Dado vivermos imersos no contexto de democracia de público - na qual a deliberação e os debates políticos exigem visibilidade por conta da vasta população e território; onde a instituição política maior funda-se no regime presidencialista e
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demanda cobertura midiática personalizada; onde existe a garantia de informação, liberdade e representação das correntes de opinião, o dito jornalismo opinativo - o intuito da presente pesquisa é demonstrar, por meio dos editoriais da Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, que a disputa eleitoral para presidente no Brasil em 2010 pode ser vista sobre o ângulo de uma disputa discursiva ideológica, possibilitando o destaque de temáticas específicas. Como vimos, palavras não são meras palavras sem significados.
Para tanto, assumiremos a teoria da Filosofia da Linguagem e o método dialógico como base para esta tese. Levaremos em conta que os signos são arenas de luta, tal qual concebido por Mikhail Bakhtin7 [1979] (1997), como fios ideológicos que entrelaçam a trama do contexto sócio-histórico. O importante é compreender que, para Bakhtin, os signos formam discursos, e estes estão necessariamente ligados a outros discursos. Dessa maneira, este trabalho será eminentemente voltado para estudos dos discursos, que carregam entonações, denotam e conotam, têm juízos valorativos e significados, cuja qualidade maior é não se encerrar em si mesmo, mas refratar e refletir dialogicamente, sendo o principal elo entre homens e o mundo.
Para Bakhtin, o mundo é entrelaçado pela linguagem, sendo esta a ponte entre os seres humanos e o mundo exterior. Qualquer objeto do mundo precisa ser significado e é somente pela via da linguagem que é possível fazê-lo. Além disso, o mais importante é que são necessárias sempre duas ou mais consciências para que haja significação. Esse encontro do eu com o outro é a chave central do pensamento bakhtiniano. A linguagem por si só não existe enquanto não é acionada pelos homens que fazem uso dela. A mediação entre o eu e os outros só se dá pela linguagem – em um processo contínuo de inter-ação. Portanto, o autor tem a clara proposta de colocar em relação a realidade do mundo com a realidade sígnica, sendo que os signos só aparecem no terreno interindividual.
Bakhtin vê a fonte do significado da linguagem no social – e não somente no texto ou nos indivíduos singulares. Assim, o signo deve sempre estar carregado de um conteúdo ou sentido ideológico. Em outras palavras: a linguagem é ideológica. Elichirigoity (2008) explica:
Para ele [Bakhtin], o modo de existência da realidade linguística é a evolução criadora ininterrupta e não a imutabilidade de normas idênticas a si mesmas. A forma linguística é sempre mutável. Na enunciação, então, juntam-se outras condições (como entonação, conteúdo ideológico, situação social determinada) que afetam a significação, dando valor novo ao signo. É a
31 classe dominante que tenta tornar o signo monovalente, mas o signo é sempre plurivalente e só a dialética pode resolver a contradição entre a unicidade e pluralidade de significação (ELICHIRIGOITY, 2008, p.196)8.
A relação entre a infraestrutura e a superestrutura acontece por meio do liame da linguagem, e sabemos que a ideologia é um reflexo das diferentes estruturas sociais (para tanto, basta lembrar que cada classe social tem registros de língua diferentes, mais formal ou menos, dependendo do estrato). A ideologia surge nos embates sociais, que passam a ter também a sua existência nos signos. A luta pela hegemonia de sentidos faz com que cada embate torne-se necessariamente dialógico9, demandando dizeres e sentidos:
Os sentidos são sempre produtos de cálculos, e ao jogo das compreensões, os sujeitos comparecem carregados de interpretantes, carregados de palavras, carregados de contrapalavras, enfim, carregados de história. (GERALDI, 2010, p. 88).
O autor russo nos dá as ferramentas teóricas e metodológicas necessárias para que possamos analisar, por meio dos textos, o contexto. Os estudos de Bakhtin nunca foram feitos isoladamente, ou seja, ele nunca analisou somente o texto sem o contexto ou vice-versa. Este é o principal diferencial do autor em relação a demais estudiosos da linguagem e metodologias alheias à realidade material sócio-histórica. Portanto, é no âmbito discursivo, uma trama não desligada dos fatos históricos e sociais, dos sujeitos e seus dizeres. Dessa maneira, não trataremos de objetos de estudos nem de sujeitos a- históricos, deslocados da concretude do real.
Apesar de termos objetos de análise e citarmos sujeitos como personagens, consideramos discurso (no seu efeito total ou específico, por exemplo, discurso político ou discurso opinativo) como sendo parte da vida, elemento do amálgama da sociedade.
