O primeiro editorial sobre o livro “Apontamentos” foi publicado com a assinatura de Décio Coimbra. Nesse artigo, Wenceslau Escobar foi acusado de estar “envenenado pelo ódio” e que ninguém:
(...) poderia esperar do Sr. Wenceslau Escobar uma obra de imparcialidade e justiça históricas, conhecidos os seus sentimentos pessoais (...) a tudo quanto diz respeito ao Partido Republicano do Rio Grande, o seu espírito sabidamente apaixonado até a cegueira pela causa federalista.458
Nessa perspectiva, o livro era uma obra de “partidarismo estreito” e que o autor ainda em 1920 conservava “a mesma mentalidade dos homens de 93 (...)”. No dia seguinte, a crítica prosseguiu. Desta vez, provavelmente, a pena utilizada foi a de Lindolfo Collor, editor do jornal. Nesse artigo, salientou que, ao autor, faltou usar “métodos de crítica, sistematização de juízos, normas seguras de análise, deduções tiradas rigorosa e imparcialmente de fatos comprovados” e que, dessa forma, Wenceslau Escobar não poderia considerar ter feito um trabalho de historiador.459
Segundo esse mesmo editorial, como faltaram todos estes quesitos, o livro “Apontamentos” nada mais era do que “um amontoado de informações tendenciosas, procurando provar as “justas razões” que produziram o movimento revolucionário e as “atrocidades” praticadas pelos republicanos, defensores da legalidade”.460
Em artigo publicado no dia 18 de março de 1920, o articulista afirmou que faltou ao autor elementos fundamentais como sólida cultura intelectual, serenidade e isenção de ânimo para que pudesse então escrever a história daquela revolução.461 No mais, o autor do editorial procurou desqualificar intelectualmente Wenceslau Escobar, acusando-o de praticar discordâncias gramaticais e por isso o autor de “Apontamentos” deveria aprender “depois de velho, o que não aprendeu em menino (...) isto é (...) a escrever”.
Nos editoriais dos dias 18 e 26 de março, o “reacionarismo de Silveira Martins e dos seus asseclas” foi apontado como o causador da revolução de 1893. Para comprovar seu pensamento, o articulista de A Federação citou a passagem em que Wenceslau Escobar
458 COIMBRA, Décio. Um livro tendencioso. A Federação. Porto Alegre, 15 mar. 1920, p.1. Editorial. 459 Os “Apontamentos” do Sr. Escobar. A Federação. Porto Alegre, 16 mar. 1920, p.1. Editorial. 460 Os “Apontamentos” do Sr. Escobar. A Federação. Idem.
criticou a postura de Gaspar Martins quando em reunião com Floriano Peixoto, momento esse já aludido.
Ao trazer à tona essa questão, entende-se que o editor tentou causar certo desconforto entre o chefe do Partido Federalista e seus correligionários como pode ser percebido pela forma como colocou a crítica de Wenceslau Escobar e em seguida fez a interpretação do trecho. Por exemplo, o autor de “Apontamentos” disse: “A nosso ver, o excesso de amor próprio fê-lo errar, talvez de que na suposição de que para ele [Gaspar Martins] o poder não fosse o poder”. Segue a interpretação:
Saibam, pois, todos os federalistas: Quando Gaspar Martins fez, na presença de Floriano, garbo das suas convicções parlamentaristas, não praticou ato digno de louvores. Pelo contrário, agiu impelido pelo seu “amor-próprio” (...) agiu em suma inepta e impoliticamente. Quem o afirma não somos nós. É o Sr. Wenceslau Escobar historiador da revolução e chefe do partido.462
Na sequência de seu raciocínio o articulista enfatizou que outro historiador da revolução de 1893, Germano Hasslocher, teria chegado à conclusão que de “todas as desgraças que tem atormentado o Brasil desde o dia 15 de novembro de 89, incontestavelmente a maior foi a volta do Sr. Silveira Martins à Pátria”, “opinião valiosa e autorizada” que, com a escrita do federalista Wenceslau Escobar, teria ganhado veracidade.463
Em réplica aos editoriais publicados por esta folha republicana, Wenceslau Escobar primeiramente tratou das causas da revolução de 1893. Salientou que “as revoluções são, ordinariamente, efeitos de causas complexas, dentre as quais se destacam os maus governos”. De acordo com Wenceslau Escobar, se os correligionários do articulista não tivessem agido com intolerância, violência e rancor, depois da queda do “governicho”, certamente a revolução não teria eclodido. Assim, destacou que o causante do furor reacionário federalista “foi o colapso da lei para a prática de todas as arbitrariedades contra a oposição (...)”.464
Na réplica feita ao editor de A Federação, também se visualiza a questão do exclusivismo partidário, o qual é notadamente criticado por Wenceslau Escobar. Segundo ele, os “arautos da ideia triunfante deviam, como aconselhavam todas as razões de ordem política, procurar fraternizar os membros da família rio-grandense”. E que apesar de os liberais não
462 Escobar versus Gaspar. A Federação. Porto Alegre, 26 mar. 1920, p.1. Editorial. 463 Escobar versus Gaspar. A Federação. Idem.
