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3. Methods

5.4 Phenotype and phylogeny

arquitetura”, Dona Lina mostra-se “uma arquiteta leitora de Antonio Gramsci”453. Ela discorre sobre o

conceito de Teoria, o qual identifica com a prática, pois segundo ela “sendo a prática demonstrada racional e necessária através da teoria e, por sua vez, a teoria realística e racional (demonstrada) através da sua prática”454, argumentando que a disciplina poderia ser denominada Prática Profissional, pois “a teoria vem em nossa ajuda para a impostação dos problemas arquitetônicos, como sinônimo e identificação ‘de prática planificada”455. Ela também discorre sobre o conceito de Filosofia, afirmando que pensar é atribuição do homem, e, portanto, “cada homem é nesse sentido um filósofo”456 e conclui que Filosofia “é então concepção de mundo passada a ser norma prática da vida”457 ideias próximas à filosofia da práxis de A. Gramci, que defende não haver distinção entre homo faber e homo sapies da mesma forma que não pode haver distinção entre intelectuais e não intelectuais 458, em suas palavras:

“todo homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um filósofo, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção de mundo”.459

Nesta aula, também, Dona Lina apresenta aos alunos casas populares italianas, para “atirar longe” o “complexo do arquiteto, individualista, criador quase exclusivamente de formas bonitas” e despertar o olhar para a “beleza duma solução honesta de arquitetura”460. Ainda nesta aula inaugural, retoma pontos discutidos em suas palestras de abril do mesmo ano, e comenta a análise de B. Zevi

sobre sua posição em “aconselhar os alunos à consideração e à reflexão, segundo os problemas do

próprio país, é uma tomada de posição contra a cultura461. Discordando de B. Zevi, ela argumenta

que se trata de uma “necessidade para não cair no verbalismo inteligente duma cultura que caminha

para, ou já alcançou o bizantismo”462. Mais adiante ela comenta:

“[...] O que temos que fazer é procurar entender o homem de hoje, eletrificado, mecanizado, mortificado pelo progresso que ele criou mas ainda não pode compreender e acompanhar na sua significação. Procurar entendê-lo sem aceitar passivamente de fatores externos e preestabelecidos com o marco da nossa personalidade; não estamos por isso contra a

453 RUBINO, Silvana Barbosa. Rotas da modernidade: trajetória, campo e história na atuação de Lina Bo Bardi, 1947-1968. Tese doutorado, UNICAMP, Campinas, 2002, p. 37.

454 BARDI, Lina Bo. Teoria e filosofia da arquitetura. In. BARDI, Lina Bo. Lina por escrito: Textos escolhidos de Lina Bo Bardi. org. Silvana Rubino e Marina Grinover, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 81-86.

455 Ibidem, ibidem. 456 Ibidem, ibidem. 457 Ibidem, ibidem.

458 GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultural. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966, p. 6. 459 Ibidem, p. 8.

460 BARDI, Lina Bo. Teoria e filosofia da arquitetura. In. BARDI, Lina Bo. Lina por escrito: Textos escolhidos de Lina Bo Bardi.org. Silvana Rubino e Marina Grinover, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 81-86.

461 Ibidem, ibidem. 462 Ibidem, ibidem.

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cultura, ao contrário.”463

Ela não estaria contra a cultura no sentido de anti-cultura, mas sua visão de mundo questiona o status quo e, neste sentido, é contracultural e libertária. Trata-se de uma visão de mundo alternativa, que não aceita os “fatores externos preestabelecidos”464, e que deseja um mundo em que o

homem não esteja “mortificado pelo progresso que criou”465. O pensamento de Dona Lina é próximo ao

dos filósofos frankfurtianos, que estudaram a “sociedade totalmente administrada” e, também, ao

pensamento da Internacional Situacionista, contra a alienação da “sociedade do espetáculo”, ambos na

perspectiva marxista ocidental, como vimos no capítulo 2.

