III. Redegjørelse for endringer i liturgiene
2. Perioden 1920 – 1977
experiência no magistério. Ele é dos poucos que fez sua licenciatura em Química em universidade pública federal. Atua em quatro escolas particulares e dá mais de 36 aulas por semana. Além da docência, Valter exerce outra atividade remunerada. Sua renda familiar é de cerca de dois salários mínimos por pessoa.
Enquanto a fala da professora Ana, por exemplo, é bem marcada por um gênero oral- narrativo, centrada no plano das relações pessoais e institucionais objetivas, a fala de
Valter é marcada por um tom reflexivo conceitual bem próximo do gênero acadêmico, com o locutor situando-se na “posição do terceiro”, daquele que busca a compreensão “objetiva”, “científica” (BAKHTIN, 1970-71/2000, p. 384). As tensões entre teoria e prática e entre conceitual e contextual no ensino de Química fazem parte do embate central que se dá em seu discurso, entre a voz do ensino tradicional e a voz da inovação, ou “nova metodologia”, como ele diz.8
A troca de experiências com outros professores de Química e a apresentação de uma “nova metodologia” foram os dois pontos positivos do Programa destacados pelo professor Valter. A discussão dessa nova metodologia constituiu-se na tônica da entrevista.
9. Mu: Do que você gostou mais no Programa?
10. Val: O que eu gostei. (+) Primeira coisa foi a interação com outros professores, aquela troca de experiências. /.../ A outra parte foi com relação a essa nova visão, essa nova metodologia; vamos ensinar isso, como ensinar aquilo; então essa nova metodologia também foi mais importante também no meu ponto de vista; porque a gente deixa de ser aquele professor de cuspe e de giz e passa a fazer de vez em quando uma coisa soltar fumaça, mudar de cor.
Conforme Valter indica no final do turno 10, a adesão à nova metodologia de ensino permite uma mudança de identidade do professor: “a gente deixa de ser aquele professor de cuspe e de giz e passa a fazer de vez em quando uma coisa soltar fumaça, mudar de cor.” De forma irônica, Valter representa, nessa afirmativa, as duas vozes do par ensino tradicional e inovação no ensino de Química: a aula expositiva, no quadro negro, e a aula com atividades experimentais. Percebe-se uma tensão muito grande entre a sua
própria voz e as outras duas que se polarizam: se, por um lado, com tom irônico, Valter rejeita/desqualifica as duas vozes, por outro, no conjunto do turno, ele procura estar de bem com ambas.
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A oposição que se estabelece entre conceitual e contextual e entre teoria e prática no discurso do professor Valter não reflete, em nosso entendimento, a posição assumida pela proposta curricular apresentada em 1997. Na apropriação que Valter faz da voz da inovação, ele reacentua o sentido de
tratamento teórico como algo que se oporia às propostas de inovação. No texto da nova proposta,
entretanto, é explicita a diferença entre tratamento conceitual (teórico) e transmissão de definições (esta, sim, uma posição combatida na proposta). De acordo com a proposta, tal como apresentada no Capítulo
Um pé no novo e um no velho!
Ao longo do discurso de Valter, a polêmica entre o ensino tradicional e a nova metodologia se enriquece pela presença de nuanças: primeiramente, a nova metodologia é melhor e o ensino tradicional é identificado com “decoreba”; no meio da entrevista, Valter modera seu posicionamento e considera que a nova metodologia não deve ser mal interpretada: não “vamos rasgar o livro do Feltre”; por fim, à nova metodologia resta uma importância secundária: “mês que vem eu prometo fazer um negocinho diferente”.
O turno 27 marca o início da virada.
27. Mu: Essas novas idéias tomaram conta de seu trabalho por inteiro ou você faz isso em um bimestre, no outro dá aula expositiva? Nós somos de uma tradição de aula expositiva.
28. Val: Essa sua pergunta foi legal e acho que é uma pergunta que você deve vincular. Eu até falo isso com os meus alunos: eu estou com um pé no novo e tô com um pé no velho. Infelizmente eu tenho essa ligação. Não sei se é infelizmente.
A voz do ensino tradicional é atacada, esvaziada e abandonada ao longo da entrevista. No final, contudo, ela emerge vigorosa, uma vez que é ela que vai possibilitar o sucesso posterior dos estudantes. Pelo conjunto das falas de Valter, parece-nos que os princípios do “alto nível”9, comprometido com uma aprendizagem dirigida ao futuro – o sucesso em concursos - e o da “Química interessante e divertida”, voltada para a motivação imediata e para assegurar uma boa participação dos alunos nas aulas, estão na base do conflito que se expressa na apropriação que esse professor faz da voz da inovação. Dentre os professores entrevistados, Valter destaca-se por atuar em escolas particulares. Esse aspecto parece influenciar decisivamente a conformação do “campo de forças” em
3, o teórico e o experimental (e também o conceitual e o contextual) deverão ser articulados na construção do conhecimento químico escolar.
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A expressão “alto nível” é utilizada por professores de química para qualificar o ensino supostamente feito com alto grau de correção e grande profundidade conceitual. O que percebemos, no entanto, é que essas características acabam sendo confundidas com uma abordagem que privilegia uma grande quantidade de conteúdos e não necessariamente o aprofundamento conceitual. Percebe-se, ainda, que os que defendem o “alto nível” costumam desconsiderar as dimensões pedagógicas e contextuais do ensino de Química, o que aproxima o seu significado do de “conteudismo”, que será comentado na nota 11.
que se dá, com Valter, a tensão entre ensino tradicional e inovação. A visão empresarial, centrada na satisfação dos clientes e na propaganda baseada em desempenhos e resultados favoráveis, pode ser percebida em diferentes momentos de sua enunciação.
De um modo diferenciado, Valter apresenta os elementos de seu discurso de forma bem coordenada, organizados no interior da “nova metodologia”. Por conta disso, na próxima seção, ainda que vários dos temas arrolados se façam presentes em sua fala, colocaremos praticamente toda a discussão relacionada ao professor Valter no item Uma “nova metodologia”. Situação parecida se dá no discurso da professora Laura.