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A terceira categoria levantada no agrupamento por conceitos foi a relação entre trabalho e tráfico. Nas entrevistas categorizamos três elementos para compreender essa categoria: O que é trabalho?; O tráfico é um trabalho?; Trabalho legal.

5.2.3.1 O que é trabalho?

A categoria trabalho foi heterogênea nas entrevistas. Dois sentidos contraditórios apareceram com destaque. Por um lado, o conceito de trabalho é associado aos conceitos de trabalho digno e dinheiro suado. O trabalho digno está vinculado a uma concepção de um trabalho que não faz mal a ninguém, contrário ao tráfico. A questão do dinheiro suado se relaciona ao salário valorizado via trabalho formal ou informal lícito. Abordaremos essa concepção de trabalho formal adiante como categoria específica. Esse sentido de trabalho é vinculado também a uma modalidade de trabalho valorizada pelas famílias (“Hoje eu trabalho, vou ter filho pra criar”), por não oferecer riscos e, ao mesmo tempo, não provocar danos para ninguém. Embora esse trabalho digno seja valorizado, ele também é tido como uma obrigação ou necessidade que não traz prazer.

A outra face de trabalho que aparece nas entrevistas é mais ampla, pois abarca tanto os trabalhos lícitos como ilícitos. Trata-se da compreensão de trabalho como servidão. Conforme Rodrigo, “[trabalho] É servir alguém, alguma pessoa, você tá trabalhando quando você tá servindo alguém e no tráfico é a mesma coisa”. O trabalho como situação de servidão prevê uma subordinação com intuito de prover dinheiro como forma de garantir os bens de consumo para sobrevivência e, ao mesmo tempo, marca uma hierarquização de poder: “Se você não tiver num patamar grande você tá pra servir os outros”.

5.2.3.2 O tráfico é um trabalho?

Ainda dentro da categoria trabalho, identificamos sentidos diferentes relacionados à comparação deste com o tráfico. O tráfico é identificado como trabalho por alguns entrevistados por figurar como um meio de vida, que perpassa uma escolha e um estilo de vida. Conforme essa posição, todo o trabalho – seja legal ou ilegal – é uma

escolha dentre vários outros meios de garantir a vida. Carla compara o trabalho do tráfico ao trabalho de qualquer ambulante. Para a entrevistada o que diferencia o trabalho no tráfico, não é a atividade, mas a mercadoria ou produto que está sendo vendido. A mercadoria do tráfico é nociva e todos têm consciência disso. Porém é uma empresa que se estrutura como outras e o trabalho ou atividade realizada é a mesma.

A separação de um julgamento moral da atividade e da mercadoria é vista no relato de Carla de sua vivência na venda de drogas quando era criança: “Eu tô falando pra você que pra mim era tão natural, tão natural que era como se eu tivesse no sinal vendendo água”. Como vimos anteriormente, o desenvolvimento do sentido dessa atividade para Carla passou por três momentos: 1) identificação enquanto brincadeira e diversão; 2) identificação como trabalho e, tendo malícia, como forma de ter acesso a dinheiro e bens de consumo básicos e supérfluos, além de status dentro do tráfico; 3) identificação como um trabalho ilegal, não aceito socialmente por ter uma mercadoria nociva e por impossibilitar a construção de sua família. Esses três sentidos da mesma atividade demarcam a contradição da concepção da venda de drogas.

Ainda, Carla ressalta o tráfico como trabalho porque compreende que os traficantes sustentam uma economia e pela valorização do esforço dessas pessoas. Conforme Carla “Por isso que eu te falo que é um trabalho, é um trabalho sim, velho, porque querendo ou não, a sociedade dizendo que não, é um trabalho. Olha o esforço que o moleque tem, quantas noites o moleque não ficou acordado pra ter um tênis bom, quantas noites o moleque não ficou correndo da polícia, apanhando de polícia, as polícia forjando coisa em cima dele pra ele. Tipo, mesmo que seja uma coisa meio que imaginária da cabeça dele, ilusória da cabeça dele, olha o percurso que ele fez pra ele consegui chegar na casa dele, pagar um aluguel mesmo que tenha uma casa. Porque de qualquer forma o moleque usa aquele dinheiro pra alguma coisa ou bem só dele ou pro bem coletivo da família dele. É muito difícil você vê um traficante que ele ta pegando o dinheiro só pra ostentar, só pra usufruir não é, entendeu, ele vai usufruir ele vai, vai comprar as coisa, massa, pra ele vai querer crescer dentro da periferia, ele vai querer ser o bonitinho que anda sempre com os mizuno [marca de tênis] aí de dois mil reais. Mas ele também coloca alguma coisa dentro da casa dele, ele vai lá e faz uma cesta pra mãe dele, ele faz uma coisa pro filho dele, os filhos dele são muito bem tratados. Eu conheço filho de traficante que tem plano de saúde, eu não tenho plano de saúde”.