No Diário de Notícias, seus textos denotam um olhar crítico sobre o establisment, como por exemplo, “Cultura e não cultura”466, que questiona a posição do “literato” e sua “pseudocultura”467, ou seja, os intelectuais representantes das elites que não entendem as reais necessidades da maioria do povo. Ela defende uma “ação política efetiva”468 reconhecendo a “falência dos esforços precedentes”469, a fim de construir uma “nova ação cultural”470 cujas bases estarão “nas forças genuínas do país,

procurando ao mesmo tempo estar ao corrente do desenvolvimento internacional”471 . Ela acredita que encontraria na cultura do povo “a força necessária ao desenvolvimento de uma nova e verdadeira cultura”472.

O contraste entre a cultura popular e a alta cultura é um dos pontos fundamentais que distingue A.Gramsci dos demais intelectuais marxistas. Enquanto a maioria defende que a principal tarefa do marxismo seria “combater ideologias modernas em sua forma mais refinada, a fim de poder constituir o próprio grupo de intelectuais, e educar as massas populares, cuja cultura é medieval”473; A.Gramsci, ao

contrário, defende que esta é uma atitude da “cultura idealista”, pois não consegue elaborar uma

“cultura popular” e que permanecem com esquemas “abstratos e teóricos”474, uma vez que “continua

sendo a cultura de uma restrita aristocracia intelectual”475. A.Gramsci ao constatar que a função dita

463 Ibidem, ibidem.(Grifo nosso)

464 Ibidem, ibidem. 465 Ibidem, ibidem.

466 BARDI, Lina Bo. Cultura de não cultura. Op. cit. p. 87-90. 467 Ibidem, ibidem. 468 Ibidem, ibidem. 469 Ibidem, ibidem. 470 Ibidem, ibidem. 471 Ibidem, ibidem. 472 Ibiem, ibidem.

473 Gramsci, Antonio. Alguns problemas para o estudo da filosofia da “práxis”. In. GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. Trad. Carlos Nelson Coutinho, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1978, p. 104.

474 Ibidem, ibidem. 475 Ibidem, p. 108.

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“intelectual”, historicamente, sempre foi privilegiada por estarligada à aristocracia476, formula sua teoria

em que para a transformação democrática da sociedade seria necessário um “novo intelectual” comprometido com o povo, dentro do conceito de nacional-popular, em suas palavras:

“[...]Deve-se observar o fato de que em muitas línguas, “nacional” e “popular” são sinônimos ou quase (assim em russo, alemão em que Volkish tem um significado ainda mais íntimo, de raça, assim nas línguas eslavas em geral; em francês, “nacional” tem significado em que o termo “popular’ é já mais elaborado politicamente, porque ligado ao conceito de “soberania”; soberania popular tem igual valor ou tiveram-no).

Na Itália, termo “nacional” tem um significado muito restrito ideologicamente e em

todo caso não coincide com ‘POPULAR’, porque na Itália os intelectuais estão distantes do

povo, isto é, da “nação” e estão por sua vez ligados a uma tradição de casta, que nunca foi rompida por um forte movimento político popular ou nacional a partir de baixo: a tradição é “livresca” e abstrata, e o típico intelectual moderno sente-se mais ligado a Aníbal Caro ou a

Hipólito Pindemonte do que a um camponês pulhês ou siciliano.477

23 - Cartaz, exposição Bahia no Ibirapuera, 1959. Fonte: BARDI, 2008, p. 135. Dona Lina seria uma nova intelectual na perspectiva gramsciana, pois não distinguia arte erudita em detrimento à popular, e, em suas ações, dialetizou o contraste entre cultura popular e alta cultura478 se aproximando do povo. Esta visão de mundo está presente nas várias exposições que

realizou como Bahia no Ibirapuera, 1959 [Fig.23], com M. Gonçalves479, cujo cartaz é uma ilustração de xilografia típica da literatura de cordel, onde foram apresentados tapeçarias, carrancas de madeira, santos e orixás, vaqueiros e ex-votos, classificados pela arquiteta como “pré-artesanais”, uma vez que são produzidos em menos escala numa estrutura familiar, diferentemente dos objetos artesanais,

476 GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização de cultura. Trad. Carlos Nelson Coutinho, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966, p. 8. 477 GRAMSCI, Antonio. Conceito de “nacional-popular”. In. GRAMSCI, Antonio. Obras escolhidas. São Paulo: Martins Fontes, 1978, p. 376.

