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O aumento do número significativo de leitores, segundo Chartier e Cavallo (1999), responde pela recontextualização do papel social da mulher. Na sociedade patriarcal cabia à mulher ser a guardiã dos bons costumes e da tradição familiar a ser transmitida aos seus filhos por meio da educação. Representadas como donas de casa, eram concebidas como seres intelectualmente inferiores. Embora alfabetizadas, tornam-se objetos de preconceitos por jornais satíricos do século XIX. Esses jornais reservam a elas a condição de leitoras de romances “açucarados” e lhes atribuem qualidades pouco elogiosas: são criaturas frívolas, emotivas e dotadas de baixo poder intelectual. Assim, elas lêem em segredo obras que lhes proporcionavam um prazer furtivo, de sorte que a modalidade de leitura desenvolvida pelas mulheres é de caráter individual e silencioso. Entretanto, a leitura teve papel essencial na sociabilidade feminina; pois, frente às dificuldades para comprar livros, as mulheres tornavam-se freqüentadoras assíduas das bibliotecas públicas.

No século XIX, os textos mais lidos pelo público feminino oscilavam entre obras que registravam receitas de cozinha e romances populares, desde que de baixo custo, pois dependiam financeiramente de seus maridos visto não estarem integradas ao mercado de trabalho.

Observa-se a criação de bibliotecas públicas circulantes no século XIX, em razão do grau de descentralização administrativa no continente europeu bem como, do denso

processo de urbanização. As mulheres recorriam às obras dessas bibliotecas para exercer suas práticas de leitura.

Sabe-se que a incorporação da mulher ao mercado de trabalho ocorre na Europa do século XIX como trabalhadoras nas fábricas. Nesse tempo, os leitores da classe operária lutavam para formar uma cultura própria, livre do controle da burguesia, da Igreja ou da burocracia. Entretanto, o acesso à leitura dessa classe trabalhadora só fora facilitado quando a jornada de trabalho foi diminuída para dez horas diárias. Dificuldades como a falta de luz e o preço das velas faziam com que as casas fossem pouco iluminadas. Mesmo assim, os livros tornam-se objeto de consumo diário, facultando aos homens e às mulheres suas leituras mesmo que silenciosas e individuais. Desta feita, a leitura extensiva vai se propagando entre o público masculino e o feminino.

É nesse contexto que as mulheres vão deixando de contar histórias para seus filhos, pois passam a dominar a arte de ler para eles histórias. Entre o contar e o ler, o cuidar da casa e o trabalhar, ela vai conquistando espaços para chegar ao século XX como letrada, apesar dos preconceitos.

Assim, é no percurso do século XX que se criam obras destinadas à leitura “para mulheres”, muito embora elas tenham se tornado leitoras de todos os tipos de obras – literárias, filosóficas, científicas. Todavia, o mercado não deixa de publicar semanalmente as chamadas revistas femininas e, segundo Chartier e Cavallo (1999), essas revistas, embora oferecessem uma leitura fragmentada, tal fragmentação estava em sintonia com o ritmo de trabalho marcado pelas interrupções do seu papel de dona de casa. Mas, como leitora o perfil sistematizado para ela é acima de tudo aquele de consumidora de romances.

É ainda no contexto das sociedades do século XIX, quando o número de leitores se faz crescente, que se observa o despontar de profissionais especialistas na exploração do mercado editorial. Os leitores passam a ser focalizados como fonte de lucros por essa nova vertente mercadológica. Entretanto, essa extensionalidade da leitura entre os trabalhadores urbanos e as obras publicadas pelos editores e por eles lidas causam inquietações entre os grupos do poder nacional que avaliavam essas obras como fonte de subversão .

Nesse mesmo tempo tem-se a expansão do sistema primário educacional, cujo propósito era favorecer a alfabetização universal das crianças e dos jovens. O mercado editorial voltou-se para publicações de textos com vistas a conquistar esse novo público. Assim sendo, se no século XIX os textos infantis estiveram totalmente voltados para a divulgação de conteúdos de caráter moral-convencional; agora, no século XX, esse tipo de conteúdo deixa de figurar em primeiro plano. Desta feita, os contos de fadas foram reescritos, recontados, reinventados e editados para atender aos leitores de idades e padrões morais diferenciados.

Nessa acepção, os contos de Perrault e dos Irmãos Grimm, inspirados na tradição oral folclórica ou reforçando parâmetros de moralidade e dos valores familiares, respectivamente, tiveram leitura mais extensiva no século XIX, mas não no século XX. O mercado editorial não deixou de manter essas publicações, mas optou por atribuir relevo a publicações de novos autores como Julio Verne, Lygia Bojunga, Ruth Rocha, dentre outros, privilegiando o romance de aventuras ou reinterpretações de antigos contos de fadas recontextualizados por um ponto de vista da sociedade moderna para instituir a crítica referente a esses tipos de texto, ou ainda para tratar de problemas vividos por crianças e adolescentes na sociedade contemporânea.

Chartier e Cavallo (1999) postulam que não se pode esquecer que a alfabetização das massas tem início no século XIX na Europa, ainda que na América e na África esse projeto não tenha sido desenvolvido. Assim, a criação de novos leitores,

sejam eles crianças ou jovens, tem por fundamento e fundamentação os processos de alfabetização. Por meio desses processos é possível estender o número de leitores não só de jornais e revistas, de romances de ficção barata, mas também de obras da literatura clássica, de textos científicos ou tecnológicos. Para o autor, o século XIX aponta que suas gerações alfabetizadas foram as últimas a ver o livro atuando como espaço único para a formação de leitores, isto é, sem a competição de outros meios de comunicação como no caso dos leitores do século XX, dentre os quais estão as crianças e os jovens que precisam ser formados para assumirem a posição de leitores.