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3. ANALYSE

3.1 A RKADIA : D ET POLARE LANDSKAPET

3.1.5 Polarlivets ubehag

Diferentemente da antítese apresentada por Sanches Neto em relação a Cemitério de elefantes – mas dialogando também com esta16 –, a distinção por nós apontada não diz respeito à variação de ambientações geográficas. Refere-se, sim, à dupla natureza – violência e paralisia – das ações das personagens dentro do jogo das narrativas, questão que transpassa toda a obra. Em se tratando de um volume de contos, ou seja, de uma compilação de histórias que, não necessariamente, se imbricam umas nas outras, a definição desse ponto central, sobre o qual giram as narrativas do livro, pode ser vista como desnecessária. A aparente independência natural dos contos os caracterizaria como uma série de universos estanques e apartados. No entanto, essa leitura que estamos desenvolvendo, que tem por objetivo uma compreensão contextualizada dos contos de Trevisan, possibilita-nos perceber que, em se tratando desse autor, a correlação dos textos – se isolados ou contextualizados numa obra – certamente altera o resultado.

Podemos começar nossa explanação a partir de um dado básico e crucial para o entendimento dessa e de qualquer obra: seu título. Para compreendermos, então, o que há de mundo em violência e o que há de mundo paralítico em Cemitério de elefantes, cabe a nós a tarefa de decodificar, imediatamente, essa metáfora basilar, esse axioma primeiro que define e engendra todas as narrativas do livro sob um mesmo signo. O interessante é que, como é comum acontecer em livros de contos, o título da obra é também o título de uma das peças que fazem parte de seu arcabouço. No entanto, ao que nos parece, a leitura desse título deverá ser sempre polissêmica, sendo aplicada – mesmo que em óbvio diálogo direto – de formas diferentes quando se refere ao todo e à parte. Sobre a metáfora-título do conto “Cemitério de elefantes”, já foi dito que:

O parentesco com os elefantes estabelece uma dupla significação para os bêbados: são a imagem viva do peso, da lentidão, da falta de jeito e, ao mesmo tempo, têm a dignidade de aceitar resignadamente um destino inelutável (SANCHES NETO, 1996, p. 20).

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Esse diálogo entre as bifurcações percebidas por Sanches Neto e por nós será retomado no Capítulo 3 da presente dissertação, quando, então, nos debruçaremos mais detidamente nas implicações dos

Para melhor entender a citação, façamos um resumo da história que é descrita no referido texto.

“Cemitério de elefantes” é, talvez, o mais bonito e poético conto de toda a homônima coletânea. Construído através de uma profusão de incontáveis metáforas e imagens, esse é um texto em que a estilística discursiva, os recursos artísticos da palavra, manifestam-se de uma maneira tão fortemente marcada que quase acabam por subjugar o teor narrativo dessa história. A peça relata um dia qualquer – ou qualquer e todos os dias, numa imprecisa cronologia narrativa – na vida de um grupo de bêbados que vive sob a sombra de um velho ingazeiro, à margem do rio Belém, nos fundos de um mercado de peixes em Curitiba. O narrador pinta as cenas cotidianas das vidas desses sujeitos como quem constrói os versos de um poema. Os bêbados ali retratados tomam como premissa básica da sua existência a pura e concreta abnegação. Nada fazem. Sobrevivem de peixes doados – de mau gosto – por pescadores, de alguns caranguejos que caçam no mangue – somente quando a fome se faz extrema – e dos ingás que caem do pé, comodamente, sobre suas cabeças. Como uma entidade, afirma o narrador, Curitiba provê as necessidades desses seres marginais, as quais são, basicamente, a cachaça e o pirão, ou seja, o vício e o alimento. Num conto em que quase nada acontece, Trevisan prima pela construção de um quadro que amalgame, num só movimento, duas imagens aparentemente distintas: o bêbado e o elefante. Constrói- se, desse modo, um símbolo, um signo unificador que abrange e significa essas duas criaturas, tornando-as sinonímias, irmanando-as, imbricando suas significações como se fizessem parte da definição de um mesmo objeto.

