “Jaguarão – Cirilo Ribeiro, vulgo Serengo, ex-subdelegado de polícia, tirado da prisão por ordem do dr. Carlos Barbosa para ser assassinado”.399
Para o ofendido, essas afirmações eram uma infâmia e refletiam uma “avidez de acusar o seu adversário político” porque o mesmo tipo de acusação já, em 1904, havia sido atribuída ao dr. Carlos Barbosa e este o refutou judicialmente. O dito folheto chamava-se “Ferro Candente” e era de autoria de um magistrado do Rio Grande do Sul. A ação movida por Carlos Barbosa teria recebido grande notoriedade e, assim, o Dr. Wenceslau Escobar não poderia desconhecer essa ação judicial, até porque nesse período ainda advogava em Porto Alegre.
Dessa forma, ao reeditar calúnias que já haviam sido contestadas, Wenceslau Escobar demonstra que tinha o objetivo de afrontar o inimigo político, não importando se o que afirmava era verídico ou não. O que interessava era evidenciar que grande parte daqueles que participaram da implantação do projeto político defendido por Júlio de Castilhos de alguma forma haviam praticado violências contra o grupo opositor e, assim, contribuído para desencadear a revolução.
No livro “Réplica a todos os contraditores de meus Apontamentos para a História
da Revolução Rio-grandense de 1893”, escrito também em 1920, mas, publicado em 1921, a
Carta Aberta de Carlos Barbosa foi uma das tantas críticas que Wenceslau Escobar rebateu. Em resposta, afirmou que Carlos Barbosa “sempre foi um partidário extremado, sendo-me, por isso, indiferente seu juízo quanto à parcialidade que me atribui”.400
Diferente do que declarou no livro, Wenceslau Escobar salientou que “tendo sido grande número de civis e militares republicanos que tomaram parte na revolução, relativamente poucos são os que se destacam pela narração de seus maus feitos em meus ‘Apontamentos’”. Além disso, defendeu sua posição de historiador salientando que quem “escreve Apontamentos para a história de uma revolução recolhe fatos que se relacionam
399 ESCOBAR, Op. cit., p. 88.
400 ESCOBAR, Wenceslau. Réplica a todos os contraditores de meus Apontamentos para a História da
direta ou indiretamente com esse acontecimento, e que ao tempo em que tiveram larga publicidade não foram contestados”.401
Com essa alegação também estava desconsiderando o processo que Carlos Barbosa teria movido contra quem, em 1904, já havia supostamente o caluniado. Pois, alegou que:
O assassinato de Cirilo Serengo, em Jaguarão, narrado agora em meus “Apontamentos”, foi largamente noticiado por todos os jornais da oposição de 1892, atribuindo alguns destes a autoria desse crime ao doutor. Por que não procedeu contra esses jornais por crime de calúnia? 402
Pôs termo à réplica, afirmando que teve “uma leve notícia desse processo” sem, no entanto, procurar saber “qual a natureza da calúnia”. Nesse sentido, bastava que Carlos Barbosa chamasse sua atenção “para a sentença definitiva desse processo” e pedisse, “baseado nesse documento, a retificação do que consta” no livro. Apesar de demonstrar atenção à queixa feita por Carlos Barbosa, Wenceslau Escobar não perdeu a oportunidade de novamente agredir os republicanos garantindo que:
Nem sempre se pode provar a verdade perante os tribunais; o historiador, porém, tem obrigação de respeitar seus veredictos, embora continue no direito de pensar que os chefes locais têm responsabilidade moral pelos atentados que sancionam com seu silêncio. Assim como as versões da época podem ser o cínico
pretexto para a audácia dos acusadores aleivosos, também pode
uma sentença absolutória [sic] ser o cínico pretexto para a audácia de criminosos impenitentes proclamarem a sua inocência.403