Por outro lado, alguns entrevistados relataram que o tráfico em alguns contextos pode ser um trabalho e em outros não. Para Paulo, o tráfico é um crime e não é visto pela sociedade como trabalho. O entrevistado associa o tráfico ao crime, pois o traficante sabe que a droga está destruindo várias famílias. Por outro lado, dentro do tráfico essa prática pode ser reconhecida como trabalho devido ao esforço é que empreendido pelas pessoas. A fala de Paulo demarca uma divisão de mundos: entre mundo do tráfico e a sociedade.

Para André, o tráfico pode ser um trabalho quando você está desempregado. Ao mesmo tempo, o entrevistado afirma que o tráfico era um “corre” [atividade pontual para gerar dinheiro] e não um trabalho. A diferenciação do jovem residia na diferença entre dinheiro digno e dinheiro fácil. Essa diferenciação também esteve presente na fala de João, porém equivalendo dinheiro digno com dinheiro suado. A dicotomia entre dinheiro digno/suado e dinheiro fácil relaciona-se, nesse caso, com os fins da atividade. Enquanto o dinheiro suado destina-se a garantir os bens de consumo para sobrevivência da família (reconhecendo o tráfico como trabalho justificável quando se está desempregado, o dinheiro fácil se relaciona com gastos visando bens de consumo “supérfluos” para status, desejo e drogas (“Dinheiro de droga, se pega ele e, no outro dia, você não tem nada. Você gasta rapidão no mundão”). João ainda associa o dinheiro fácil aos riscos em relação a ser preso ou sofrer alguma violência por conta do tráfico ser reconhecido como crime.

5.2.3.3 Trabalho legal

O trabalho formal, conforme vimos, é associado ao dinheiro digno e suado que não oferece riscos à pessoa e sua família, nem aos consumidores de seus produtos. Paulo conceitua esse trabalho como a vida do trabalhador com liberdade, na qual “você pode sair e ir para qualquer lugar, ir e voltar a hora que quiser”. Em todas as entrevistas está presente a incompatibilidade de ter uma família estando na vida do tráfico. O trabalho formal traz a possibilidade para a construção de uma família.

Contudo, o trabalho legal também é visto negativamente pelos entrevistados. Em primeiro lugar, pela diferença do dinheiro recebido pela atividade (“se eu trabalhasse [legalmente], eu ia trabalhar o mês inteiro pra ganhar menos da metade do que eu ia ganhar em uma noite [no tráfico]”). Em segundo lugar, relata-se a questão de autonomia no trabalho. Conforme já apresentamos, a questão de cobrança no tráfico é essencialmente dada pelo endividamento e violência, mas confere uma certa autonomia

da organização da própria atividade. O trabalho legal, principalmente o formal, determina regras mais fixas (“Eu vou querer trabalhar pra quê? Ficar ouvindo esporro [broncas e cobranças, associadas a humilhação], ter que cumprir com horário. Não. Quem fazia meu horário era eu, uai”). A questão da contradição do trabalho legal está sintetizada em um relado de Carla: “Esse trabalho formal pra mim é uma merda e uma coisa muito ruim. Eu não gosto, não vou mentir. Por mim, eu não trabalharia, mas também não queria viver à toa. Ao mesmo tempo eu queria um trabalho porque eu preciso me manter de forma legal, porque pra eu ser vista como uma pessoa legal e na lei certinho eu preciso de um trabalho legalizado. Não posso viver no tráfico porque é um trabalho ilícito. Eu não gosto de falar de trabalho, dá trabalho [a entrevistada ri]”.

Dessa forma, percebemos que o trabalho legal, ao mesmo tempo em que é visto positivamente – por possibilitar que seus trabalhadores sejam reconhecidos como cidadãos e possam constituir família –, é visto negativamente – pois sua organização, tempo, função e compreensão de autonomia são totalmente diferentes do foi vivenciado por esses jovens no tráfico.