Desse modo, chegamos ao que se está afirmando na citação de Sanches Neto. Novamente, vemos a dubiedade e a bifurcação agindo nas representações trevisanianas da realidade: os homens, ao serem postos em paralelo com a imagem dos elefantes, tornam-se seres, a um só tempo, lerdos e dignos, abnegados em relação à sua existência, mas honradamente resignados ao seu final destino. O termo “cemitério de elefantes”, empregado então como título, estaria se referindo, portanto, a esse lugar onde vivem esses bêbados-elefantes – e também aos próprios sujeitos que, assim como os referidos animais, afastam-se do grupo, da manada, quando pressentem a morte, transformando as suas próprias carcaças em seus túmulos, em seus cemitérios ambulantes. Pode-se dizer, então, que essa metáfora traz, em sua dupla significação, as imagens do peso, da

imobilidade – e, por isso, da abnegação – e da resignação, da dignidade de quem aceita o duro destino sem resistências ou lamentos.

No entanto, essa mesma metáfora, quando na posição de título do livro, deve ser lida de uma forma mais abrangente, e tomá-la como sendo a mesma imagem defendida pelo conto homônimo seria estrangular suas possibilidades polissêmicas. Desse modo, voltamos à nossa afirmação primeira aqui, que será tomada agora em relação à metáfora-título do livro: “cemitério de elefantes” como sendo uma expressão que nos fala da tensão intrínseca existente entre paralisia e violência.

Isolando os termos que constroem a expressão, temos, de um lado, “cemitério” e, de outro, “elefantes”, sendo ambos conectados pela preposição “de”. Notemos que, separadamente, as duas partes essenciais da expressão já possuem cargas de significação bastante vastas17. O termo “cemitério” designa, comumente, o recinto onde se enterram e guardam os mortos de uma sociedade; uma terra considerada por muitos como sendo sagrada, por ser o último lar dos ancestrais queridos, mas tratada por tantos outros como maldita, lugar de bruxarias, lar dos espíritos perdidos e das maldições assombradas. É utilizado também, de maneira figurativa, para referir-se ao lugar onde se depositam objetos já sem uso ou imprestáveis, como no caso de “cemitério de automóveis”, “de aviões” etc. Excluindo-se as leituras julgadoras – se sagrada ou maldita – e levando-se em consideração somente o ponto central que conecta todas as definições desse termo, o que nos resta é a preponderante ideia de que “cemitério” sempre estará se referindo àquilo que, em não servindo mais aos seus desígnios originais, atrofiou-se, paralisou-se, tornou-se inútil e imprestável pelo desuso.

Em contrapartida, quando nos voltamos ao outro termo que completa o binômio do título, descobrimos uma gama de significações muito mais vivazes e vibrantes. “Elefantes” são animais grandiosos, seres vivos imponentes, tanto em seu porte físico, ocupando o posto de maior mamífero terrestre, quanto nas suas representações simbólicas, posto que em alguns países, como Índia, Tailândia e Birmânia, são considerados criaturas sagradas. Colossais, resistentes e possuidores de incisivas presas, integram o grupo do qual fazem partes os animais africanos mais difíceis de serem caçados. Outro dado interessante sobre esses seres é que, embora se tenha conhecimento

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As definições relativas aos termos que compõe a expressão “cemitério de elefantes” foram retiradas do

senso comum, mas também, em partes, do Dicionário Aurélio Eletrônico – Século XXI e da Enciclopédia Barsa.

de que um grande número deles foi domesticado pelos homens, a maior parte desse montante é formada pelas fêmeas da espécie, por serem estas detentoras de uma personalidade mais aprazível e submissa. Os machos, por sua vez, são normalmente mais violentos, selvagens e, por isso mesmo, muito mais difíceis de serem domados. Quando acontece de serem subjugados, tornam-se, normalmente, animais de guerra. No entanto, ao mesmo passo que os elefantes possuem essa áurea de potente brutalidade, também são vistos, folcloricamente, como grandes covardes, seres que diante da ameaça de um pequeno rato sucumbem, retraem-se, apequenam-se. Desconsiderando as fronteiras entre os dados reais e as representações fictícias, tomando então essas duas fontes de referência como sendo o cerne definidor de uma simbologia do que é “o elefante”, chegamos então a um signo que possui uma imagem dupla: o animal que ora é pacato, lerdo e covarde e ora é violento, revolto e belicoso; um ser representado, a um só passo, pela docilidade e pela brutalidade.

