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O trabalho de campo não é apenas uma possibilidade de aproximação com aquilo que se deseja conhecer e estudar, mas também permite criar um conhecimento partindo da realidade presente no campo (NETO, 2001).

A entrada no campo ocorreu por meio de vivência de trabalho dentro da Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda – SEDEST do Distrito Federal, dentro de serviços voltados para esse público. Primeiramente, havia procurado entrevistar crianças e adolescentes que vivenciavam o trabalho no tráfico. Porém, devido à dificuldade de autorização dos responsáveis para divulgação dos dados, optamos pela entrevista com jovens. No campo, encontrei quatro jovens que vivenciaram o trabalho no narcotráfico durante sua infância e/ou adolescência e que acordaram a concessão da entrevista, além de um adolescente que foi autorizado por sua responsável.

Realizamos, assim, a coleta dos sentidos dos jovens que vivenciaram o trabalho no narcotráfico quando crianças ou adolescentes por meio de entrevista semiestruturada individual, através da história de vida tópica, especificamente sobre a vivência no narcotráfico. Conforme Neto (2001), a história de vida é uma estratégia de compreensão da realidade que retrata vivências e definições, com uma noção de entrevista em profundidade, permitindo retomar a vivência de forma retrospectiva, com uma exaustiva interpretação. Conforme o autor, esse relato é material rico para análise do vivido e, nele, é possível encontrar o reflexo da dimensão coletiva a partir na visão individual.

Como foi discutido por Dowdney (2004) com base em debates metodológicos, os dados obtidos por essa forma de pesquisa são suficientes para descrever uma situação e, assim, compará-la a outras situações já definidas na literatura especializada. É importante também pontuar os limites desta pesquisa, uma vez que levamos em conta as definições da situação fornecida pelos atores sociais relevantes, a fim de que eles mesmos apresentem os conflitos e as tensões que vivem diariamente. Além disso, é preciso acrescentar que os conceitos que surgiram da análise de dados devem ser considerados como propostas conceituais a serem adicionalmente pesquisadas, para serem aperfeiçoadas ou refutadas.

O universo de pesquisa deste estudo foi projetado para compreender o sentido do trabalho de jovens que trabalharam quando crianças e/ou adolescentes no narcotráfico, especificamente no Distrito Federal.

Para o acesso aos dados foram realizadas entrevistas semiestruturadas com jovens adultos que trabalharam no narcotráfico quando crianças e/ou adolescentes. As entrevistas foram realizadas em duas comunidades e com ex-moradores de rua. Foram realizadas 05 entrevistas gravadas com 4 jovens adultos e um adolescente, 4 do sexo masculino e 1 do feminino. Dos entrevistados, 3 eram negros e dois brancos. Dois deles eram ex-moradores de rua e os outros nasceram em suas comunidades. Dos entrevistados, aqueles que nasceram em comunidades moravam com suas mães todas separadas do marido ou do companheiro. Quatro dos entrevistados ocuparam cargo de aviãozinho e um era dono de boca. Em relação à escola, todos, em alguma época, a abandonaram e 4 retornaram posteriormente. Quatro dos entrevistados largaram o tráfico. As perguntas foram orientadas aos seguintes temas: 1) Como e porque você entrou no tráfico de drogas?; 2) O que você acha ou sente pelo tráfico?; 3) Qual sua

rotina?; 4) Quais as funções que você exercia? O que você fazia?; 5) Quanto você ganhava?; 6) Qual era a droga que você traficava? Tem diferença entre elas?; 7) O que são drogas para você?; 8) Para você, o tráfico é um trabalho?; 9) O que é trabalho para você?; 10) Esse seu trabalho, pode-se dizer que é tráfico?; 11) Por que você saiu desse trabalho? Como foi?; 12) Trabalhar no tráfico é a mesma coisa que usar drogas?; 13) Por que há crianças e adolescentes no tráfico?; 14) Você frequenta ou frequentou a escola?; 15) Por que você abandonou a escola?; 16) Qual a importância da escola para sua vida?; 17) Quais foram os espaços em que você mais aprendeu?; 18) O que é educação para você?

