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Perspektiver på situasjonen i Libya

Opprøret i Libya i 2011, internasjonal respons og etterspill

4.4 Perspektiver på situasjonen i Libya

Estabelecida que está a importância do medium na constituição, tanto do psiquismo individual quanto social, examinam-se as características intrínsecas das diversas técnicas. McLuhan encontra o critério da dis- tinção na oposição “quente” e “frio”, termos que vai buscar à lingua- gem popular americana, que os utiliza para se referir ao jazz “quente” de Nova-Orleães, dos anos trinta e quarenta, um jazz de improvisa- ção, e ao jazz “frio” de Miles Davis, mais subtil. Os termos são ainda utilizados popularmente para distinguir uma piada “quente”, diríamos picante, que é bastante expressiva, de uma piada menos explícita e mais sugestiva. Parece ser, portanto, o imediatismo da experiência a infor- mar o critério do quente e do frio, já que é aí que o calão encontra a sua raiz, e não tanto numa teoria69. Obviamente que as categorias em apreço saem relativizadas, com o tempo entram em desuso, e o que hoje pertence a uma categoria amanhã pertence a outra70. A lingua- gem popular pode tornar-se, assim, como o primeiro indicador de que qualquer alteração ocorreu ao nível perceptivo.

68Mcluhan esclarece que o juízo provisional de que o artista é dotado consiste

em concentrar-se nas mudanças, no que decorre, no processo para prever os efei- tos. Compara a actividade do artista à do psicanalista porque ambos se orientam pelos contornos dos procedimentos. O juízo da descoberta que acompanhou o cien- tista moderno, o poeta simbólico e o romance policial difere do juízo provisional. Neste último parte-se do efeito para a origem, passo a passo, e encontrando-a pode manipular-se, obter-se o efeito desejado. Cf. Idem, La Galaxie Gutenberg, p. 58; Idem, Comprender los medios, p. 83.

69Sobre a distinção e a perplexidade desta distinção deixada aos académicos, cf.

José Rodrigues dos SANTOS, Comunicação, Lisboa, Difusão Cultural, 1992, p. 75).

70“Quente” significou, primeiramente, que as pessoas estavam profundamente en-

volvidas, por exemplo, ao usar-se “argumento quente”, e “frio” para significar algo de objectivo, por exemplo, “atitude fria”, que constituía nobreza de carácter. Depois esta mesma frieza passou a significar falta de envolvimento. Com o termo quente sucede o mesmo. Porém, o que está em causa é indicar o grau de compromisso e participação nas situações.

Mcluhan reparte todos os media por estas duas categorias. O prin- cípio básico de distinção adiantado é o de que no meio quente um só sentido domina totalmente a situação. Um único sentido basta para comportar grande informação e deixar pouco para completar. Ao invés, o meio frio especifica um compromisso e participação na experiência que envolve todas as faculdades humanas. Implicitamente, segue-se a ideia de que a riqueza em informação varia em sentido inverso à da qualidade da participação71. Entre o meios quentes figuram a rádio, o cinema, a fotografia, o alfabeto fonético, a leitura, a imprensa, o livro, o papel, a atitude urbana, a valsa, por sinal a maioria das técnicas re- lacionadas com a idade mecânica. Entre os meios frios contam-se o telefone, a televisão, a fala, a escrita hieroglífica, a escrita em ideogra- mas, a conferência, o diálogo, os meios pesados e pouco moldáveis, como a pedra, a atitude rústica, o twist, por sinal técnicas afectas a uma idade eléctrica e a uma idade tribal.

