[Mas se você tivesse a opção de trabalhar em home office o tempo todo você preferiria ou não?] Acho que não. Porque você não tem
contato com pessoas. Depois de um tempo fica monótono, você se sente muito em casa, não é legal ficar tanto tempo em casa, parece que você não está trabalhando. [...] é bom fazer home office, mas fazer toda hora, não. Você tem que estar pelo menos duas, três vezes na semana para ter o contato do dia a dia, acho que faz bem. (CRISTIANO. Entrevistado em 06 de novembro de 2014).
A maioria dos trabalhadores que compõem a amostra não deseja trabalhar permanentemente em home office por diferentes motivos. A ausência de interações face a face e a perda da sociabilidade própria do local de trabalho apresentam-se como justificativas de que o trabalho remoto só interessaria em circunstâncias nas quais o profissional pudesse combinar dias de trabalho em casa com dias de trabalho a partir do escritório. Cristiano tem a possibilidade de escolher a quantidade de dias da semana que trabalhará em casa. No geral, trabalha remotamente de dois a três dias na semana, porque mais tempo que isso pode levar a perda de rendimento no trabalho. No seu caso, o trabalho em home office é motivado por economia de tempo, para tratar de assuntos pessoais.
A perda das relações pessoais não compensaria a “liberdade” de poder trabalhar a partir de casa. Essa ideia é destacada por Rafael ao comparar as relações face a face, estabelecidas no escritório, em relação às relações mediadas pelas tecnologias informacionais. A natureza colaborativa do trabalho de desenvolvimento de software – que pressupõem compartilhar informações, ideias e/ou soluções de problemas – atuaria como um obstáculo do trabalho remoto em tempo integral.
[No home office] você sente falta de ter alguém ao lado, para conversar. Por mais que você tenha suas amizades, por mais que você frequente outros lugares. O home office vai ser oito horas do dia, mesmo aqui, eu morando com os meus pais. Eles ficam trabalhando e eu fico sozinho aqui em casa. São oito horas do dia que você fica sozinho sem ninguém para conversar [...]. Às vezes, você está com algum problema no trabalho é mais fácil se você tem alguém ao lado para discutir. (RAFAEL. Entrevistado em 18 de novembro de 2014). Rafael argumenta que o trabalho remoto impacta sobre as interações sociais, sobre a sociabilidade no ambiente do escritório que não é própria apenas do trabalho, mas também das trocas simbólicas, dos afetos, das amizades, etc. Ao mesmo tempo em que avalia perda nesse campo das relações sociais em decorrência do trabalho remoto, ele contrapõe o impacto sobre os resultados do trabalho quando este é realizado no
escritório (uma ou duas vezes por semana Rafael reúne a equipe de trabalho no escritório).
Só que trabalhar no escritório tem suas desvantagens, principalmente em [ganho de] tempo. Porque, às vezes, você perde tempo para chegar [...]. E quando você tem muita afinidade com o pessoal – isso acontece quando eu vou ao escritório – a gente mais conversa do que trabalha. Eu acabo não fazendo praticamente nada do que faria se eu tivesse trabalhando em casa (RAFAEL. Entrevistado em 18 de novembro de 2014).
O isolamento ou a solidão experimentado com o trabalho realizado a partir de casa compõem, ao mesmo tempo, contra e a favor do trabalhador. No caso de Rafael, aventamos como hipótese de que a sua experiência de quatro anos e meio trabalhando, quase que integralmente, em home office, contribui para estabelecer um ritmo e disciplina no trabalho que não consegue estabelecer quando trabalha fora de casa. Na prática, as reuniões no escritório têm a função de agregar a equipe e de acompanhar os trabalhos. No entanto, o escritório, enquanto local tradicional de realização do trabalho atuaria como ponto de encontro e espaço lúdico, para “quebrar” o silêncio em sua casa.
Um lado ruim de trabalhar de casa é que acaba não tendo as relações humanas com outras pessoas, fazendo amizades. Quando você está no trabalho você conversa com um, conversa com outro e acaba fazendo mais amizades. Quando você está exposto, você é visto e vê, e essa relação também ajuda você em promoções, conhecer outras áreas, outras oportunidades. Você pode fazer um trabalho fantástico, mas se você não está sendo visto fisicamente também as pessoas tem dificuldade de te ver. [...] (IANN. Entrevistado em 03 de abril de 2016).
