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3. ANALYSE

3.1 A RKADIA : D ET POLARE LANDSKAPET

3.1.3 Frodighet og samspill mellom arter

Continuando com a explanação sobre o título que ora atribuímos à obra de Dalton Trevisan – O império do desentendimento humano –, iremos agora nos debruçar sobre o segundo ponto, anteriormente sinalizado, do eixo básico da literatura desse autor: a construção estética de sua linguagem.

Quando nos aproximamos da obra do vampiro curitibano, percebemos o quão importante é, para esse autor, o trabalho empenhado na elaboração do aspecto sintático do texto, da construção de cada frase – passando pela escolha de cada palavra – à demarcação de cada vírgula, travessão, ponto e parágrafo: um trabalho quase poético na estilística textual. Com um pouco mais de estudo e leitura crítica, percebemos também que essa obsessão pelo meticuloso labor de estilo se faz não de maneira arbitrária ou simplesmente ornamental, mas sim com a consciência de que já na sintaxe existe a raiz de onde germinará a significação semântica do texto. Portanto, estudar a constituição linguística da ficção trevisaniana é também compreender, e melhor caracterizar, a constituição da atmosfera dessa ficção – o que, consequentemente, acaba por conectar as duas instâncias fundamentais da estética do vampiro.

Para começarmos a comentar essa construção estilística, partamos da seguinte analogia, desenvolvida por Berta Waldman (1989, p. 15) quando analisava o discurso segundo a estrutura epistolar do romance Drácula, de Bram Stoker:

Nenhum documento é da lavra de Drácula, e se todos falam dele, ele não fala. Um possível análogo dessa situação é o jogo em que existem catorze peças num espaço projetado para quinze, e a falta de uma peça, o vazio, é que permite a mobilidade dos catorze elementos das mais diferentes maneiras. Ora, o jogo da mobilidade em torno do vazio é também o jogo da linguagem, pois a própria palavra não é presença feita de ausência?

Waldman (1989) percebe que o silêncio do Drácula, ou seu discurso da ausência, digamos assim, é o elemento que possibilita o desenvolvimento da narrativa de Bram

Stoker, dando espaço para o trânsito das outras vozes, que dizem, agem e vivem em função dessa personagem central silenciosa, portanto, em função dessa ausência, desse vazio. Em outro momento, já afirmamos que o silêncio que caracteriza o Conde, diferentemente do que se possa esperar, é um silêncio ativo, impositivo, que impregna e transpassa todos os outros discursos – em não sendo fixo, existe em todos os lugares simultaneamente. Essa ideia só complementa ainda mais o que está dito na citação acima. Conclui-se, então, que não somente o discurso, mas também a narrativa do Drácula se constrói graças a essa “presença feita de ausência”.

Trazendo essa discussão e aplicando-a ao campo literário de Dalton Trevisan, a analogia do jogo teria de ficar um pouco diferente: em vez de quatorze peças, diríamos que Trevisan trabalha com sete ou oito elementos e, substituindo o tabuleiro com quinze espaços, imaginaríamos uma mesa com buracos a perder de vista. Ou seja, se no vampiro de Stoker o jogo da linguagem e da narrativa do vazio se faz de maneira comedida e estruturada, em um bloco mais coeso de elementos, na estética do vampiro paranaense a proximidade entre as peças se alarga, tornando a coesão e a coerência internas um jogo radicalmente mais lacunar do que se viu em seu antecessor vampiresco. Quebrando a metáfora, o que queremos dizer é que, se no clássico europeu o silêncio e o vazio se manifestavam no nível discursivo, ou seja, no discurso ausente da personagem, quando passamos ao texto de Trevisan esse silêncio se manifesta no nível sintático e frasal da escrita, impulsionando todos os níveis textuais, desde a palavra à frase, ao texto, passando também ao nível dos discursos. É nesse sentido que Sanches Neto (1996, p. 46) afirma que “há [...] uma língua portuguesa segundo Trevisan [...]” e que nós afirmamos que existe uma estética literária trevisaniana.