O meio quente e a sua ambiência, em termos genéricos, está ade- quado à era de forças mecânicas e repetitivas, que engendra a técnica especializada. Tome-se o exemplo do material impresso, de padrões uniformes, o mesmo que é responsável socialmente pelas experiências intensas e que produzem um sentimento de choque contra as estruturas existentes. Fazem-nas entrar em colapso, como explica, sejam experi- ências pessoais, por exemplo, a inadaptação da mulher à explosão das tarefas domésticas em lavandarias, padarias e hospitais, sejam experi- ências colectivas, provocadas pela introdução do dinheiro ou da roda72. Qualquer meio especializado fragmenta a estrutura, produz o pâ- nico. A sua entrada em jogo vem produzir um impacto perturbador de ordem exclusiva, faz-se acompanhar da ideia de atraso, remediável ape- nas, nas palavras de Margaret Mead, citadas em Understanding Media, se se “alterar de uma vez só o padrão inteiro e o grupo por completo”73. A máquina impõe um movimento que as sociedades têm de imitar. O

71Marshall MCLUHAN, Comprender los medios, p. 43. 72Ibidem, p. 44.

desenvolvimento surge explicado como uma alteração uniforme. Tem sentido, na sequência, enfrentar o meio por ser programável, por uma questão de controlo, sendo a sociedade industrial uma sociedade de dominação. Mcluhan refere como exemplos a prática dos clubes britâ- nicos de excluírem dos debates temas polémicos e o facto verificado no Renascimento com o nascer da influência da imprensa, tendo cortesãos e cavaleiros adoptado a postura da indiferença. A estrutura mecânica é compacta, configura situações que podem ser pobres em participação, mas rigorosas nas suas exigências.

Os meios frios, contrariamente, caracterizam-se por serem de baixa definição, ou seja, informam pouco relativamente ao que deixam para ser completado pelo ouvinte, telespectador ou utilizador. Insistem no processo, na construção da informação, por isso são inclusivos. Re- ferem o improviso, que por definição é de implicação profunda e de extensão integral. Os meios frios são perspectivados como possuindo uma estrutura mais dispersa, permitem que a variedade da experiência humana se expresse. De acordo com Mcluhan, as técnicas frias ou se situam na fase tribal da história humana, aquela onde reina a comuni- cação oral, onde o homem espontaneamente faz uso da totalidade dos sentidos, harmoniosamente, ou numa terceira fase, a da electricidade. Em ambas, o mundo é pequeno e supera as divisões, vive da coesão.

Explorando a imagem televisiva como meio frio e confrontando-a com materiais quentes, Mcluhan chega a conclusões que a diferenciam no aspecto técnico, no tipo de programação que se lhe ajusta e nas mudanças que realizam. Admite que esta implique em profundidade, comprometa o telespectador, dado que frente a ela se está à ordem de estímulos sensoriais envolventes e totais. Nenhum sentido fica de fora, são-lhe entregues todos. Do lado oposto, o material impresso, de pa- drões uniformes e a exigir rápido movimento linear, apenas requer a faculdade visual. Aqui a totalidade dos sentidos é refutada a favor de uma exclusividade. Mcluhan assinala que com a televisão o espectador é bombardeado com impulsos luminosos que penetram na zona sub- consciente da psique humana. A abundância, no entanto, não é sinal

de riqueza de informação, apenas se obtém dela a formação dos con- tornos das coisa e em descontínuo. Os sentidos não captam os milhões de pontos por segundo emitidos. Ainda, para o espectador formar uma impressão é ele que efectua a redução de elementos. Por outras pala- vras, o telespectador é quem detém o controlo técnico da imagem. E a ele cabe reconfigurar conscientemente os elementos que lhe são forne- cidos em mosaico, sem terceira dimensão. Pormenoriza pouco o que mostra e fornece pouca informação74. Deixa muito para fazer a quem vê75.

A fotografia e a imagem do cinema são mais ricas em informa- ção. A imagem do cinema oferece muitos mais milhões de informações por segundo e o espectador não tem de construir a imagem, tem só de aceitá-la76. Além disso, a imagem do cinema e da fotografia fomentam a ilusão da terceira dimensão. A participação sensorial em televisão é de natureza convulsiva, táctil e cinética. A rádio pode funcionar como fundo ou controlo de ruídos, mas a televisão não funciona assim, tem de se entrar nela77. Um outro dado ressurgido do confronto enfatiza quanto a imagem da televisão contribui para unificar a vida sensorial e imaginativa, dilacerada, encontrando-se os sentidos separados e frag- mentados pela cultura alfabetizada do ocidente.

