No seguimento da distinção que foi discutida na secção anterior e das questões colocadas em torno da estrutura do bem-estar, referimos a associação da abordagem hedónica ao chamado bem-estar subjetivo e a utilização, muitas vezes indiferenciada, que se faz dos conceitos bem-estar subjetivo e felicidade.23 Por definição, o bem-estar subjetivo é entendido como a avaliação afetiva e cognitiva que fazemos da vida, cujas dimensões fundamentais são afeto positivo e negativo (no original, PA e NA, respetivamente) e a satisfação com a vida (Diener, 1984). A existência destas duas componentes tem reunido algum consenso sendo que, no final, são referidas três componentes fundamentais do bem-estar subjetivo (BES), a saber, satisfação de vida, níveis elevados de afeto positivo e níveis de afeto negativo baixos (Bradburn, 1969; Diener, 1984; Diener, Suh, Lucas, & Smith, 1999). A satisfação com a vida parece ser a componente mais estável ao longo do tempo e os traços de personalidade, extroversão e neuroticismo como um dos melhores preditores do BES (Diener et al., 1999). Apesar de alguns autores referirem a influência de aspetos como as variáveis sociodemográficas, de rendimento, entre outras, é um facto que a personalidade é aquela variável a que mais referência se faz quando falamos do bem- estar subjetivo (e.g., Barros, 2010), e que permite ajudar a compreender o porquê de pessoas nas mesmas circunstâncias expressarem níveis de felicidade diferentes.
23 A propósito da definição a felicidade e do bem-estar subjetivo, Barros (2010) sintetiza os principais “(...)
tipos de modelos na conceptualização do bem-estar subjetivo: 1) modelos de personalidade (...), que concebem a felicidade como um traço estável dependente primariamente da personalidade e por isso com pouca variação ao longo dos anos; 2) modelos dos acontecimentos de vida (...), que defendem o peso essencial dos diversos acontecimentos da vida e que podem fazer variar muito o nível de felicidade, se bem que tais acontecimentos positivos ou negativos sejam de algum modo controlados pela personalidade (...); 3) modelos adaptativos (...) defendendo que a pessoa se adapta rapidamente aos diversos acontecimentos de modo que pouca influência acabam por exercer." (p. 125)
Diener (1984) foi o grande impulsionador da investigação e divulgação desta abordagem, promovendo, juntamente com os seus colaboradores, alguns dos estudos mais referenciados sobre os fatores implicados no bem-estar. Depois dele, ou na sua colaboração, têm surgido dados de outras investigações que visam identificar e analisar as condições que levam a que algumas pessoas sejam mais felizes do que outras ou a sugerir formas de intervenção ou de promoção da felicidade. Um desses autores é Lyubormisky (Layous & Lyubomirsky, 2014), que tem um vasto conjunto de publicações sobre a felicidade dedicado às questões conceptuais, mas também operacionais ou de intervenção. A autora apresenta um leque de evidências em prol dos efeitos benéficos da felicidade (e.g., Jacobs & Lyubomirsky, 2013), como antes dela Diener et al. (1999) haviam indiciado, nomeadamente a nível do sucesso em vários domínios da vida, uma vez que a experiência de afeto positivo (que integra a felicidade) leva a que tendencialmente adotemos uma postura de aproximação (versus evitamento) relativamente aos outros e às situações, potenciando o desenvolvimento de recursos e competências.
No contexto português, os estudos de Albuquerque, de Lima, Matos e Figueiredo (2012), em torno do bem-estar subjetivo, da personalidade e também dos objetivos pessoais vêm reforçar a influência da personalidade no bem-estar subjetivo (nas suas três componentes, afeto positivo, afeto negativo e satisfação com a vida), nomeadamente no caso do neuroticismo, da extroversão e da conscienciosidade, por um lado, e dar apoio à multidimensionalidade do constructo e à relação entre as mesmas três componentes, por outro, ainda que independentes.
O nível de bem-estar percebido resulta, assim, do modo como o indivíduo se avalia (subjetivamente, portanto) relativamente àqueles indicadores, que habitualmente se encontram moderadamente correlacionados. Assim, o bem-estar ou a felicidade decorre, essencialmente, da ocorrência/perceção de afeto positivo e da ausência de afeto negativo (Ryan et al., 2008). Note-se, no entanto, que esta ausência dos aspetos negativos terá de ser olhada a partir da nossa matriz ocidental, pois que para outras culturas e religiões (e.g., culturas não ocidentais, filosofias como o budismo) o sofrimento constituiu uma fonte de desenvolvimento e crescimento pessoais. Bem sabemos que o entendimento do crescimento pessoal está associado ao bem-estar psicológico, mas a reflexão que os autores fazem vai para lá, porque a montante, da dicotomização dos tipos de bem-estar que, habitualmente, é feita.