5.1.1 Sigilo e ética de pesquisa

Sendo o mercado do narcotráfico ilegal e perigoso, as entrevistas só foram possíveis com a garantia total de sigilo de informações que pudessem identificar as pessoas entrevistadas. Por esse motivo, foram adotados os seguintes procedimentos para a transcrição do conteúdo das entrevistas gravadas para esse trabalho:

• Todos os nomes foram alterados por nomes fictícios aleatórios, sem nenhuma relação com os nomes originais dos entrevistados;

• Nomes de familiares, da cidade de moradia, de escolas ou instituições e identificação de locais de vivência do tráfico foram omitidos (por exemplo: nome próprio do filho foi alterado por “meu filho” e nome da cidade foi alterado por “minha cidade”);

• Em alguns momentos optamos por não encadear informações biográficas com as percepções particulares dos sujeitos sobre sua vivência. Fizemos esse movimento para impossibilitar a identificação dos entrevistados. Mesmo sabendo que a identificação mais direta de uma trajetória biográfica com o sentido atribuído ao tráfico permitiria outras análises, optamos eticamente por preservar os sujeitos com quem foi realizada a pesquisa.

5.1.2 Metodologia de análise de dados

Uma vez que os dados coletados advém de relatos, algumas considerações prévias a análise devem ser abordadas. Conforme Minayo (apud GOMES, 2001) o relato deve ser situado em seu contexto para ser melhor compreendido, partindo e chegando da e na especificidade histórica e totalizante que produz a fala. Dessa forma há tanto o nível de interpretação das determinações fundamentais (conjuntura

socioeconômica e política do qual faz parte o grupo social a ser estudado) como também com os fatos surgidos na investigação (comunicações individuais, as observações de conduta e costumes, análise de instituições e ritos e cerimoniais).

Após a coleta dos dados, ordenamos os relatos a partir de conteúdos expressos nas falas buscando classificá-los. Gomes (2001) aponta como técnica dessa etapa a análise de conteúdos como forma além de encontrar as respostas às questões formuladas, descobrir o que está por trás do conteúdo manifesto. É importante para a análise ter clara a unidade de registro, podendo ser expressa pela palavra, frase, oração ou tema (dentre outras) e a unidade de contexto, contexto do qual faz parte a mensagem.

A essa unidade de registro, consideramos como o sentido. O sentido é o elemento fundamental de utilização viva, ligada a uma situação concreta afetiva, por parte do sujeito (LURIA, 1987). Vigotski (2007, p.493), com base em Paulham, conceitua:

(...) o sentido de uma palavra representa a soma de todos os fatos psicológicos que surgem na consciência por causa da palavra. Portanto, o sentido resulta sempre de uma formação dinâmica, fluida e complexa, que possui várias zonas de desigual estabilidade. O significado é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, a zona mais estável, unificada e precisa. Como se sabe, uma palavra muda facilmente de sentido em um contexto diferente. Ao contrário, o significado constitui o ponto estático e invariável que permanece estável em todas as mudanças de sentido da palavra em um diferente contexto. (...) O significado real da palavra é inconstante. Em uma operação, a palavra intervém com um significado e em outra adquire um significado distinto. O sentido enriquece a palavra a partir do contexto, uma vez que ela absorve desse contexto todos os conteúdos intelectuais e afetivos e começa a ampliar o círculo dos seus significados adquirindo toda uma nova zona preenchida por um novo conteúdo. O sentido é um fenômeno complexo, móvel e mutável. Nesses termos, o sentido real da palavra é determinado por toda a riqueza dos momentos existentes na consciência e relacionados àquilo que está expresso por determinada palavra; ou seja, o sentido da palavra nunca é completo, ele é inesgotável. A compreensão total do sentido da palavra seria a compreensão do mundo no conjunto da estrutura interior do indivíduo (VIGOSTKI, 2007).

Com base nessa concepção, os sentidos apresentados nos relatos foram ordenados em grandes complexos: Trabalho, Tráfico de Drogas, Trabalho Infantil, Vida e Violência, Relações Humanas (família e amizades) e Educação. Essa ordenação foi realizada via tabulação. Os sentidos apresentados pelos cinco jovens acerca de algum complexo foram comparados entre si com foco na elaboração de categorias específicas.

Mesmo sendo o conceito central dessa pesquisa – mais geral e abstrato – o de trabalho, as categorias formuladas com base na coleta de dados que são mais específicas e concretas nos permitem uma investigação mais profunda da próprio conceito de trabalho. Por fim, na análise final, estabelecemos a articulação entre as categorias e as referências teóricas da pesquisa, respondendo às questões da pesquisa com base em seus objetivos e relacionando concreto e abstrato, geral e particular.