478 Id. Arte e a luta por uma nova civilização. Op. cit. p. 360.

479 A exposição Bahia no Ibirapuera, de 21/09/59 à 31/12/59, foi um evento paraleto à Bienal e ocupou parte da marquise do parque. Lina Bo montou a exposição com Martim Golçalves e contou, ainda, com a presença dos amigos Vivaldo Costa e Glauber Rocha como enviado especial do jornal O Estado da Bahiaque viajaram à São Paulo. Cf. RUBINO, Silvana Barbosa. Rotas da modernidade: trajetória, campo e história na atuação de Lina Bo Bardi, 1947-1968. Tese doutorado, UNICAMP, Campinas, 2002. Cf. BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. coord. Marcelo Carvalho Ferraz, 3ª. Ed.. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008, p. 134-137.

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produzidos numa estrutura de Corporações de Ofício como da Idade Média480. No panfleto da exposição, os autores discutem o “limite entre Arte e arte”481, ou seja, uma abordagem contestatória sobre os conceitos de “Arte” - entendida como arte erudita e “arte”- entendida como arte popular; de

forma a contrariar o senso comum da “classificação da arte que, excluindo o homem, considera a arte

mesma como algo individual, atividade abstrata, privilégio”482. Em 1963, na exposição Nordeste, definida

como uma “acusação de um mundo que não quer renunciar à condição humana apesar do

esquecimento e da indiferença”483, Dona Lina expõe objetos da cultura indígena e afro-brasileira, utensílios domésticos como pilões, potes e gamelas, objetos elaborados com latas de óleo, redes, santos e ex-votos, acondicionados em estantes de caixotes de feira; onde discute o conceito antropológico de cultura, como sinônimo de civilização, quando afirma: “civilização é o aspecto prático da cultura, é a vida do homens em todos os instantes”484. Anos depois, realizará outras exposições coerentes com seu pensamento nacional-popular: A mão do povo brasileiro, que inaugura as atividades do MASP, 1969, e a exposição Repassos, MASP, 1975, com Edmar de Almeida.

Entre os objetos pré-artesanais que seleciou para as exposições, cabe salientar a presença de peças de cunho ritual, os denominados Ex-votos - da tradição popular de depositar nas igrejas e capelas peças, como forma de agradecimento por uma graça ou milagre recebido485. Ao expôr estas peças, especialmente esculturas em madeira486, Dona Lina se aprofunda na discussão da origem do conceito de Arte, numa perspectiva próxima à de W. Benjamim487:

“Originalmente, é o culto que expressa a incorporação da obra de arte num conjunto de

480Segundo Lina Bo: “O artesanato popular corresponde [...]a uma forma particular de agremiação social, isto é, às uniões de trabalhadores especializaos

reunidos por interesses comuns de trabalho e mútua defesa, em associações que, no passado, tiveram o nome de CORPORAÇÕES, As corporações existiram na Antiguidade Clássica, isto é, na Grécia e Roma, e tiveram o máximo esplendor na Idade Média, quando a Europa inteira se constituiu em Corporações.” Cf.

BARDI, Lina Bo. Tempos de grossura: o design no impasse. São Paulo: coord. Marcelo Suzuki, Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, 1994.

481 BARDI, Lina Bo; GONÇALVES, Eros Martim. Bahia no Ibirapuera. catálogo da exposição. In. BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. coord. Marcelo Carvalho Ferraz, 3ª. Ed.. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, Imprensa Oficial do Estao de São Paulo, 2008, p. 134.