Dessa forma, se tomados como signos estanques e não relacionados, vemos que “cemitério” e “elefantes” colocam-se, de certo modo, em dois pratos opostos da balança: daquele lado tudo aquilo que é morto e, deste, tudo aquilo que é vida; ali, a paralisia, aqui, a violência. No entanto, é importante lembrar que esses termos não podem ser lidos de forma isolada; existe um elemento que os conecta e os põe sob uma mesma redoma de significações, uma partícula textual mínima que transforma esses dois termos aparentemente opositivos numa só complexa expressão: a preposição “de”. Essa espécie de corpúsculo textual, de representação gráfica tão mirrada, tem uma importância crucial no que concerne à leitura e à interpretação da metáfora que ora analisamos. Não estamos falando simplesmente sobre cemitérios e elefantes, mas sim acerca de cemitérios de elefantes. Sendo assim, o que vemos estampado simbolicamente na capa do livro não é simplesmente a alusão ao mundo dominado pela paralisia ou ao outro, repleto pela violência; vemos sim esses dois mundos num confronto duro e contrastante, dialogando suas simbologias particulares dentro de um amalgama bifronte, quase contraditório. “Cemitério de elefantes” estaria nos remontando, então, a um universo narrativo-ficcional em que aquilo que é grandioso também se apequena, em que até os lerdos e parvos possuem seu quinhão de dignidade, em que imperam os covardes e a coragem consiste, geralmente, em aguentar calado, paralítico em suas possibilidades nulas. A violência dos seres que se sabem – ou que pelo menos se sentem

– esquifes fúnebres de suas existências; o cemitério do homem-elefante, “só, condenado a si mesmo, fora do mundo” (TREVISAN, 2009, p. 39).

Abrindo as páginas do livro, então, o que vemos é um desfile de personagens, lugares, metáforas e histórias que, irmanando-se, fazem jus a esse frontispício primeiro, a esse dito que está estampado e que simboliza a realidade construída ali naquele volume de contos. A metáfora que nomeia o livro também o sintetiza. Focando geralmente estruturas familiares falidas, Cemitério de elefantes nos apresenta uma série de viúvos alcoólatras, maridos traídos, esposas violentadas, velhos rancorosos, deficientes mentais excluídos, obesos mórbidos, amantes depressivos, casais indiferentes, pais e filhos distantes, vagabundos inveterados, bêbados incuráveis, crianças oprimidas, todos entregues ao cruel destino que é viver a vida sob o signo da morte. Vários desses tipos se repetem, alternando suas aparições ora em um, ora em outro momento do livro, o que é uma característica importante na constituição dessa obra. As próprias descrições, a despeito da individualidade acarretada pelo uso de diferentes nomes, repetem-se, reiteram-se de um texto para o outro, o que acaba por aproximar e assemelhar vários personagens que, em sua diferença, têm algo de essencialmente similar. Irmanadas, essa criaturas definem-se – e se igualam – a partir da natureza de suas ações, que podem ser, como já dissemos, violentas, paralíticas ou, mais ainda, um misto dessas duas contraditórias naturezas: uma angústia contida, uma revolta estrangulada. Cada conto é quase como uma lápide, um epitáfio fincado no cemitério existencial que é essa obra.

Pode-se dizer, então, que já há em Cemitério de elefantes uma série de elementos que depois caracterizariam toda a obra de Dalton Trevisan. Questões como a noção de uma reiteração de elementos, estéticos e narrativos, em prol da criação de um universo que se pretende unidade heterogênea, caótica, complexa; a visão bifurcada da realidade, que busca estabelecer a representação de um mundo em conflito, em tensão; a constituição de uma literatura do homem em ruínas, dos seres em degradação, a partir da caracterização de vidas que fomentam o império do desentendimento humano; enfim, todos esses elementos que viemos discutindo até agora – e os tantos outros que daqui para frente discutiremos – já fazem parte do contexto interno de composição desse livro. Desse modo, acreditamos que, assim como um título pode conter em sua densidade a síntese de uma obra, através de um processo metonímico, ler Cemitério de elefantes é também se aproximar e se aprimorar na compreensão do universo literário trevisaniano.