1. Emily Dickinson, ein introduksjon
1.2 Poetisk produksjon
No estudo sobre os participantes das montagens teatrais do Gladsen, surgem alguns questionamentos iniciais: Como os integrantes do Projeto de Teatro (IMAGEM 3) podem ser analisados? Seria suficiente caracterizá-los em função de referenciais relativos à faixa etária? Seria correto chamá-los de jovens ou de adolescentes?
Imagem 3 – Turma do Projeto de Teatro.
Foto: Dóris de Fátima Carneiro. Uberlândia, 2007.
1.2.1 Referenciais para definir juventude
Para responder a essas perguntas, inicio por uma apresentação dos referenciais teóricos, oriundos da sociologia da juventude, que utilizo como base de entendimento sobre os jovens do Projeto de Teatro. Os termos jovens e adolescentes foram construídos histórica e
socialmente, variando seu entendimento conforme algumas correntes que os analisam e que são sintetizadas por Luiz Antônio Groppo, da seguinte forma:
-As ciências médicas criaram a concepção de puberdade, referente à fase de transformações no corpo do indivíduo que era criança e que está se tornando maduro.
-A psicologia, a psicanálise e a pedagogia criaram a concepção de adolescência, relativa às mudanças na personalidade, na mente ou no comportamento do indivíduo que se torna adulto.
-A sociologia costuma trabalhar com a concepção de juventude quando trata do período interstício entre as funções sociais da infância e as funções sociais do homem adulto. (GROPPO, 2000, p.13-14).
Diante dessas várias possibilidades, percebi que posso definir os indivíduos, que fizeram parte do Projeto de Teatro, com idades que variavam de 13 a 16 anos, como sendo adolescentes, visto que a escolha pelo termo adolescente aponta para a faixa etária dos ex- alunos do Projeto de Teatro. Mas, quais seriam as implicações de chamá-los de jovens? Dentro da sociologia, existem algumas possibilidades de analisar a juventude: a corrente geracional, a corrente classista e o entendimento dos jovens como categoria social. Mas, afinal, do que tratam cada uma dessas três correntes? E quais as suas contribuições para esta pesquisa?
Entre os autores que analisam o conceito de juventude, José Machado Pais é quem nos lembra que, para olharmos a juventude, devemos observá-la na sua diversidade e não na aparente noção de unidade. Na verdade, a juventude não carrega uma noção de unidade, como se existisse um bloco de pessoas que pensa de forma igual, que se veste do mesmo modo, têm os mesmos problemas, alegrias e possibilidades, como é veiculado o tempo todo pela mídia, por intermédio das telenovelas e seriados. Esse conceito está longe de ser real, pois, para os vários indivíduos que se constituem como categoria juvenil, múltiplas diferenças marcam seus comportamentos e várias são as possibilidades às quais têm acesso. Para José Machado Pais, essas tentativas de ver a juventude como um bloco uniforme talvez sejam fruto de ideias propagadas pela corrente geracional, que trabalha dentro de limites de idades: “a corrente geracional toma como ponto de partida a noção de juventude, entendida no sentido de fase de vida, e enfatiza, por conseguinte, o aspecto unitário da juventude” (PAIS, 1996, p.37-38).
A corrente geracional não trabalha com a ideia de diversidade. Para ela, existe um bloco de pessoas caracterizado pela mesma faixa etária, que está submetido às mesmas condições e têm respostas semelhantes às experiências que vivenciam:
[...] para esta corrente, os indivíduos experimentariam o seu mundo, as suas circunstâncias e os seus problemas, como membros de uma geração, e não, por exemplo, como membros de uma classe social (como defende a corrente classista).
Isto é, para a corrente geracional, as experiências de determinados indivíduos são compartilhadas por outros indivíduos da mesma geração, que vivem, por esse fato, circunstâncias semelhantes e que têm de enfrentar-se com problemas similares. (PAIS, 1996, p. 39).
Outra corrente trabalhada pela sociologia, para entender a juventude, é a Corrente Classista, que identifica uma distinção básica entre os jovens com base em suas classes sociais. Para essa corrente, o momento de transição da juventude para a fase adulta “encontrar-se-ia sempre pautado por desigualdades sociais: quer em nível da divisão sexual do trabalho, quer, principalmente, em nível da condição social” (PAIS, 1996, p.44). Mesmo concordando com essa afirmativa, penso que definir os jovens unicamente pela Corrente Classista pode sugerir uma visão determinista da análise sobre a juventude. Como se explicaria o caso de jovens da mesma classe social assumirem padrões de comportamento tão distintos, ou alguns jovens de classes sociais distintas terem gostos semelhantes em relação à moda e à música, por exemplo.
