• No results found

O trabalho em home office altera a rotina cotidiana do trabalhador e os intervalos de descanso são os primeiros a serem suprimidos. Talita possui uma visão mais instrumental em relação às funcionalidades do trabalho remoto, percebendo suas contradições e apontando os efeitos relativos à organização, planejamento e realização dos intervalos de descanso. Muitas vezes, trabalhar em casa faz com que os trabalhadores organizem seus intervalos de descanso e refeição de forma distinta àquela praticada quando se está no escritório. Vejamos as considerações de Talita sobre esta questão.

É bom trabalhar em casa, não vou falar que não é [...], mas o ruim é que você nem sempre tem horário para jantar, para almoçar, nem sempre sai no horário certo, tem esses problemas, sabe? Na empresa, se você não foi almoçar, já vem alguém e fala: “você não vai almoçar?” Se você ainda está lá depois do horário, vem alguém e fala: “mas você não vai embora?”. Não é nem por ficar preocupado por gerar hora extra, é preocupado com você mesmo. “O que você está fazendo aqui ainda?” Então, eu falo assim: eu gosto de trabalhar de casa bem de vez em quando, eu não gostaria de trabalhar a vida inteira assim, sabe? (TALITA. Entrevistado em 24 de setembro de 2014). O significado do home office para Talita é ambíguo e contraditório, pois, se de um lado, ela avalia ser uma boa maneira de desenvolver seu trabalho – em outros momentos da entrevista ela acionou argumentos como o a economia de tempo e a possibilidade de conciliar atividades profissionais e trabalho doméstico – por outro, o dilema é sobre como planejar e organizar sues intervalos de refeições e descanso. Outro ponto que a entrevistada destacou foi em relação ao controle dos pares quanto à realização dos intervalos de descanso e refeições – que, na percepção de Talita é entendida como uma espécie de solidariedade compartilhada entre os colegas que se reconhecem nesta dinâmica do trabalho sem fim.

[...] Agora, com relação aos horários eu tento não pensar, mas é meio inconsciente mesmo. É tentar realizar o projeto mostrando que, mesmo [trabalhando] dentro de casa, o cliente está sendo atendido. E quando o número de atividades é muito grande, a gente acaba ficando o dia inteiro conectado. Confesso que, às vezes, eu deixo de almoçar.

Fico tão entretido no assunto e acabo indo almoçar as três, quatro horas [da tarde]. Eu não controlo muito bem isso, mas em compensação, quando está bem tranquilo, eu saio para caminhar no meio do dia. Às vezes, você executa suas atividades e para você continuar você depende da informação, mas o cliente falou que vai demorar um pouco para passar aquela informação. Então, não adianta ficar no sofá aguardando. Daí, eu pego o celular e saio para caminhar, às vezes eu fico duas, duas horas e meia, fora daqui do ambiente do escritório [na casa], até ter informação para trabalhar. Então, não tem muito controle não, é meio que você vai se adaptando à situação, mas sempre com o objetivo principal que é o foco em atender o cliente. (ERIC. Entrevistado em 13 de setembro de 2014).

Eric trabalha tanto em casa, quanto no escritório do cliente. A decisão, na verdade, tem como critério a natureza do projeto e do tipo de contrato estabelecido com o cliente. Pode ser um projeto de consultoria em que se necessita de uma série de informações junto à equipe de funcionários do cliente, ou em que deve ensinar o uso e as aplicabilidades de um determinado programa – neste caso pode ser preciso estar no escritório. Pode ser um projeto no qual Eric precisa apenas desenvolver o projeto, sem interação com o cliente, logo o trabalho pode ser realizado a partir de casa.

A percepção de compensar o excesso de trabalho de um período por outro com baixa demanda de trabalho é aventada nos discursos como uma vantagem para o trabalhador em relação ao trabalho em casa. A ideia de compensar permeia também o argumento daqueles que enxergam o home office como um instrumento que possibilita “conciliar” família e trabalho ou vida pessoal e trabalho. No entanto, quando refinamos a análise em relação ao argumento de Eric, restam dúvidas sobre a real possibilidade de compensação. Sua rotina pode até parecer “leve”, entremeada por intervalos em que até pode passar algumas horas fazendo caminhada, enquanto aguarda as respostas do cliente. Seria vantajoso se tratasse de uma rotina estável, no entanto, Eric possui variados projetos e clientes determinando diferentes arranjos de tempos de trabalho. A impossibilidade de compensar, neste caso, é a mesma dos empregados que acumulam banco de horas nas empresas, mas que não conseguem convertê-los em tempo de descanso.

