3. ANALYSE
3.1 A RKADIA : D ET POLARE LANDSKAPET
3.1.1 Estetisk skildring
Quando falamos aqui em um universo literário, estamos nos referindo aos elementos temáticos que compõem as obras do referido autor paranaense. Questões relativas à construção do mundo onde acontecem as histórias, tais como as personagens escolhidas e seus dramas pessoais, suas ações e as consequências destas, o lugar e o tempo em que se ambientam as narrativas, a ideia de uma Curitiba metafórico-literária – sempre tão comentada nos estudos sobre esse autor – são as que mais nos interessam nesse momento. Parece-nos que começar a leitura de um livro, ou mesmo de um texto qualquer de Dalton Trevisan, não é simplesmente correr os olhos sobre uma página, mas sim adentrar em um universo, fragmentário, caótico, mas muito bem estabelecido; um contexto literário dotado de regras internas próprias, como comentado anteriormente, um tipo muito específico de representação da realidade. Os elementos que constituem essa atmosfera estética têm algo de subversivo, de estranho e, na mesma medida, de intrigante aos olhares curiosos dos leitores. Por isso, decidimos começar nosso comentário pensando esse “império do desentendimento” trevisaniano, ou, dizendo de outra forma, essa “realidade degradada”.
Termos como “realidade arruinada”, “realidade degradada”, “sociedade em ruínas”, “degradação” e similares são comumente utilizados em estudos que se direcionam à obra de Dalton Trevisan. Essas denominações fazem sempre referência à construção do universo estético desse autor. Sanches Neto (1996, p. 106) diz que “o fragmento [fórmula máxima da literatura trevisaniana] é o símbolo da ruína”; já Berta Waldman (1989, p. 87) afirma que o lugar dessa literatura, simbolizado pelas andanças da personagem Nelsinho, “é único: o da degradação”. Ao lermos a obra de Trevisan, vemos que seu mundo, seu universo textual, é o palco de dramas comezinhos e histórias vulgares; é casa de prostitutas baratas e mulheres traídas, de maridos bêbados violentos
e de homens covardes; lar dos doentes mentais, das gordas solteironas, dos assassinos vingativos, dos homossexuais oprimidos e enrustidos e dos tarados. “Os homens dessa Curitiba-metáfora são heróis decaídos” (SANCHES NETO, 1996, p. 55) e “é liliputiana a medida da mulher” (WALDMAN, 1989, p. 105): “nesta competição não há vencedores” (WALDMAN, 1989, p. 105). Desse modo, conseguimos perceber que as personagens que contracenam e transitam nesse universo fazem parte de uma camada excluída do eixo central da sociedade; são seres marginalizados, no sentido de que se projetam, ou são projetados, para fora do centro; sua realidade é a realidade do submundo; as taras e as obsessões, a violência e a prostituição, o entorpecimento e a apatia são características que, do ponto de vista tradicional do mundo burguês, encontram-se ligadas à moral duvidosa e às posturas antiéticas: o cortejo dos perdedores, vencidos e sujos: a obra do vampiro.
É óbvio que para afirmar um lugar social como sendo o da degradação é necessário que exista um julgamento ético-moral, de algum modo, de onde se possa balizar os limites do que é o centro resoluto de uma sociedade, para só então se definir o que são as suas ruínas periféricas degradadas. No caso das leituras críticas feitas em relação à obra de Trevisan, como já dissemos, acreditamos que essa definição moral parte do modelo ocidental capitalista burguês, ou seja, do modelo que rege a nossa sociedade atual, que vigora em nossas vidas e no senso comum da maioria dos sujeitos na contemporaneidade. No entanto, embora tenhamos consciência de que todos os escritos, de um modo ou de outro, mais ou menos marcadamente, bebem e projetam certa leitura moral do mundo, não nos interessa definir, aqui, em que nível a literatura trevisaniana é ou não é moralista, politicamente crítica etc.; não nos é interessante nesse momento uma leitura que evidencie as definições de bem e mal apresentadas e defendidas por Trevisan – se é que podemos pensar em ideias defendidas na obra trevisaniana. Para além disso, o que nos importa é compreender o modo através do qual essa literatura representa a realidade, os termos, os meios, as ações, as características que definem a sociedade retratada pela estética do vampiro de Curitiba. Desse modo, o termo “realidade degradada ou arruinada” tem, para nós, um caráter duplo: refere-se, primeiramente, a essa definição de moral e ética já mencionada, que determina a narrativa trevisaniana como sendo a escrita do mundo em ruínas, e, em segundo lugar – mas em primeiro plano na nossa pesquisa –, fala-nos de uma realidade que sobrevive
dos ecos de uma outra, à qual não temos acesso. Explicaremos agora como se configura essa segunda acepção – a que nos interessa – da expressão anteriormente citada.