482 Ibidem, ibidem.

483 BARDI, Lina Bo. Catálogo da exposição inaugural do Museu de Arte Popular do Unhão, Bahia, 1963. In. BARDI, Lina Bo. Lina por escrito: Textos escolhidos de Lina Bo Bardi. org. Silvana Rubino e Marina Grinover, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 81-86. (grifo nosso)

484 Ibidem.

485 Sobre definição de ex-voto ver: ARAUJO, A.M. Ex-votos e “promessas”. Revista Habitat, São Paulo, n.5, p.42-45, out. , 1951.

486 BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. coord. Marcelo Carvalho Ferraz, 3ª. Ed.. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, Imprensa Oficial do Estao de São Paulo, 2008, p. 136.

487 Walter Benedix Schönflies Benjamim (1892-1940) estudou filosofia, literatura e psicologia na Universidade de Berlim e de Freiburg. Defendeu doutorado na Universidade de Berna, na Suíça, com a tese O conceito de crítica de arte nos românticos alemães. Em 1925 preparou sua Habilitation ou livre-docência a tese Origem do drama trágico alemão a qual foi rejeitada pela Universidade de Frankfurt, motivo pelo qual renuncia à carreira acadêmica e se dedica então a uma “concepção marxista da Cultura”. Desde 1924 Benjamim começou a se interessar pelo marxismo, sendo que duas pessoas contribuíram para isso: sua amante Asja Lacis, comunista de origem letã, e que apresentara em 1928 a Bertolt Brecht. Em 1934 Benjamim passa dois verões (1934 e 1938) na casa de Brecht, na Dinamarca, quando aprofundam a amizade. Outros dois importantes amigos e interlocutores da obra de Benjamim foram Theodor Adorno e Gershom Scholem “especialista em mística judaica”. Em 1933 o nazismo assume o poder na Alemanha e Benjamim se auto-exila em Paris. Neste mesmo ano como bolsista do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, escreve A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade técnica. Em setembro de 1939 é internada no “Campo dos Trabalhadores voluntários”, em Nevers, França. Depois de libertado, volta à Paris. Em junho de 1940 a França é tomada pelos nazistas. W.Benjamim, judeu, tenta transpor a fronteira franco-espanhola, contudo sem perspectiva de entrar na Espanha suicida-se em 27 de setembro de 1940. Cf, BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro:Editora Jorge Zahar, 1993, p.29; Cf. GABNEBIN, Jeanne Marie. Walter Benjamim: os cacos da história. São Paulo: Brasiliense, 1982.

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relações tradicionais. Sabe-se que as mais antigas obras de arte nasceram a serviço de um ritual, inicialmente mágico, depois religioso. Ora, trata-se de um fato de importância decisiva o de que a obra de arte perca necessariamente sua aura a partir do momento em que ela não mas possua nenhum traço de sua função ritual. Em outras palavras, o valor de unicidade própria à obra de arte ‘autêntica’ que se baseia neste ritual que foi originalmente o suporte de

seu antigo valor de uso.” 488

Para W. Benjamin, esta primeira função, que liga a arte ao sagrado, deixou um traço nas obras

de arte em geral, uma espécie de emanação que garantia seu caráter único, sua “aura”, mesmo quanto

não eram criadas para o culto ou em homenagem à divindade como à época moderna.

Os Ex-votos [Fig.24] são como as esculturas Terra-Mãe - peças rituais e artísticas simultaneamente que remontam a origem da religião e arte489 - e ao serem expostos no espaço museológico perdem sua função ritual ligada à sua original significação, ou seja, perdem sua “aura” de objeto ritual e assumem uma nova aura de autencidade, neste sentido são elevados à categoria de objetos de arte.

Em relação à arquitetura vernácula, Dona Lina sempre procurou distinguir uma “solução honesta de arquitetura”490. Um exemplo de materialização desse pensamento é sua releitura da tradicional técnica construtiva de construção de carros-de-boi, para seu projeto da escada do MAP [Fig.25]. Ela, que nunca tomou a escada como um elemento prático491, criou uma escada helicoidal

escultórica com pilar central em madeira pau-d’arco e pisos de madeira ipê amarelo, cuja fixação não

utiliza parafusos e sim encaixes e travamento tipo cunhas transpassantes. Ao valorizar a técnica construtiva do carro-de-boi, e transpô-la para uma escada de um museu, Lina Bo edifica uma ponte segura entre dois mundos: moderno e vernacular. Nada mais organicamente integrado através da sensibilidade da arquiteta.