Parece engraçado o que eu vou falar, mas, por exemplo, esse projeto que eu estou trabalhando, no escritório do cliente. Eu trabalho menos [tempo] de oito horas por dia, eu trabalho em torno de seis horas e meia a sete horas, no máximo. Quando estou trabalhando de casa, eu trabalho de nove a dez horas por dia. (ERIC. Entrevistado em 13 de setembro de 2014).

Considerando a surpresa de Eric ao comparar a duração de sua jornada de trabalho realizada no escritório e a realizada em casa, é possível supor o quanto a mais sua jornada é estendida. É preciso lembrar que para os trabalhadores PJ, como é o caso de Eric, a desvantagem – não revelada por ele – encontra-se na não remuneração das horas excedentes quando não compensadas, diferentemente dos empregados.

Eu prefiro [trabalhar em casa]. Mas, para trabalhar em casa tem que ter uma disciplina. Tem gente que confunde, acha que está em casa, que não está trabalhando. Mas eu, pessoalmente, produzia muito mais em casa do que no escritório. [Porque] no trabalho, você acaba tendo aquela rotina de horário. Vai chegando perto do horário de almoço, você tem aquele horário para almoçar. Em casa não, tem aquela comodidade. Se eu estou aqui ocupado, entretido com uma coisa e vou almoçar duas, três horas da tarde, às vezes almoço na frente do computador. No final do dia, você tem horário para sair da empresa, mas quando você está em casa você acaba estendendo o trabalho. Eu, quando estava em casa, sempre trabalhei até sete, oito horas. Como eu acordo cedo, sete e meia. Às oito horas eu já estava “logado58”. Eu

vejo com bons olhos isso. (ROBERTO. Entrevistado em 14 de maio de 2015).

As falas de Eric e Roberto chamam a atenção para o que parece ser um dos momentos em que os trabalhadores realmente utilizam da suposta liberdade de trabalhar como melhor lhes convêm. A liberdade aqui, no entanto, é utilizada desfavoravelmente contra o trabalhador. Explicamos, a rotina do trabalho em casa leva os trabalhadores a suprimirem seus intervalos de descanso e refeições e não os horários de início e término do trabalho. Nesse sentido, trabalhar em casa permitiria maior produtividade – na percepção deles – em virtude dos intervalos de não trabalho suprimidos em detrimento do trabalho.

Contrariando o modo flexível de organizar o tempo de trabalho em casa, Bernardo, que trabalhou por seis meses na modalidade home office em uma multinacional, contou como procurava organizar o trabalho em casa, tentando estabelecer um ritmo e uma rotina de trabalho semelhante à exercida no escritório.

Eu seguia sempre o horário, eu nunca fazia horário diferente, só mesmo tirava o tempo de deslocamento que eu tinha [...] eu era bem rígido com o horário. Entrava no horário que todos começavam a trabalhar e terminava quando todo mundo terminava, acho que só. (BERNARDO. Entrevistado em 15 de julho de 2015).

A postura de Bernardo é uma exceção à regra. As entrevistas indicam a tendência de práticas como a apontada por Talita, ao destacar o lado negativo da autonomia outorgada que é a de permanecer trabalhando/conectado ao trabalho durante os períodos do intervalo. Trabalhar na empresa apresenta-se, portanto, não apenas como um espaço de trocas e sociabilidade para enriquecer a produção, a partir do compartilhar informações com os colegas, como também a possibilidade de controle – por parte dos trabalhadores – da realização de intervalos entre jornada, quando comparado com aqueles que trabalham em casa. Não por acaso, Talita prefere trabalhar eventualmente em casa, colocando em contradição a representação e o discurso de que os controles do tempo na empresa operaram como obstáculos, seja à criatividade, seja à produtividade. O que os casos indicam é a possibilidade do trabalho no escritório levar a um controle maior sobre a duração da jornada de trabalho, na medida em que a marcação casa trabalho fica mais evidente.

Os relatos nos ajudam a refletir sobre os significados e efeitos de colocar sob a responsabilidade do trabalhador a gestão de seu tempo de trabalho que necessita lidar com uma série de características da atividade. Permite também tencionar argumentos das teorias organizacionais que são favoráveis ao teletrabalho, associando a esta prática o benefício da melhor qualidade de vida dos trabalhadores. No entanto, contraditoriamente a tal argumento, podemos retomar as reflexões de Sennett (1999) com relação ao significado do “flexitempo”. Para o autor o flexitempo produz um “mosaico de tempos de trabalho” e distancia o trabalhador da “monótona padronização do trabalho da fábrica de alfinetes”, mas, apesar de parecer um benefício em relação aos tempos e as rotinas padronizadas, as “realidades do flexitempo são bem diferentes” (SENNETT, 2009, p.66).