Considero que a maior contribuição da Corrente Classista, para o estudo dos jovens do Canaã, e dos espetáculos do Gladsen, venha do sociólogo Pierre Bourdieu. Ele indica a possibilidade de existirem basicamente “duas juventudes”, cita, por exemplo, “os jovens que já trabalham” e os “adolescentes da mesma idade (biológica) que são estudantes”. Seu pensamento não se limita apenas à questão do trabalho na adolescência. Ele esclarece que as possibilidades de jovens pertencentes a uma classe social menos favorecida economicamente não são as mesmas das alternativas disponíveis para “adolescentes burgueses”, e continua seu pensamento dizendo que “épor formidável abuso de linguagem que se pode subsumir, no mesmo conceito, universos sociais que praticamente não possuem nada em comum” (BOURDIEU, 1983, p.113–114).
Mediante esse quadro de conceitualizações, uma definição, trabalhada pelo sociólogo Luiz Antônio Groppo, que leva em consideração aspectos levantados por outras correntes, mas avança na caracterização da juventude como uma categoria social, se faz relevante para essa pesquisa:
Podemos definir a juventude como uma categoria social. Tal definição faz da juventude algo mais do que uma faixa etária ou uma “classe de idade”, no sentido de limites etários restritos – 13 a 20 anos, 17 a 25 anos, 15 a 21 anos etc. Também, não faz da juventude um grupo coeso ou uma classe de fato. [...] Não existe realmente uma “classe social” formada, ao mesmo tempo, por todos os indivíduos de uma mesma faixa etária. [...] Trata-se não apenas de limites etários pretensamente naturais e objetivos, mas também, e principalmente, de representações simbólicas e situações sociais com suas próprias formas e conteúdos. (GROPPO, 2000, p.07-08).
Segundo essa exposição, os jovens fazem parte de uma categoria social que passou, ao longo da história, e ainda passa, por várias transformações, expressando-se de forma cada vez mais diversa, devido às várias combinações sociais, culturais, de gênero e de etnia:
[...] a juventude como categoria social não apenas passou por várias metamorfoses na história da modernidade. Também é uma representação e uma situação social simbolizada e vivida com muita diversidade na realidade cotidiana, devido à sua combinação com outras situações sociais – como a de classe ou estrato social -, e devido também às diferenças culturais, nacionais e de localidade, bem como às distinções de etnia e de gênero. (GROPPO, 2000, p.15).
Essas combinações sociais, apontadas pelo autor, fazem com que tenhamos vários tipos de jovens, e não um bloco uniforme denominado juventude. Sobre a ideia de pluralidade de juventudes, Groppo é bem claro. Ele acredita que ela se relaciona com fatores socioculturais:
[...] a multiplicidade das juventudes não se funda num vazio social ou num nada cultural, não emerge de uma realidade meramente diversa, ininteligível e esvaecida. Tem como base experiências socioculturais anteriores, paralelas ou posteriores que criaram e recriaram as faixas etárias e institucionalizaram o curso de vida individual – projetos e ações que fazem parte do processo civilizador da modernidade. (GROPPO, 2000, p. 19).
Essas várias diferenças sociais e culturais referidas pelo autor constituem as juventudes ao longo da história. A partir do pensamento formulado por Groppo, pesquisar sobre juventude é deixar claro a que jovens o estudo se refere e quais os fatores socioculturais estão presentes no seu cotidiano. Dentro desse quadro conceitual, quais seriam, no caso dos jovens adolescentes do Canaã, os fatores socioculturais presentes na sua comunidade, que afetam diretamente suas vidas? Alguns deles já foram mostrados anteriormente, dentre eles as questões sociais, econômicas e culturais, tais como: trabalho infantil, baixo poder aquisitivo da população, falta de opções de lazer, tráfico de drogas, a forma como a mídia aborda os conflitos da comunidade, e o preconceito, fruto dessa abordagem. Aspectos esses que colaboram na caracterização do bairro e, consequentemente, dos jovens do Canaã. Outro fator sociocultural presente na comunidade é a atuação da E. M. Dr. Gladsen Guerra de Rezende, com recorte nos projetos extracurriculares, os quais se propõem a dialogar com os fatores levantados anteriormente. E é a análise do Gladsen e de seus projetos extracurriculares de que se trata o último passo da contextualização dessa pesquisa.