• No results found

End point analysis: gas and nitrite measurements

3. Methods

3.2 End point analysis: gas and nitrite measurements

sonho o poema de arquitetura ideal cuja própria nata de cimento encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair faíscas das britas e leite das pedras. acordo. e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo. acordo. o prédio, pedra e cal, esvoaça como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se, cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido. Waly Salomão308

A arquiteta italiana naturalizada brasileira Achillina di Enrico Bo Bardi (1914-1992)309 formou-se

architetto pela Faculdade da Arquitetura Universidade de Roma, em 1939, numa turma com apenas duas mulheres310, uma ousadia da jovem que desafiou a família e as convenções de seu tempo311. Seu trabalho de graduação, “Nucleo Assistenziale de maternità e infanzia” - na verdade uma “Maternidade para mães solteiras”312 - era um projeto moderno todo em concreto armado e vidro313, inspirado nas vanguardas internacionais dos CIAM, Le Corbusier e Walter Gropius314, que contrariava a tendência

clássica315 e acadêmica da Faculdade dos reitores Gustavo Giovannoni e Marcelo Piacentini que eram,

então, “arquitetos eleitos pelo fascismo”316. M.Piacentini aprovou a aluna com a ressalva: “uma bella

regazza’ que decerto se casaria e não exerceria a profissão”317. Uma aposta que não se concretizaria: a

architetto Achillina Bo, desde sua graduação, definiu uma postura profissional contestadora, moderna e sensível às questões sociais.

A jovem Achillina Bo, em 1940, transfere-se sozinha para a cidade de Milão, contra a vontade da família318, pois a cidade concentrava a produção de arquitetos modernos e para ela era o “centro

308 Trecho de “Fábrica do poema ‘in memoriam’ Donna Lina Bo Bardi” poema de Waly Salomão, um dos poetas ‘marginais’. In. RISÉRIO, Antonio. Avant-garde

na Bahia, São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, 1995.

309 Lina Bo nasceu na cidade de Roma, Itália, em 5 de dezembro de 1914, filha primogênita do engenheiro construtor e pintor Enrico Bo e Graziela Grazia. 310 Segundo Rubino na Universitá degli studi di Roma teria uma segunda aluna que desistiu do curso, contudo Lina Bo afirmaria ter sido a única aluna. Lina Bo teria contrariado os pais na escolha de uma profissão masculina, pois em italiano architetto não tem flexão de gênero até hoje. Cf. RUBINO, Silvana Barbosa.

Rotas da modernidade: trajetória, campo e história na atuação de Lina Bo Bardi, 1947-1968. Campinas,Tese UNICAMP, 2002,p. 45.

311 Segundo Rubino, o destino de uma mulher, romana, católica, burguesa nesta geração teria sido o de dona-de-casa culta e não de um architetto. Cf.RUBINO, Silvana Barbosa. Rotas da modernidade: trajetória, campo e história na atuação de Lina Bo Bardi, 1947-1968. Campinas,Tese UNICAMP, 200, p. 40. 312 Na época a faculdade era dirigida pelo arquiteto Marcello Piacentini (1981-1960) considerado um tradicionalista que defendia uma arquitetura de tendência histórico-classicizante, orientação valorizada pelo regime fascista. Segundo Rubino, nestas condições seria impossível revelar o real objetivo do projeto, contudo trata-se do desejo de transgredir. Cf. RUBINO, op. Cit., p. 47.

313 PEREIRA, Juliano Aparecido.Lina Bo Bardi Bahia 1958-1964.Uberlândia, EDUFU, 2008, p.19.

314 O Movimento Moderno, presente nas publicações de livros de Le Corbusier e Walter Gropius, revistas como a Casabella e Domus,bem como na atuação dos arquitetos modernos do Gruppo 7 Adalberto Libera e Giuseppe Terragni.

315 BARDI, Lina Bo. Curriculum literário.In. BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993, p.09-12 316 RUBINO, op. cit. p. 38.

317 RUBINO, op. cit. p. 39.

318 Lina Bo decide morar sozinha num hotel em Milão, contrariando sua família. Uma tia teria sido enviada para morar com ela em Milão. Posteriormente a família comprou um apartamento e se muda, também, para Milão, quando Lina Bo volta a residir com sua família. Ver: RUBINO, Silvana Barbosa. Rotas da modernidade: trajetória, campo e história na atuação de Lina Bo Bardi, 1947-1968. Campinas,Tese UNICAMP, 2002, p. 54.

