O sistema capitalista marcado pela desigualdade e exclusão não poderia desenvolver uma política de formação continuada de professores genuinamente emancipadora. Ao contrário, ela revela suas contradições quando no discurso defende o desenvolvimento da autonomia e da intelectualidade do professor, mas suas ações conduzem a práticas desarticuladas, individualizadas e desvinculadas da realidade escolar.
Ao discutir a questão, Freitas (2007) aponta algumas perspectivas interessantes para as políticas de formação continuada, entre elas, as que fomentem a capacidade de romper com a fragmentação das disciplinas desenvolvendo o trabalho coletivo e interdisciplinar; o fortalecimento da gestão democrática com a participação dos estudantes e de suas famílias; a redução do número de alunos por sala; a revisão dos currículos; o estudo e a avaliação das experiências pedagógicas que favoreçam as aprendizagens de todos os estudantes, entre outros.
Nesse sentido, as políticas precisariam garantir aos professores condições reais de desenvolvimento profissional, ampliando seu tempo de jornada de trabalho para os estudos e reflexões sobre as necessidades pedagógicas de seu espaço escolar, permitindo melhor articulação entre teoria e prática; fortalecendo o trabalho das direções, garantindo a permanência do profissional que articule os tempos de formação dentro da escola, aqui no DF correspondendo aos coordenadores pedagógicos, que também precisam de uma formação específica para contribuir para o trabalho docente; que as ações formativas sejam ampliadas para as demais áreas do conhecimento, não se restringindo às áreas de Português e Matemática; que as universidades tenham condições de promover maior interação com as unidades escolares, para que ao conhecerem suas necessidades e demandas possam contribuir para construir novos caminhos para a educação básica; por fim, que amplas discussões sejam organizadas para que os professores que atuam na educação básica possam contribuir para a
elaboração de novas políticas de formação continuada. Mesmo assim, essas mudanças não alcançariam as determinações gerais do sistema capitalista (MÉSZÁROS, 2011). Sem romper com a estrutura do capital, não se promove plenamente a transformação da educação e das políticas de formação docente. Mas há um campo em que se pode agir.
Um estudo de Tonet (2005) elucida esta questão ao colocar as limitações das mudanças no campo da educação dentro dos limites do capital. O autor defende que existem ações capazes de indicar uma perspectiva emancipadora para a educação e enumera alguns requisitos para a realização de atividades educativas com esse caráter emancipador, que podem ser sintetizadas como sendo aquelas capazes de desenvolver a apropriação do conhecimento acerca do processo histórico e das contradições da sociedade capitalista, que promovam o conhecimento da natureza específica da educação, em que os objetivos mais significativos sejam os de se atingir a emancipação humana e que promovam a articulação entre a educação e as lutas de todos os trabalhadores.
A emancipação é entendida pelo citado autor, conforme pressupostos do marxismo, como sendo uma nova forma de sociabilidade, para além do sistema capitalista, na qual os homens vivenciarão relações sociais marcadas pela igualdade, justiça e liberdade, em que o trabalho e a educação estarão plenamente articulados para a promoção do trabalho colaborativo entre os homens. Assim é colocada a questão por Marx (2010, p. 54):
A emancipação humana só será plena quando o homem real e individual tiver em si o cidadão abstrato, quando como homem individual, na sua vida empírica, no trabalho e nas relações individuais, se tiver tornado um ser genérico; e quando tiver reconhecido e organizado as suas próprias forças como forças sociais, de maneira a nunca mais separar de si esta força social como força política.
Como sinalização do que ainda precisa ser realizado para promover uma formação continuada de professores que se desdobre em resultados concretos de avanços para o enfrentamento dos desafios da educação pública, é preciso que se construam novos caminhos formativos, capazes de responder às necessidades e exigências das complexas e contraditórias relações sociais contemporâneas, na perspectiva de ações emancipadoras que apontem para uma nova configuração de sociedade, capaz de superar as desigualdades e injustiças.
Existem modelos de sociedade que se colocam de forma antagônica. Um é o capitalista, traduzido nas atuais políticas educacionais brasileiras, que tem promovido para o campo da formação de professores uma perspectiva ainda tecnicista, com a evidente dicotomia teoria e
prática, que reforça a responsabilização individual do professor para o sucesso ou o fracasso da educação pública e que se apoia em ações que desvalorizam a profissionalização do magistério.
O outro é o modelo que se desenha a partir das ideias de Marx e continuadas nos estudos de Lukács, o qual defende para a educação um caminho de emancipação para seus profissionais e seus estudantes. Este é pautado nas relações sociais horizontais, na promoção do trabalho colaborativo, no fortalecimento da coletividade e das ações educativas que alcancem todos os estudantes. A educação formal não será a responsável pela superação do Capital, porque este lugar pertence à classe trabalhadora em suas lutas sociais por justiça e igualdade. Mesmo assim, a importância da educação se coloca como estando na mediação capaz de aprofundar o debate em torno da necessidade de uma nova sociabilidade que supere a condição atual dos homens.
No próximo capítulo, apresento os dados empíricos desenvolvendo uma análise sobre a realidade de trabalho dos coordenadores e o que eles pensam sobre o alcance das ações formativas realizadas para sua formação continuada, para em seguida compor novamente um quadro do alcance real das políticas para o contexto de trabalho dos coordenadores que atuam na rede pública de ensino do DF, em escolas de anos finais do Ensino Fundamental.