Den norske beslutningen om å delta i Libya-operasjonen
6.2 Regjeringens situasjonsforståelse medio mars 2011
De acordo com o apresentado, mediação e imediação ligam-se e são recíprocas. A mediação fica a dever o seu ser à imediação, do mesmo modo, a imediação sofre a mediação para ganhar o estatuto de ser. Numa formulação geral do problema, entre uma e outra supõe-se exis- tir uma relação. Porém, pelo que a história da cultura nos revela, é constatável o contrário. Com efeito, o mundo contemporâneo deseja viver como se não existisse fronteiras quer espaciais quer temporais.
O desejo de imediatidade, tornado visível na actualidade pelo ci- berespaço, um espaço universal suportado tecnicamente, onde todos os espaços particulares se fundem, realiza o sonho do pensamento te- ológico cristão de criar uma comunidade unida, assim como o sonho do pensamento filosófico idealista de dialecticamente aceder à figura racional da Totalidade. É graças ao pensamento moderno, técnico- científico, que a técnica potencia o desígnio de imediação, paradoxal- mente afastando-nos cada vez mais da natureza. Ainda que a mesma técnica tivesse posto em causa, progressivamente, a função medial da palavra, e com ela o sistema da representação e do simbólico. O que outrora fora baseado na separação do referente e do signo, com a lógica a fazer a ponte, passa a ser trabalhado mecanicamente, com a particula- ridade de se produzir a coisa, precisamente, no momento de a enunciar. A estratégia de controlo do referente pelo signo, correspondendo este último a uma miniaturização do primeiro, essência da metafísica
ocidental, entra em crise. A máquina parece absorver além da tarefa criadora também a tarefa reflexiva. Tudo ela parece substituir. Todavia a euforia conduziu à disforia. Os regimes artísticos, morais, políticos contemporâneos são pejados de propostas de mediação. Nos seus limi- tes interpõem-se um sem número de mediações.
Eis-nos a ter de voltar a privilegiar a experiência, como adverte Adorno226. A experiência é o lugar onde o homem radica e de onde parte qualquer sua reflexão. É a ela que tem de ser concedida primeiri- dade na ordem ontológica. Morar ao lado das coisas é a condição que resta, porque o que o homem tem feito é trabalhar especulativamente a experiência de maneira a desaparecer nela227. Por isso, a sociedade do espectáculo de Guy Debord ainda não se esgotou, mudou de lugar, e a expressão de Adorno também ainda não perdeu força, porquanto o humano continua a oprimir a natureza aos seus fins, a devir, portanto, parte do que ele julga domar, mas a sucumbir228.
A cultura é o grande espelho do que o humano realiza no plano das mediações, é vista como o palco onde a falência e a promessa das me- diações acontece ao longo do tempo. Porque as mediações sucedem-se, sem desaparecerem, acumulam-se, e as mais recentes acordam o sen- tido das mais antigas, tornando-se estas as mais novas. As criações cul- turais têm sido organizadas em torno de determinadas figuras, é certo, que assumem o papel de figuras chave na orientação. Ilusórias, dando a sensação de ter tudo sob o seu domínio. Olhamos para a cultura como sendo o devir do agir livre do homem. Na cultura ele não se experi- menta submergido, antes emergente. O que cria é possibilidade da sua liberdade. Mas, conhecido o fascínio que qualquer bem cultural pode exercer sobre o sujeito, a liberdade tem de ser também expurgação do carácter fixista, contínuo e déjà-vu narcotizante que os referidos bens transportam.
A actualidade mediológica traz à liberdade novos confrontos, resul-
226Ibidem, p. 39. 227Ibidem, p. 150. 228Ibidem, p. 144.
tantes do apoderamento mágico por parte da técnica. O aparecimento de instrumentos que acompanham o comportamento da vida para com ela interagir, levanta, pelo menos, duas questões: uma, a falta de dis- tanciamento necessário para a consciencialização do acontecimento; outra, a tenuidade da fronteira entre a vivência virtual e a vivência na- tural, ao ponto extremo de alguém preferir a virtualidade do seu existir e o dos outros. Os artistas, hoje, comprometidos com as novas téc- nicas, têm um papel interventor nessa área. Assim como Paul Klee, Mondrian, Duchamp, Malevitch, entre outros, utilizavam a arte para dar forma visível a fenómenos invisíveis, também os artistas envol- vidos em projectos com as técnicas mais avançadas, designadamente os computadores e os satélites, procuram agitar os participantes, acor- dando neles uma atitude de desassossego, de perturbação a diversos ní- veis, tais como saberes, ambientes, novos modos de conhecer, de agir e de sobreviver. Frank Popper diz que as relações entre a cultura e as novas técnicas têm “a intenção precisa de fazer nascer um propósito cultural original e com sentido, sem que a incontornável tecnociência tomasse a frente da cena”229. A arte busca, na época governada pelas novas técnicas, contribuir para a descodificação e utilização das no- vas mensagens. Considera Frank Popper que o artista tem no final do séc. XX uma função primordial: “deve pensar e apreender as aplica- ções dessas descobertas no quotidiano muito mais que um cientista”230. Se é muito mais livre de aplicar a sua imaginação que qualquer outro, isso impõe-lhe a responsabilidade da lucidez. A interpelação do artista vem-lhe de, primeiro, todas as zonas da vida social serem invadidas pelas novas técnicas, segundo, pelo facto de não se poder encontrar em experiências anteriores a solução à maneira como enfrentar esses ob- jectos novos. A estética, estando ligada a novas experiências, pode ter um contributo decisivo no encarar as novas técnicas no dia-a-dia.
229Frank POPPER, “As Imagens Artísticas e a Tecnociência (1967-1987)”, André
Parente (org.), Imagem Máquina, Editora 34, p. 207.