Iann compartilhou sua experiência de sete anos de trabalho em uma multinacional localizada em São Paulo, onde exerceu o home office tanto por tempo integral como parcialmente (dias da semana com maior incidência de trânsito). Para ele, não ter com quem conversar e estabelecer relações pessoais, não significava apenas a perda das interações cotidianas possibilitadas pelo ambiente do escritório. Significava perda de oportunidade de uma potencial promoção.
É estranho, mas as pessoas precisam te ver de vez em quando, lembrar-se de você. É uma perda que acontece com quem trabalha de casa. Tanto que eu tento ir pelo menos uma vez a cada quinze dias lá, pelo menos dar um “oi”, porque parece que as pessoas realmente esquecem e esse é o problema de trabalhar de casa, mas lógico que tem [...] facilidades. (TALITA. Entrevistado em 24 de setembro de 2014).
Há uma percepção entre os trabalhadores segundo a qual quem trabalha apenas em casa é esquecido pela empresa e por isso teria menos possibilidades de reconhecimento profissional, de crescimento na carreira. Afirmam ser raro o caso de promoção de um profissional que trabalha em casa, quando comparado com aqueles que trabalham todos os dias a partir da empresa.
Pertencendo a um time de trabalho cujos membros estavam lotados em outros países, Iann era o único brasileiro da equipe, o que lhe possibilitava ficar full time em home office. Trabalhando em casa, passava a maior parte do tempo sozinho, o que não era um grande problema para ele, pois considerava ter facilidade para organizar-se e realizar os trabalhos à distância.
[...] eu lembro que logo que eu comecei home office, e eu ia para o escritório, sempre que eu ia eu sentava no mesmo lugar, então eu estava aprendendo alguma coisa com isso? Não. Eu estava fazendo isso por quê? Não sei. Não teve nada pensado nisso, mas estava fazendo. Então, depois de certo tempo eu percebi que já que eu tinha essa oportunidade eu sentava num lugar, numa semana sentava numa área ali, na outra semana quando eu ia para o escritório eu sentava em outra área ali, então aos poucos você vai aprendendo como isso pode te ajudar e criando outras estratégias. [...] Como eu não tinha um time no Brasil – meu time estava lá fora eles não sabiam onde eu estava. Para eles, eu estava em casa já que eu era oficial home office. Então, em cada dia eu trabalhava numa área diferente da empresa. Era um prédio com 20 andares, eu entrava no elevador e eu apertava qualquer número, descia no sexto andar e encontrava uma mesa livre e sentava ali. Chegava perto do horário do almoço, as pessoas começam a conversar: “o que você está fazendo aqui”? “Eu vim trabalhar no escritório”. Num simples dia, num simples momento você acabava conhecendo novas pessoas, fazendo amizades com as pessoas e isso era legal porque você descobria vagas em outras áreas, coisas que não tinham nada a ver com o que você estava fazendo. Do mesmo jeito que te bloqueia não ter a interação com outras pessoas, por trabalhar de casa, às vezes, o benefício de trabalhar de casa quando você está no prédio e ninguém sabe que você está lá, é você estar em outras áreas conhecendo outras pessoas. Tudo depende do benefício que te é dado e como você utiliza-o também. (IANN. Entrevistado em 03 de abril de 2016).
A estratégia adotada por Iann para superar a solidão e a separação física dos colegas mais que promover sociabilidades resultou na criação de redes que viabilizaram a obtenção de informações sobre novos projetos. Em conformidade com a estratégia de parte dos entrevistados, que se vinculam ao maior número de pessoas por meio de redes sociais virtuais, utilizando estas redes como mecanismo de atualização de informações, de busca de vagas de emprego e/ou projetos e colocam-se em visibilidade na rede. As
informações obtidas a partir das redes ocorrem por meio do estabelecimento de laços fracos. Granovetter (2000, p.48) analisou as estratégias de busca por trabalho, utilizadas por técnicos e diretores residentes em Boston, sua hipótese era de que os desempregados que possuíam laços pessoais mais fortes teriam melhores chances de empregar-se, pois aqueles com quem se tem vínculo estariam mais dispostos a ajudar. Os resultados do estudo, contudo apontaram o contrário, pois justamente os vínculos considerados fracos foram os que permitiram aos desempregados encontrar um novo trabalho. Qual a explicação? A força dos laços reflete sobre a força do grupo, ou seja, quanto mais fraco os vínculos, maior será a circulação por diferentes grupos, consequentemente maior será o acesso a diferentes informações.