Para não nos perdermos em longos exemplos e análises14, basta apenas que comentemos aqui alguns dos artifícios que fomentam essa “Língua Trevisan”.

Quando falamos aqui em silêncio, vazio, ausência no nível discursivo de um texto, pode ser que a imagem do Drácula se repita, como se as personagens e os narradores do paranaense fossem simplesmente seres que nada dizem, mas através dos quais a narrativa se desenrola. Apesar de essa ideia não estar completamente equivocada, o caso aqui não é tão simples. Estamos falando também – e talvez de forma mais precisa – de uma série de movimentos textuais linguísticos e estilísticos que se

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Essa questão será mais bem explanada, com exemplos, no último tópico do presente capítulo e nos capítulos 2 e 3 da presente dissertação.

fundamentam, de uma forma ou de outra, no silêncio. A elipse, por exemplo, figura de linguagem que se pauta na subtração ou omissão deliberada de palavras, é um recurso bastante utilizado – chegando mesmo a funcionar como um embrião, uma fundação de onde tudo brota – na construção do texto trevisaniano. Podando o texto, Trevisan chega a tornar elípticos elementos que seriam fundamentais para a lógica sintagmática da frase, construindo, assim, um discurso que se apoia fortemente na fragmentação e na ausência, emulando, portanto, o silêncio de que tanto falamos. Essa característica atribui à literatura desse autor um caráter marcadamente lacunar, de uma linguagem que se constrói primordialmente pelo movimento de subtração, de jogo com o vazio, com o implícito, com o que está omisso nos discursos. Desconstruindo a lógica discursiva mais comum, Trevisan constrói sua própria lógica textual – por mais caótica e fragmentária que seja –, elaborando, então, como já disse Sanches Neto, uma espécie de gramática particular dentro da estrutura da Língua Portuguesa.

Além desse recurso, há também que se comentar um outro forte elemento que caracteriza a linguagem literária do paranaense em questão: a concisão. Especialista na palavra única e na pausa, Trevisan abusa das mínimas estruturas significativas, da condensação de elementos para construir o seu texto. Períodos curtos, sempre cortados por vírgulas e pontos, sintaxe fundamentalmente paratática, poucos verbos, pouca adjetivação, pontuação que problematiza e amplifica o significado das orações são recursos que compõe essa atmosfera linguística lacônica de que falamos. Em vez da explicação, o autor prefere a confusão, a incerteza, posto que nestas coexistem duas ou mais ideias em conflito. A concisão existe então aí, na opção por dizer a palavra certa ou por não dizer palavra alguma, a fim de instaurar inúmeras possibilidades de leitura. Da parte ao todo, num processo metonímico, Trevisan opta pelo mínimo, mas que sinaliza para o máximo, novamente remontando ao silêncio e à ausência como fontes basilares de sua estética. Avesso ao rápido e fácil entendimento, contra a instauração de certezas, o vampiro de Curitiba transita suas narrativas na esteira do conciso e problemático vazio, construindo uma linguagem que, da menor partícula à estrutura total, configura-se através do silêncio e da ausência.

Sendo assim, quando afirmamos anteriormente que a literatura trevisaniana poderia ser intitulada de “O império do desentendimento humano”, o que queríamos dizer era que, em todos os níveis, a obra desse autor representa uma realidade que se encontra em desacordo, em desconforto, deslocada. A Curitiba de Trevisan é um

império em ruínas, impotente, lembrança esvaziada de uma cultura que se perdeu; as relações humanas de suas personagens são baseadas na ausência, no silêncio de um que reverbera no silêncio do outro, mas sem nunca estabelecerem um diálogo – silente, que seja; sua linguagem é um misto de vazios e palavras desencontradas, unidas apenas pelo sentimento geral de derrota.