A professora Ana é casada, tem menos de 35 anos de idade e está no grupo com menor experiência no magistério. Ela fez sua licenciatura em Química em uma faculdade particular. Como professora contratada na rede estadual, Ana atua numa única escola, onde dá menos de 18 aulas por semana. Sua renda familiar ocupa uma posição intemediária, situando-se entre dois e quatro salários mínimos por pessoa. Sua mãe é das poucas, em relação ao grupo considerado, que concluiu o Ensino Médio.
Revezam-se, na fala da professora Ana, as vozes contraditórias da negação e da aceitação da inovação proposta para o ensino da Química, numa interconversão de discurso de autoridade em discurso persuasivo, e vice-versa. Do lado da aceitação, Ana se refere especialmente à abordagem de temas do dia-a-dia. Contudo, a negação parece falar mais alto. Enquanto a nova proposta curricular preconiza um ensino interativo e de construção de conhecimentos, a visão de Ana é, predominantemente, de transmissão- recepção de conteúdos. A supremacia dos conteúdos químicos aparece como princípio organizador da percepção que Ana tem de docência e de formação continuada. Qualquer sacrifício no conteúdo é perda de tempo, tanto quando ela é aluna no “programa de capacitação” como quando ela é professora na escola. Quando ela é aluna no Programa,
considera que o importante é receber conteúdo e reclama da perda de tempo com produção de material didático.
44. Ana: O que eu gostei mais foi o material, ótimo. Material muito bom. E o que eu gostei menos foi, tipo assim, ficar perdendo tempo em montar trabalhos lá, né?, montar trabalhos, procurar reportagens interessantes, então, isso foi que eu gostei menos.
66. Ana: [...] eu tava lá com o material, por exemplo, movimento de elétrons, aí eu poderia ter estudado isso aqui mais, aprendido mais, enquanto eu estava tentando falar sobre combustão. 67. Mu: Sei.
68. Ana: Entendeu? Porque é um tema que nós escolhemos, a minha equipe. “O que é combustão, por que, pra que serve, de onde vem, qual reação que acontece, o quê que é liberado?” Então, em vez de eu estar pensando nisso, eu poderia estar aprendendo coisas do dia- a-dia pra mim trazer, entendeu? Em vez de ficar abitolada num tema só, uma semana. Por que foi assim: de manhã vinha a apostila e a tarde deixava livre pra você montar. É bom, é interessante você pegar livros, olhar, ler, entender sobre o assunto, tudo bem, e além de combustão você encontra outro que te chamam atenção também. Mas eu acho, Murilo, que nós temos pouco tempo, entendeu? Nós estamos buscando, assim, urgente, coisas do dia-a-dia que você precisa aprender. E esse negócio de LEITURA, tá certo, montar é muito interessante, você montar; tem até uma professora que ganhou, um dos melhores trabalhos foi dela, ela é até Bioquímica.
A voz que fala nesses fragmentos parece remeter-nos para a situação de formação inicial nos cursos de licenciatura onde predomina a ênfase nos conteúdos químicos como elemento legitimador do futuro professor. É pela ‘Química’ e não pela ‘Pedagogia’ que um professor de Química irá se destacar. Sendo assim, persiste na professora Ana, como um princípio, a busca pelo domínio e ampliação dos conteúdos químicos. Além disso, tais conteúdos, na forma como são normalmente veiculados na formação inicial, fazem parte de um discurso de autoridade que o aluno deve aceitar em bloco. Nas disciplinas de conteúdo não costuma haver muito espaço para outras vozes e mesmo as formas dialógicas que subjazem ao entendimento do aluno não costumam se manifestar, já que a dúvida e as perguntas não são, em geral, como nos parece, incentivadas nessas disciplinas.
Quando Ana é professora, o mais importante também é o conteúdo a transmitir. No turno 84, ela critica o governo por prejudicar, com a instituição dos ciclos de formação, o professor que dá muita matéria.
84. Ana: Ele quer robô, gente incapaz, o que eu acho é isso. Porque um aluno que tem que passar sem saber, ele não precisa de material, ele não precisa de comprar o livro, ele não precisa de material, você não pode dar muita matéria, cê não tem que ficar preocupada em lançar os objetivos, em dar os objetivos, né?, cê vai ensinar aquela unidade, se der tempo você vai ensinar outra, pensa! Não é?
Logo no início da entrevista, quando Ana vai descrevendo as etapas do Programa, já percebemos a ênfase no conteúdo químico como centro organizador de seu discurso educacional. Os acontecimentos experienciados estão organizados em torno de conteúdos de ensino.
2. Ana: /.../ a primeira coisa que desenvolveu do 1o ano foi o lixo urbano, falou muito sobre o lixo urbano, né?, naquela época tava em alta sobre o lixo, questão do lixo urbano, depois foi as propriedades dos materiais, solubilidade, e depois sem ser esses dois temas você ia escolher uma das unidades do primeiro e montar um trabalho em equipe. E lá tinha vários materiais pra você pesquisar, olhar, tirar xerox, trazer pra casa, pra você incrementar o seu trabalho o máximo que você puder.
6. Ana: Segundo ano eu gostei muito, porque soluções, não é, soluções, falou muito bem, a menina estava muito bem preparada, depois foi termoquímica, não é, várias experiências, várias experiências, eeeh, com a prática do aluno mesmo, não é, porque hoje em dia eles estão querendo uma aprendizagem para a vida, para o dia-a-dia. /.../Agora a terceira foi sobre drogas, teve até passou muito filme sobre drogas, foram muito bem abordados os temas, olha aqui, oh ((me mostrando o material)). A terceira foi a etapa mais longa, de mais material.
Outra coisa que observamos nos turnos acima é a ênfase em “materiais”, referindo-se a textos que são entregues aos professores ou colocados à sua disposição para que sejam fotocopiados. Sempre observamos, em programas de formação continuada, o grande investimento dos professores na obtenção de materiais didáticos e paradidáticos. Provenientes de cidades pequenas e desprovidas de biblioteca apropriada para o apoio na preparação de suas aulas de Química, os professores são, normalmente, ávidos por materiais que permitam o estudo mais aprofundado dos temas e a variação de abordagem (tratando dos temas em diferentes contextos de aplicação, enfatizando a experimentação, dentre outros).
Curioso o uso que Ana faz da comparação da Química com outra disciplina, a geografia, para justificar a não modificação de sua prática a partir da participação no Programa.
55. Mu: Alguma influência do Programa no jeito que você trabalha em sala de aula hoje em dia? Em relação a como é que você trabalhava antes e como é que você trabalha agora, uma comparada, uma tentativa de comparar.
56. Ana: Isso pra mim não mudou muito não. Por causa da minha...do tipo de matéria. Tem outras áreas, por exemplo, eu tenho uma colega que foi lá na área de Geografia, e a área de Geografia está usando montar os cartazes, aí você leva revista, aí dá um tema, o aluno monta aquele cartaz sobre aquele tema, é fácil. Agora, a Química, teria que ser uma coisa assim, muito trabalhoso, Murilo, cê sabe, que pra você fazer uma prática você gasta muita coisa, muito tempo e você muda de sala a cada instante, não é? /.../