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Implications of Case Observations

A transformação contínua de sinais em informações e de informações em conhecimentos é um trabalho desenvolvido pela memória que implica a extensão da rede conceptual, quando fundada na reflexão-crítica. Para os cognitivistas esse fazer transformador se dá a partir de conhecimentos arquivados na memória de longo prazo semântica. Afirmam que a armazenagem de informações não se dá de forma desorganizada, pois os conhecimentos arquivados são estruturados, organizados por esquemas de representações. A cada entrada de novas informações, aquelas já armazenadas são reelaboradas de modo a incorporar as novas informações processadas por esses esquemas de compreensão. Essa incorporação pode não só implicar a extensão desses modelos cognitivos, mas também a sua alteração e delas podem resultar a criação de outros modelos, a bifurcação de um deles em outros... Assim, os “velhos modelos cognitivos” funcionam como guias para o processamento de novas informações que dão entrada na memória semântica. Sem a integração de vários modelos bem como a alteração dos mesmos não há produção de sentidos.

O desenvolvimento dos estudos cognitivos tem possibilitado diferenciar três processos básicos de memória: a decodificação, o armazenamento e a recuperação da informação semântica. A decodificação designa o processo segundo o qual a informação representada em língua é captada como ondas sonoras e decodificada. Essa decodificação implica reconhecer os sinais lingüísticos estruturados na linearidade

pela combinação de letras que formam sílabas, de sílabas que formam morfemas ou palavras, de palavras que formam frases ou enunciados e de enunciados que se articulam sobre a forma de textos. Tais sinais funcionam como sinais auditivos ou visuais aos quais se atribuem significados que se remetem a referências memorizadas, isto é, em forma de esquemas de representação. Assim, a decodificação se transmuda de uma forma física em uma representação da memória. Afirma Sebastian (1983) que as informações armazenadas podem se perder no sistema da memória resultando no esquecimento. Nesse caso, a recuperação sempre vai implicar habilidades para acessar informações armazenadas; contudo, o fracasso ou a falha na recuperação de certas informações pode não implicar apenas esquecimento, mas dificuldades de conhecimento dos sinais lingüísticos.

Para Freud (1915), as razões pelas quais o homem apaga ou se esquece de alguns fatos pode ser não só o desconhecimento, mas também a repressão, de modo que o reprimido sempre é esquecido. Para esse autor, a memória armazena toda e qualquer informação, porém as esquecidas precisam ser recuperadas por estratégias específicas, no caso, aquelas da psicanálise. Em se tratando do ensino da leitura, tal recuperação é feita por meio de pesquisas, de estratégias de intertextualidade e de perguntas feitas pelo professor, segundo Solé (1998), para quem não só se reaviva o esquecido, mas também se o reconstrói. Para essa autora, reavivar o esquecido implica um grande esforço de memória.

Para Terzi (2001), o desconhecimento do vocabulário de um texto impede a memória de proceder à recuperação de informações, visto ser esse conhecimento que ativa o que nela está armazenado, pois é o vocabulário que estabelece relação com o conhecimento de mundo do leitor; assim, os chamados textos difíceis são aqueles que têm um alto índice de vocábulos desconhecidos e que exigirão do leitor um grande esforço para decodificá-lo de forma significativa.

Afirma Sebastian (1983) que, nas primeiras décadas do século XX, as pesquisas sobre a memória qualificavam-se por um enfoque conducionista: aquele que entende que a recordação de informações memorizadas está centrada em associações entre estímulos e respostas, de modo que quanto maior o grau de aderência entre esses dois elementos maior será a extensão da informação memorizada. Tais estudos enfatizam muito mais as causas do esquecimento do que as habilidades referentes aos processos de recordação. Esses estudos também postulam que o esquecido resulta de inibições que interferem no movimento associativo acima enunciado.

A partir da segunda metade do século XX, passa-se a considerar que os resultados das investigações conducionistas além de rígidas são bastante simplistas. Do mesmo modo, os estudos desenvolvidos no campo da linguagem, fundamentados em postulados conducionistas e orientados pela lógica matemática e pelo determinismo, também passam a ser criticados, visto não darem conta dos processos de produtividade dos sentidos. Assim, a psicolingüística passa a se ocupar com questões colocadas por esse campo de conhecimento e cria os princípios para diferenciar a memória humana por diferentes perspectivas também chamadas “armazéns”.

Na década de 70, o interesse se volta para o estudo de estratégias desenvolvidas e usadas pelo sujeito para organizar, recuperar informações e sobre os modos como essas informações são organizadas de sorte a garantir representação dos conhecimentos não lingüísticos pelos lingüísticos. Passa-se a postular que os significados atribuídos a um texto ou aos enunciados dependem dos conhecimentos que o indivíduo tem armazenado em sua memória. Hoje, consensualmente, esses estudos apontam para uma memória humana que opera em três dimensões: uma de longo prazo designada por memória semântica de longo prazo; outra designada por memória operacional ou de médio prazo e outra designada por memória de trabalho ou temporária.

A memória de curto prazo compreende o lugar onde se podem armazenar seqüências de números ou palavras. Dada à incidência de apresentar um índice de capacidade reduzida, postula-se que o número de unidades que nela pode ser acomodado, a média, corresponde apenas a sete itens. Segundo Kato (1990), esta é a razão de os números telefônicos se comporem por essa mesma proporção de dígitos. Todavia, atenta-se para o fato de que, apesar da capacidade limitada desse tipo de memória, quando exigida ela pode ultrapassar essa quantidade, visto que atualmente se verifica o recente aumento das unidades numéricas que passam a compor tais aparelhos. Vê-se, pois, que esse fato não impede a nossa adaptação a essa nova realidade.

Entende-se que os itens que se inserem na memória de curto prazo somente se sujeitam a lembranças quando podem ser remetidos à memória de longo prazo, por meio de repetições. Desse modo, seqüências exaustivas e de grande extensão não propiciam condições para que os itens sejam armazenados na memória de longo prazo, a menos que tais seqüências sejam agrupadas de modo a se poder construir, com elas, unidades mais amplas, obtendo-se, assim, maior capacidade para retenção de informações. Logo, uma seqüência do tipo: 356891958426 se agrupa como: 356 – 891 - 958 – 426.

A memória de médio prazo se constitui como o lugar onde ocorre a recodificação dos itens provenientes da memória de curto prazo. A função dessa memória é a de operar com significados e não com formas superficiais como palavras ou termos. Postula-se que os conceitos são aí ativados como unidades lógicas de sentido. Assim, o agrupamento e/ou reorganização dos significados corresponde ao conteúdo das formas proposicionais.

A memória de longo prazo se constitui como lugar onde ocorre a armazenagem e organização de todo nosso conhecimento de mundo. Nesse espaço, incluem-se os conhecimentos lingüísticos, conceitos, modelos cognitivos globais, fatos generalizados,

de um lado e, de outro, os episódios individuais experienciados em particular. Genericamente, a memória de longo prazo se define como um conjunto de armazéns que se especificam em memória semântica e memória episódica. Os conhecimentos lingüísticos abarcam as regras gramaticais e o léxico, bem como as instruções correspondentes do uso desses elementos. Nesse sentido, o léxico é concebido como um conjunto de palavras adquiridas pelos indivíduos, incluindo-se aqui todas as restrições sintáticas e de significados propostos pelo sistema de uma dada língua, de forma a fornecer possibilidades do indivíduo representar uma parcela significativa do seu conhecimento de mundo. (VAN DIJK, 1983).