No caso da Filosofia da Linguagem, a palavra é o palco de uma arena de luta, onde as ideologias vão sendo constituídas nas tessituras sociais e acabam sendo refletidas e refratadas, como dissemos. Nenhum discurso é novo, tudo faz parte de uma corrente na qual há um antes e um depois. Cada palavra carrega consigo a possibilidade de agregar significados, cada vez mais sentidos, sem deixar de lado os sentidos antigos. A luta, então, é para se constatar quem consegue estabelecer tais novos sentidos: ser
8 No corpo do texto utilizamos a escrita de acordo com a Nova Ortografia da Língua Portuguesa.
9 Hegemonia no sentido bakhtiniano e não gramsciniano. Apesar de Brandist (2010) fazer muito bem a aproximação entre os conceitos. Para o autor, em ambos os filósofos, temos sujeitos dinâmicos, inacabados historicamente e se relacionando com as tensões vivas das forças sociais. No entanto, Bakhtin se preocupa com questões anti-hegemônicas, enquanto Gramsci elabora seu pensamento no sentido da contra-hegemonia.(op. cit.).
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aceito socialmente e estabelecer os sentidos primeiros, ou ficar com os sentidos restantes (subterrâneos). "O governo da palavra não é tudo na política, mas a política não pode agir sem a palavra", afirma Patrick Charaudeau (2008, p.21). Logo, estamos trabalhando com o local onde a política se encontra com a palavra, intermediada por um representante da comunicação social, o jornalismo, que, para o autor, é publicamente considerado como alguém digno de fé. Esse é o todo do que entendemos por discurso.
Para analisarmos a situação, recorremos a Bernard Manin (1995), que afirma que as discussões nas democracias contemporâneas têm que passar necessariamente pelas discussões feitas não somente pela, mas também para a mídia. Assim, podemos compreender que os discursos políticos são medidos a partir de e para a mídia, em nosso caso, o jornalismo. Assim, analisar a disputa eleitoral para presidente em 2010 sob o viés discursivo, por meio dos editoriais, é olhar para a linguagem como elemento fulcral que alia momento histórico, contexto e memória10. Importante é ressaltar que a linguagem não é isolada de seu contexto sócio-histórico, como seu fosse algo alheio à realidade.
Em geral, as análises de comunicação políticas elaboradas durante os períodos eleitorais são feitas sob o âmbito quantitativo. Por exemplo, um acontecimento é analisado a partir da métrica de quantas vezes uma palavra ou tema foi citado em um editorial, por exemplo. Por mais que entendamos serem importantes tais dados, só isso não basta. A nossa busca é mais sensível: consiste em olhar para o discurso é ver a constituição e uso de determinadas palavras em detrimento de outras, bem como quem pôde dizê-las, onde, e em qual momento.
É sintomático certos temas serem publicados nos editoriais dos jornais escolhidos em detrimento de outros, pois, pela lógica, houve uma escolha e sobreposição – relacionadas obviamente ao contexto do momento, bem como à argumentação de cada texto, analisando cada acontecimento. Dessa maneira conseguimos mapear não somente os temas que apareceram durante a Eleição 2010 nos editoriais dos grandes jornais, como também a maneira com que eles foram ditos e, principalmente, com quais sentidos.
Como dissemos, trabalhamos nesta tese com discursos. Mais precisamente, discursos jornalísticos dos editoriais da Folha e Estadão. Nosso nível de olhar é contextual e abrangente, auxiliado por dados empíricos. Como caminhamos por áreas
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diversas como Comunicação Política e Estudos da Linguagem, é preciso afirmar que não olhamos para as questões de língua. Existe uma série de possibilidades de análise e ferramentas metodológicas, como as que utilizam a Análise do Discurso, a Retórica, a Semiótica e a Gramática – muitas que se apegam ao nível da oração somente, sem atingir o enunciado e seu liame com o contexto. O trecho seguinte é esclarecedor para aclarar o que Bakhtin compreende por discurso e como trabalhamos nesta tese:
A língua, as palavras são quase tudo na vida humana. Contudo, não se deve pensar que essa realidade sumamente multifacetada que tudo abrange possa ser objeto apenas de uma ciência – a linguística – e ser interpretada apenas por métodos linguísticos. O objeto da linguística é apenas o material, apenas o meio de comunicação discursiva, mas não a própria comunicação discursiva, não o enunciado de verdade, nem as ações entre eles (dialógicas), nem as formas da comunicação, nem os gêneros do discurso (BAKHTIN, 2003b, p. 324).