Das condições para as consequências, encontramos autores que identificaram alguns dos efeitos da felicidade em dimensões relevantes da vida dos sujeitos, avançando com a possibilidade da bidirecionalidade na relação entre as origens e os resultados
da felicidade. Se é razoável considerar que determinados aspetos/dimensões da nossa vida ou traços de personalidade facilitam a predominância de um dado tipo de humor, também o é admitir o retorno positivo que a felicidade tem em áreas como a saúde (indicadores fisiológicos e psicológicos) ou a produtividade. Mais especificamente, o impacto das emoções positivas, dimensão em que a felicidade é aqui entendida, faz-se sentir diretamente com evidências de que as pessoas mais felizes são, igualmente, mais propensas a relações interpessoais significativas de qualidade e, em sentido geral, são mais sociáveis e "contagiantes" na sua felicidade, e indiretamente, pelo efeito que as emoções positivas parecem ter na capacidade
cognitiva e na estimulação de comportamentos potencialmente mais
eficientes/produtivos (e.g., de cooperação, motivação, etc.) (Boehm & Lyubormisky, 2009) ou na resiliência e satisfação com a vida (Cohn, Fredrickson, Brown, Mikels, & Conway, 2009).
É relativamente consensual que a felicidade acarreta um conjunto de aspetos positivos, facilitando o funcionamento cognitivo flexível e criativo, ou a concretização de relações significativas e de objetivos importantes para os indivíduos. Não obstante, uma questão se coloca sobre a existência de limites para estes efeitos positivos da felicidade. Haverá tal coisa como "felicidade a mais"? Aparentemente sim, ou, dito de outro modo, como uma boa parte das questões em psicologia, a frequência, intensidade ou duração destes estados parecem ser elementos, cautelosamente, considerados na resposta, separando o que é adaptativo ou aquilo que será funcionalmente excessivo.
De facto, a permanência de estados emocionais positivos nem sempre se revestirá de consequências (também elas) positivas, como referem Gruber e colaboradores (2011). A valência desses estados dependerá da valorização ou enquadramento que o contexto faz (grau de adaptação ou adaptabilidade), do nível experienciado pelo sujeito (ao moderado corresponderá um estado ótimo) e do balanceamento que é feito entre as emoções positivas e as negativas, utilizados aqui como indicadores de felicidade. Dos resultados apurados pelos autores, sobressai a ideia de que, quando toca a este tipo de felicidade, a manifestação de níveis muito elevados de emoções positivas e de relativamente ausentes ou diminutos níveis de emoções negativas, poderá ter consequências não desejáveis. Tal é válido em contextos regulares de funcionamento como em contextos clínicos. Situação diferente é o exercício de uma procura da positividade na vida (Catalino, Algoe, & Fredrickson, 2014) ou da saliência desta nas nossas vidas, dado que tal indicador parece ser preditor de componentes do bem-estar, como as emoções positivas, com os indivíduos com este perfil a
experienciarem mais emoções daquele tipo e mais recursos para lidarem com as situações. Ao contrário do que parece estar implícito à posição de Kashdan et al., (2008), que define o bem-estar simplesmente como um estado mental, e em que mais felicidade seria sempre significado de mais bem-estar, aspeto que, como acabámos de ver, nem sempre é um facto. Para Ryan e Huta (2009), críticos da perspetiva de Kashdan sobre o bem-estar (o qual, de resto, devolve a cortesia), o funcionamento saudável da personalidade não é linear, antes tem subjacente uma dinâmica organizativa que decorre da capacidade autorregulatória dos indivíduos, dimensão do funcionamento à qual uma abordagem puramente hedónica parece não dar particular atenção. Ainda assim, autores como Jacobs e Lyubormisky (2013) reconhecem que são as pessoas moderadamente felizes que têm níveis mais elevados em indicadores tradicionais de sucesso, como seja o rendimento, o nível de formação, do que aquelas “mais ou muito felizes”. Uma possível explicação para tal é a de que estas últimas estarão menos motivadas para melhorar a sua situação nesses domínios. É à capacidade mobilizadora do bem-estar subjetivo que Busseri e Sadava (2013) se referem quando o definem como um sistema de “agência”, de promoção de um funcionamento adaptativo. Diener et al. (1999) consideram o bem-estar subjetivo como uma medida da qualidade de vida (do indivíduo, da sociedade), a par dos indicadores económicos e sociais, daí considerar-se que é uma dimensão ou característica necessária, mas não suficiente, para uma “vida boa”. Podemos, por isso mesmo, encontrar diferenças individuais e societais em termos dos níveis de bem-estar subjetivo, uma vez que para ele contribuem desde a personalidade, à genética, passando pela valorização que os contextos fazem às emoções positivas, ou dos valores e objetivos individuais. Daí que à questão da universalidade versus especificidade do BES os autores respondam com um “meio caminho”.
Uma perspetiva que também considera aspetos da personalidade e o afeto positivo, mas que complementa com um outro racional o modo de encarar o bem-estar subjetivo, mais integrativa, é aquela que nos apresenta Lent (2004), cujos estudos que a validam nos dão informação relevante sobre o bem-estar subjetivo em contexto universitário e cujo Modelo de Bem-estar Subjetivo passamos a apresentar.