terem entregue o poder com alegria “aos apóstolos da nova fé; muito longe estavam, entretanto, de supor serem acintosamente excluídos de todas as posições e sistematicamente perseguidos”.465
Além disso, repetiu que não foram narradas versões tendenciosas contadas por seus companheiros de partido, mas sim “fatos comprovados por documentos oficiais ou consumados por notória publicidade de largos anos”. Também enfatizou que todas “as tropelias praticadas contra os federalistas eram encampadas pelo governo com aplausos dos republicanos”.466
Quanto à repercussão que seu livro suscitou afirmou que “sabia, perfeitamente, que não teria aplausos e louvores dos adversários, porque não se pode dizer a verdade impunemente (...). Os que, nos tempos por vir, nos lerem é que melhor poderão julgar do grau de falta de isenção que mutuamente nos atribuímos”.467
Diante do que foi colocado, entende-se que as contradições ao livro de Wenceslau Escobar estiveram atreladas ao objetivo central exposto na publicação de “Apontamentos
para a História da Revolução Rio-grandense de 1893”, qual seja, dar subsídios para que as
gerações futuras pudessem julgar qual dos dois partidos políticos havia provocado a revolução de 1893.
Com tal pretensão, Wenceslau Escobar criou uma narrativa cuja característica principal foi evidenciar crimes e violências, de toda ordem, que teriam sido praticadas pelos republicanos, como bem exemplifica os casos narrados acima. Nesse sentido, apesar de ter recriminado alguns companheiros federalistas, o livro foi pautado por uma evidente crítica aos seus opositores políticos, que na época da eclosão do movimento revolucionário eram comandados por Júlio de Castilhos.
Assim, diante da condição de culpados pela revolução, muitos republicanos vieram a público contestar a versão que Wenceslau Escobar tentou passar para a posteridade. Se for feita uma leitura atenta, se perceberá que essas manifestações de repúdio, apesar de na maioria das vezes tratarem de casos específicos, em certo momento são uníssonas em afirmar que o texto construído pelo autor era produto de ódio contra aqueles que não comungavam das mesmas ideias que ele e de parcialidade política.
Nessa perspectiva, entende-se que o autor arquitetou sua narrativa de modo a censurar a política castilhista, atribuindo culpa pelo desencadeamento da luta armada de 1893.
465 ESCOBAR, Op. cit., p. 125-126. 466 ESCOBAR, Op. cit., p. 112. 467 ESCOBAR, Op. cit., p. 117.
Contudo, acredita-se que seu propósito não era tratar exclusivamente dessa violência, mas, sim, reprovar toda a tradição castilhista-borgista.
Não se pode esquecer que o livro foi publicado em 1920, três décadas depois de ter iniciado no Rio Grande do Sul a implantação de um novo projeto político, o qual defendia que a sociedade gaúcha deveria ser governada sob a orientação de uma nova base filosófica. Como já foi explicitado, Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros entendiam princípios fundamentais, como federalismo, representação, função dos poderes e finalidade de governo, orientados segundo o pensamento de Augusto Comte.
Dessa forma, elaboraram e puseram em ação um modelo de governo que de maneira geral caracterizou-se pelo exclusivismo e autoritarismo partidário onde aqueles que não eram adeptos do Partido Republicano Rio-Grandense não tinham como fazer parte da administração pública estadual, restando apenas o ostracismo político, caso de Wenceslau Escobar.
Mais importante que elaborar um novo projeto político era fornecer subsídios para que efetivamente fosse aplicado. Assim, foi necessário torná-lo legal transformando essa nova filosofia de governo em um:
(...) conjunto escalonado de leis, estruturado em função de um conceito de poder público que diferencia os campos de ação dos setores público e privado, e a conformidade de todos os atos praticados não apenas pelos governados mas, também, pelos próprios governantes.468
Daí o surgimento da Constituição Estadual de 14 de julho de 1891.
Esse instrumento garantidor da política castilhista-borgista, por vários momentos, foi contestado pelos grupos que ficaram alijados do poder. Lembrem-se casos marcantes como o período do “governicho”, a revolução federalista e, em 1923, a revolução assisista em que em todos eles a reforma da constituição era um pré-requisito para o restabelecimento da ordem no Rio Grande do Sul.
Essa questão igualmente foi referida por Wenceslau Escobar na obra sobre a revolução federalista. No prefácio, chamou a atenção para que um dos principais acontecimentos que justificou “nossa atitude armada, aí está ainda vivida, triunfante – a
Constituição rio-grandense – que há 28 anos nos reduziu ao papel de cristãos de uma Turquia comtista”.469
Como se pode notar desta afirmação, o “ranço” ao autoritarismo e exclusivismo partidário perpetuado pelo governo de Borges de Medeiros ainda era muito presente em 1920. Nesse sentido, a publicação do livro foi o meio que Wenceslau Escobar encontrou para agredir uma tradição política que, no seu entender, foi causadora de uma guerra civil e que, mesmo assim, insistia em manter no Rio Grande do Sul um projeto exclusivista e autoritário.
Assim, conclui-se que a obra titulada Apontamentos para a História da Revolução
Rio-grandense de 1893 mais que criticar uma época passada teve o propósito de acoimar um
tempo presente cujas características permaneciam as mesmas, ou seja, um governo autoritário e exclusivo daqueles que seguiam o projeto castilhista-borgista sem contestações.