488 Segundo Benjamim: “Definindo a aura como a “única aparição de uma realidade longínqua, por mais próxima que ela posa estar,”, não fizemos mais do que

transpor em categorias de espaço e tempo as fórmula que designa o valor de culto da obra de arte. Longínquo se opõe a próximo. O que é essencialmente que serve ao culto e ser inaproximável. Por sua prórpia natureza, ela é sempre “longínqua, por mais próxima que possa estar”. Podemos nos aproximar de sua realidade materaial, mas sem alterar o caráter longínquo que ela conserva desde sua aparição.” Cf. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. Revista Civilização Brasileira, São Paulo, ano IV n. 19-20 maio-ago, p. 251-286, 1968, (grifo nosso).

489 As esculturas Terra-Mãe são os exemplares remotos do Paleolítico superior e são representações de “religião e arte”. Cf. LÈVÊQUE, Pierre. Animais deuses

e homens:o imaginário das primeias religiões.Edições 70, Lisboa, 1985, p.46.

490 BARDI, Lina Bo. Teoria e filosofia da arquitetura. In. BARDI, Lina Bo. Lina por escrito: Textos escolhidos de Lina Bo Bardi. org. Silvana Rubino e Marina Grinover, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 81-86.

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92 24 - Ex-votos.

Fonte: Revista Habitat, n.11, p. 67-71, jun. 1953.

25 - Detalhe escada do MAP, 2002. Foto: Edite Galote Carranza

***

“D.Lina foi quem mais profundamente viu a força do aspecto da criatividade popular do Nordeste. Ela tematizou a força da cultura popular da região e, dizia muito claramente, não como folclore, não como documentação de um estilo exótico, divertido ou curioso, mas como verdadeira força cultural..

Caetano Veloso492

A cultura popular será sempre uma manifestação relativa quando apenas inspiradora de uma arte criada por artistas ainda sufocados pela razão burguesa. A cultura popular não é o que se chama tecnicamente de folclore, mas a linguagem popular de permanente rebelião histórica. Glauber Rocha493

Dona Lina, em Salvador, desempenhou o papel de agitadora cultural investigando, expondo e valorizando a cultura nordestina a fim de criar um movimento cultural. Assim, contribuiu para estimular as mentes brilhantes locais, como por exemplo: Glauber Rocha, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Wally Salomão.

G. Rocha foi muito próximo à Dona Lina, e em sua coluna (Diário de Notícias) comentava as ações do MAMB, esteve em São Paulo quando da montagem da Exposição Bahia no Ibirapuera494, frequentava regularmente o MAP, e mesmo não sendo funcionário, tinha lugar para escrever seus roteiros495. G. Rocha teria encontrado na cultura popular do sertão baiano a essência de seu cinema, e

aos vinte e poucos anos ocupou lugar na vanguarda do cinema mundial. Para Dona Lina, Glauber “era

um gênio e era nacional popular”496. Ela esteve presente nos primórdios do Cinema Novo baiano, quer

492 VELOSO, Caetano, texto de contracapa. In. BARDI, Lina Bo. Tempos de grossura: o design no impasse. São Paulo: coord. Marcelo Suzuki, Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, 1994.

493 ROCHA, Glauber. Estética do sonho. In. PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha textos e entrevistas com Glauber Rocha. Campinas: Papirus, 1996, p. 137. 494 RUBINO, Silvana Barbosa. Rotas da modernidade: trajetória, campo e história na atuação de Lina Bo Bardi, 1947-1968. Tese doutorado, UNICAMP, Campinas, 2002.

495 Ibidem, p. 156.

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