74Esta central falha de percepção por parte da televisão leva Mcluhan a criti-

car os críticos dos seus conteúdos, aos quais aqueles acometem grande violência. Mcluhan responde: “Os porta-vozes das opiniões censuradoras são os indivíduos semi-alfabetos do livro, totalmente ignorantes das gramáticas dos jornais, da rádio ou do cinema e que, além do mais, receiam outro meio que não seja o livro”, Ibidem, p. 320-321.

75É aplicável a frase de Heinrich Hertz, frequentemente citada por Mcluhan: “a

imagem da consequência é a consequência da imagem”. O telespectador da televisão é o ecrã, é nele que a imagem se projecta. Cf. Idem, Guerra y Paz en la Aldea Global, p. 24.

76Daí a questão perceptiva se colocar. A percepção é um continuum de informa-

ção, não apresenta rupturas, por isso não tem de haver intervenção do espectador na ligação das imagens.

77Os jovens utilizam o som da rádio para estudar, quer dizer, para se rodearem de

À partida, uma e outra categoria técnica incompatibilizam-se. No entender de Mcluhan, não se lê um jornal como se vê televisão. A televisão tem tudo para chocar o indivíduo alfabetizado, de pontos de vista fixos e visão em perspectiva78. Devém um meio incompreensível aos que estão condicionados pelo meio quente do jornal, por exem- plo, centrado no confronto de opiniões, não tanto na implicação em profundidade na situação. A televisão, refere Mcluhan, não impõe uni- formidades, políticas, linguísticas, não incita à revolução. Não é um instrumento de aquecimento, de frenesim de sociedades, como o é a rádio nas sociedades africanas, índias ou chinesas79.

A televisão, ao contrário do jornal, não é vista como um meio ade- quado para os temas quentes nem para polémicas definidas. Ela matou o rigor. Opina Mcluhan que as declarações no meio frio tendem a ter a forma de aforismos e alegorias e que a imprensa, por seu turno, expande a expressão, deletreia os significados. Este meio deixa muito menos tra- balho para o leitor. O mesmo, dirá Mcluhan, acontece no livro, no qual as situações estão completas, à excepção dos policiais80. As mudanças em televisão paralelizam com as mudanças em pintura, nomeadamente através de Cézanne, do movimento Bauhaus, de E.A. Poe, Baudelaire, Valery, T. E. Eliot, referirá Mcluhan, para quem os esforços desenvol- vidos, no âmbito da arte, captam que a dinâmica eléctrica implica a participação e a criatividade do público, é geradora de preferências que se afastam da uniformidade e repetição da alfabetização81.

Mcluhan prova a força subliminar da imagem televisiva ao dissemi-

78O uso de meios frios em culturas quentes, como o uso da televisão no mundo

alfabetizado, ou o uso de meios quentes em culturas frias, como por exemplo o uso da rádio em culturas não alfabetizadas, têm efeitos violentos. Mcluhan diz nesta análise que o humor e o jogo, imitando situações da vida real, podem equilibrar a tensão que daí resulta. Idem, Comprender los medios, p. 50-51.

79Ibidem, p. 316-317. 80Ibidem, p. 316; 325.

81Tal será inteiramente devida às estruturas não visuais da arte pós-moderna, bem

assim como da Física. A pouca objectividade dos resultados destas é a prova de que não se trabalha já na extensão do poder visual. Ibidem, p. 338.

nar por todo o âmbito da actividade humana o seu poder. Da maneira entusiasta como a analisa é-se levado a crer ser o meio frio central por excelência e o que melhor pode desbloquear as resistências que o ambiente mecânico cria ao ambiente eléctrico nascente. Da ligação à preferência por carros pequenos, à música de Schoenberg, Stravinsky e Bartok, passando pela educação e pela roupa, entre outros, a vertente corporativa, táctil, o investimento no profundo e simultaneamente no trivial, tudo se converte em desprezo pelos efeitos visuais das linhas quentes tipográficas, fotográficas e cinematográficas.