______________________________________________________________________________________________________________

66

vivo das discussões sobre cultura e arquitetura moderna”319. Ela atuou primeiramente no escritório do

professor Gió Ponti - “líder do movimento pela valorização do artesanato italiano, diretor das Trienais de Milão e da Revista Domus”320 e posteriormente, com seu colega de faculdade Carlo Pagani, em escritório próprio que foi destruído num bombardeiro. Depois que “a casa do Homem ruiu na Europa”321, Achillina Bo entrou para a Resistência com o Partido Comunista Italiano - PCI, então na clandestinidade.322

Ao final da Segunda Guerra, ao lado de Bruno Zevi e Carlo Pagani, Achillina Bo funda e dirige a revista “A cultura della vita” um semanário de arquitetos “mas não só de arquitetura e não para arquitetos”323. Havia um desejo de contribuir para um recomeço italiano, expresso desde o primeiro

número, em 1946: “Devemos recomeçar do começo, da letra A, para organizar uma vida feliz, para

todos”324. A revista foi suspensa supostamente pela ousadia da editora Achillina Bo, em publicar um tema controverso e transgressor para um país católico - educação sexual325 e planejamento familiar. Tanto este artigo, quanto seu trabalho de graduação, denotam a preocupação da arquiteta com os problemas do universo feminino.

Achillina Bo foi uma mulher à frente de seu tempo, não propriamente uma feminista, como fora

entendido por Virgínia Woolf, em 1938326, mas responsável por um comportamento que transpôs limites

do papel social da mulher. Ela não se intimidou pelo fato de ser a única architetto de sua turma, morar sozinha, ou ainda, ser a única mulher na reunião política de reconstrução da Itália, dentre oitocentos

presentes, quando leu seu pronunciamento sobre a “Casa do homem”327.

319 BARDI, Lina Bo. Curriculum literário.In. BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. coord. Marcelo Carvalho Ferraz, 3ª. Ed.. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, Imprensa Oficial do Estao de São Paulo, 2008, p. 09.

320 Ibidem, ibidem. 321 BARDI, op. cit. p. 64.

322 Após a destruição de seu escritório em 13/08/1943 Lina Bo entra para o PCI, então na clandestinidade, e seu apartamento Eldorado torna-se ponto de encontro de artistas e intelectuais da esquerda italiana. Cf. BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. coord. Marcelo Carvalho Ferraz, 3ª. Ed.. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008, p.10 e Cf. RUBINO, Silvana Barbosa. Rotas da modernidade: trajetória, campo e história na

atuação de Lina Bo Bardi, 1947-1968. Campinas,Tese UNICAMP, 2002, p. 38.

323 BARDI, Lina Bo. Curriculum literário.In. BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993, p.09-12. 324 Ibidem, ibidem.

325 Segundo Bruno Zevi: “Porque A foi suprimido? Oficialmente, por causa de um artigo sobre educação sexual que resultou escândalo aos olhos do

obscurantismo católico lombardo. Mais intolerável seja para os conservadores que para a falsa esquerda esta atitude culturalmente e eticamente intransigente, politicamente avançada, com efeito revolucionáriao feitio constantemente transgressivo com o qual interpretávamos a realidade, os grandes eventos ideais e aqueles cotidianos.” Cf. ZEVI, Bruno. Un architetto intragitto ansioso. São Paulo, Revista Caramelo, n. 4, 1992.

326O termo possui variações no decorrer do tempo nas sociedades ocidentais conforme descreve Michele Barrett: “O feminismo pode ser definido como a defesa de direitos iguais para as mulheres e homens, acompanhada do compromisso de melhorar a posição da mulher na sociedade.” Em 1938, contudo, havia algo de provocador na palavra “feminismo” continua Barrett: “Em 1938 Virginia Woolf descreve de forma provocadora a palavra “feminista” como “um termo vicioso e corrupto que causou muitos males no seu tempo e hoje está obsoleto”. Cf. OUTHWAITE.W.; BOTTOMORE, T. 1º.ed. Dicionário do pensamento social do século XX.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p. 304-305.

327 Trata-se do encontro “Primo Convegno Nazionale per la Riconstruzione Edilizia”, realizado em dezembro de 1945. Cf. RUBINO, Silvana Barbosa. Rotas da

______________________________________________________________________________________________________________

67