Se pensarmos no termo “ruína”, antes mesmo de compreendê-lo conotativamente, como algo que pode fazer menção a uma decadência moral, ética ou pessoal, nós o entendemos literalmente, como o nome que é dado aos restos de construções desmoronadas. Sendo assim, se formos ao cerne dessa palavra, perceberemos que nela existem as concepções de duas realidades distintas: uma anterior, mais antiga, que existia plena e inteiriça e que, ao se deteriorar, desmoronando, deu origem a uma outra, essa que então se apresenta degradada e distorcida em relação à primeira: a realidade das ruínas. Fica claro, então, que uma ruína fundamenta-se nas mesmas estruturas basilares que antes sustentavam uma construção completa, inteira. No entanto, quando essas estruturas passam ao seu estado de ruína, elas acabam por se desconstruir; esvaziam-se de todos os ornatos e preenchimentos, perdem parte de seu conteúdo, tornando-se esburacadas; permanecem somente como restos em decomposição, arquétipos destruídos, uma espécie de memória distorcida e acabada. É nesse sentido que enxergamos a literatura trevisaniana como sendo uma estética das ruínas, da degradação; essa é, para nós, a base da metáfora que utilizamos na conceituação da realidade ficcional do vampiro. Portanto, o que lemos em Trevisan não é somente uma sociedade suja, que vive às margens de um centro ético e moral, mas sim um universo que, em sendo derivado de um outro mais antigo, manteve-se somente como um eco torpe, uma ruína, uma fachada – de leis e paradigmas morais – repetida perpetuamente de forma acrítica.
Para ilustrar esse conceito, podemos nos ater, por exemplo, à noção do machismo, sempre tão polêmica e fortemente retratada na literatura do vampiro.
É lugar-comum afirmar que a sociedade ocidental foi, por muitos séculos, fundamentalmente falocrática. Também é um fato que, a partir de uma análise diacrônica, conseguimos perceber que o papel da mulher na sociedade foi mudando, crescendo, ao ponto de romper com as barreiras antes impostas pelo poder masculino instaurado. Não temos intenção alguma de entrar mais profundamente nessa discussão, que poderia consumir longas páginas e fugir do foco de nossa análise. Trazemos esse dado simplesmente para ilustrar a seguinte afirmação: a sociedade de parte do ocidente, atualmente, embora ainda possua ecos do machismo de outrora, não manifesta essa ideologia de modo tão explícito e radical quanto o fazia antigamente; no mundo
contemporâneo, as mulheres conquistaram seu espaço. Sendo assim, se partirmos para o campo das representações sociais na arte, podemos dizer que é, de certo modo, anacrônico compor uma obra que, em se relacionando com a atualidade, represente-a como uma realidade em que o poder masculino ainda está oficialmente arraigado. No entanto, isso é exatamente – ou, pelo menos, aparentemente – o que vemos na literatura trevisaniana: mulheres submissas e homens dominadores, jovens pervertidos e meninas puritanas, o chefe da casa e a esposa obediente. A impressão que fica, quando se leem as histórias de Trevisan, chega a ser a de uma apologia do machismo, de um enaltecimento da dominação social masculina. Porém, antes de nos precipitarmos em nossos julgamentos, cabe refletir de modo mais detido sobre as representações que ali se estão construindo. Miguel Sanches Neto (1996, p. 56), refletindo sobre essa questão, afirmou:
[...] o poder masculino se funda num fingimento que visa manter as aparências. A cópia de comportamentos que já não podem ser plenamente exercidos, definindo dessa forma a sua essência caricatural, é que plasma uma maneira de viver tipicamente suburbana. O contista explora isso a partir de figuras que tentam viver em um mundo ao qual não pertencem.
Vemos então que, embora as narrativas trevisanianas aparentem retratar um universo regido pelas leis masculinas, essa primeira impressão não ultrapassa as aparências. Essa aparência é mantida justamente pelo intento deliberado das personagens masculinas – e também das femininas, que muitas vezes corroboram com esses ideais – de emular essa realidade machista ultrapassada. O que vemos nas personagens de Trevisan são cópias de comportamentos antiquados, repetição de paradigmas que ruíram com o tempo, caricaturas sociais que perambulam anacrônicas. Sanches Neto (1996) nos fala desse comportamento como sendo uma postura suburbana e, para nós, essa ideia do subúrbio remete novamente à noção do excluído, do projetado para fora do centro, para fora do eixo. Ou seja, a realidade literária trevisaniana é o retrato de uma parcela periférica da sociedade que busca, de maneira acrítica e torpe, emular um modelo social, para eles, inalcançável. Perdidos, não pertencendo àquele lugar, conseguem somente construir uma reprodução barata, anacrônica e, de certa forma, exagerada do modelo, constituindo-se assim como uma versão arruinada e degradada da realidade.
Desse modo, sempre que nos referirmos, aqui, ao universo literário de Dalton Trevisan – narrativa e estética –, utilizando-nos de expressões como “degradação”, “ruínas” ou derivados destas, estaremos nos referindo a essa concepção de realidade explicitada anteriormente, a esse modo específico de representar a sociedade.