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O professor Jorge tem idade entre 40 e 50 anos, é solteiro e também faz parte do grupo com menor experiência no magistério. Ele fez sua licenciatura em Química em faculdade particular e cursou uma outra graduação em uma universidade pública federal. Ele é professor efetivo na rede pública estadual, em duas escolas, totalizando 36 aulas semanais. No ano da entrevista, entretanto, Jorge estava ocupando cargo de direção numa das escolas e licenciado da outra. Sua renda familiar está na faixa correspondente a cerca de quatro ou mais salários mínimos por pessoa. Jorge tem uma carga horária significativa em outros eventos de formação continuada, superior a duzentas horas e está entre os três professores que apresentam hábito de leitura mais intenso e regular. Ele destaca-se também como o único que aparece com uma vida cultural mais intensa, em termos de freqüência a espetáculos e sessões de cinema. Sua mãe é das poucas, em relação ao grupo considerado, que concluiu o Ensino Médio.

Ao longo de toda entrevista, o professor Jorge enfatiza, reiteradamente, a falta de condições de trabalho nas escolas, referindo-se de modo especial, à ausência de laboratório. Em seu discurso, Jorge esvazia/deslegitima a voz da inovação, uma vez que, para ele, antes das propostas inovadoras, as condições das escolas, e de trabalho de

professores e estudantes deveriam ser melhoradas. Conforme afirma, sai-se desses cursos com propostas que “não dá para aplicar na escola, já que as turmas são grandes e não há laboratório e material para a realização de experimentos.” O tom e o teor do discurso de Jorge parecem dever-se, em boa medida, à posição de diretor de escola que ele ocupava na ocasião da entrevista.

Eu gostei muito do Programa mas...

Uma seqüência de negação da voz da inovação na fala de Jorge é marcada pelo uso do conectivo argumentativo mas, que, de acordo com Maingueneau (1989), coloca dois interlocutores (e não dois conteúdos) em oposição.

13. Mu: O quê que você lembra assim do jeito que as coisas aconteceram, como foram encaminhadas, que tipo de atividades foram realizadas, como é que era, como é que as coisas / 14. Jor: Então, com relação ao Programa em si, eu acho que muito do que foi passado lá, quer dizer, uma parte do que foi passado, acho que é bem prático pra gente levar pra sala de aula, pro dia-a-dia da sala de aula, mas muitas outras coisas também eu acho meio complicado de passar pro aluno, porque às vezes até exigia equipamentos mais sofisticados, coisa que a gente não tem disponível, a gente não tem nada disponível /.../ a nível de sala de aula. Então acho que poderia ser um pouco assim, eu não sei em que pé que está, se eles mudaram alguma coisa, se está seguindo a mesma linha do que foi, talvez, acho que sim, não deve ter mudado nada, os módulos, cê sabe, né?

/.../

20. Jor: Eu lembro que a gente até participou de um módulo também sobre laticínios, a gente elaborou uma (+) uma apostilinha a respeito de aulas práticas, interessante trabalhar com isso. AGORA (+) é o que eu estava te falando: muita coisa lá fica meio distante da realidade, parece que a universidade, ela esquece um pouco como é que está a situação real das escolas (+) PÚBLICAS.

21. Mu: Você lembra de atividades que você acha que não são adequadas e outras que você acha que daria (+) pra trazer pra escola (+)?

22. Jor: Olha, aquele módulo lá, primeiro, parece que foi da densidade, acho ele super legal, super prático, fácil de conseguir o material, mas eu acho que ficar deslocando esse material toda aula, para uma sala de aula cheia, né?, eu acho que fica meio complicado, acho que a Química em si tinha que ter um espaço pra ela na escola, uma sala pra ela, né?

23. Mu: [ela está muito ligada aos materiais...]

24. Jor: /.../ Mas de certa forma, eu gostei muito do Programa, eu acho que foi muito válido, tem mais é que ter mesmo, sempre, isso, mas que tenha condições depois de ser aplicado, né?, porque senão chega depois a gente até esquece, como eu esqueci. /.../

Há, de acordo com Jorge, uma questão maior e anterior à inovação curricular ou metodológica: prover a escola de condições materiais, especialmente para o ensino

experimental de Química. Além disso, a universidade está alheia à situação real das escolas. O professor Jorge afirma ter gostado do Programa:

- MAS muitas coisas são complicadas para passar para os alunos, às vezes exigindo equipamentos que as escolas não têm;

- tem um módulo fácil de fazer MAS não dá para ficar transportando material experimental de uma sala para outra, deveria haver um laboratório;

- AGORA (ou, MAS) muita coisa lá fica meio distante da realidade, parece que a universidade esquece como é que está a situação real das escolas públicas;

- MAS tem que ter condições para sua aplicação nas escolas, senão o professor até esquece o que viu no Programa.

A consciência da precariedade das condições de trabalho nas escolas parece sustentar, como um princípio, a rejeição da inovação e o seu esquecimento.

Em outro momento, Jorge contrapõe mais uma vez as proposições do Programa às condições das escolas estaduais. Surge outro “mas”, dessa vez separando as mudanças no pensar das mudanças no fazer.

55. Mu: /.../ o Programa deixa alguma coisa pra você, cê fica com, ele deixa marcas no seu modo de pensar, de trabalhar na sala de aula?

56. Jor: De maneira de pensar fica sim, fica sim, MAS na maneira de trabalhar é o que eu te falei. Acho que é necessário primeiro dar um apoio nas escolas, estruturar as escolas (+) primeiro, acho que a questão primordial é essa.

4.1.1.3. Professor Valter: teoria versus prática, no reino da nova metodologia