Iann vai mostrando que são esses laços fracos que possibilitam circular informação entre os trabalhadores permitindo vincularem-se aos novos projetos da empresa, ou recorrer a outras empresas. A empregabilidade – que não teria relação apenas com a realização de cursos e capacitações contínuas – dos trabalhadores vai depender também da sua iniciativa em fazer contatos e garantir possibilidades de indicação nos projetos. E isso depende de sua capacidade de se projetar no cenário.
Mas o que eu costumava fazer, quando eu estava num período de mudar de área, num período psicológico de: “quero mudar de emprego”. Eu começava a ir para o escritório e isso era uma coisa legal. (IANN. Entrevistado em 03 de abril de 2016).
Na gramática corporativa os analistas simbólicos são reconhecidos e tratados como recurso, ressignificando o lugar do trabalhador no interior do processo produtivo. Ao tratá-lo como recurso, a empresa passa a exigir – por meio de vários elementos simbólicos – que o profissional apresente resultados sempre crescentes e para isso, esse capital humano precisa movimentar-se e nunca ficar desalocado. Como apontará Gorz (2005) o trabalho imaterial exige um trabalhador em constante movimento, de um lado para o outro, de um projeto para o outro. A dinâmica dessa “movimentação” pode ser observada no relato de Leonardo cuja empresa é a mesma de Iann.
[Como funciona, no caso de ficar desalocado? Quais as estratégias que você poderia utilizar para se alocar novamente?]. O primeiro ponto seria o seu próprio esforço. Você é responsável por se alocar, não só você, existe uma equipe que trabalha exclusivamente com alocação de recursos, projetos disponíveis, perfis, para fazer esse meeting, esse encontro entre profissional e projeto. Porém, existe uma responsabilidade sua em procurar projetos e realocações dado às suas
conexões. Então é muito mais fácil se você estiver trabalhando com uma pessoa e ela sabe que você tem aquele perfil, daí ela: “opa, tem uma vaga aqui”, então isso facilita bastante. [Ficar desalocado é um problema dentro da empresa?]. É o trabalhador quem se candidata, quem vai atrás do próximo projeto que fará parte. E esse correr atrás demanda conhecer e ser conhecido. (LEONARDO. Entrevistado em 17 de julho de 2014).
Conforme sugere o relato, o trabalho por projeto mantém os trabalhadores digitais temporariamente alocados em um determinado projeto, podendo ser de desenvolvimento de programas, consultoria em TI, um trabalho no setor de suporte, entre outros. Além disso, a passagem destaca a dinâmica, no interior de uma grande empresa, sobre como os trabalhadores são deslocados e envolvidos em tais projetos. A alocação de um trabalhador a um determinado projeto dependerá também da sua candidatura ao projeto e não, necessariamente, de uma escolha unilateral do gerente. O tempo de permanência varia de acordo com o tamanho dos projetos. Essa lógica não significa, porém, que o contrato de trabalho seja por tempo determinado, mas coloca o trabalhador em constante movimento no interior da empresa para se vincularem aos novos trabalhos/projetos/clientes. A instabilidade e o risco perpassam tanto empregados, quanto prestadores de serviços – em grau e intensidade diferente, é bem verdade – mas essa dinâmica de colocar o empregado em busca de novos projetos pode ser um grande ensaio geral em direção ao aprofundamento do “Pejotização” no setor, ou seja, os empregados já são “formados” no quesito captação de projetos.
[...]. E por esta questão que eu tinha falado, em relação a muitos gestores da área [de TI] não te verem como pessoa. [Eles] te verem como uma ferramenta, ou um recurso como o pessoal costuma dizer. Eles querem – a gente consegue sentir essa pressão e essa falta de consideração – justamente isso: prazos abusivos, extremamente agressivos, sem gente para fazer e você sendo obrigado a cumprir aquilo lá. E no meu caso em específico, para o cliente que eu trabalho, a mão de obra deles é muito escassa, eles têm pouca gente trabalhando. Para compensar a falta de pessoas, que eles têm, jogam para o lado de tirar a responsabilidade [deles]. [...]. Uma coisa, no meu caso específico que eu sinto bastante é ser responsabilizado por muitas coisas que realmente não eram minhas. E para mim, pelo menos, é extremamente irritante e desmotivador. (BERNARDO. Entrevistado em 15 de julho de 2015).
O trecho acima enfatiza a dimensão da precariedade presente na lógica de transformar o trabalhador em “recurso”. A fala de Bernardo é ácida ao destacar o que na prática constitui ser um “recurso”, ainda mais quando submetido a uma relação de
trabalho cujo contrato é entre empresas (PJ). Toda a pressão característica da atividade é destacada por ele a partir da descrição dos prazos