"Deves ter serenidade para aceitares as coisas que não podes mudar, coragem para mudares aquilo de que és capaz e sabedoria para veres a diferença."
(Sócrates) No início dos trabalhos de organização do Workshop, pensei na possibilidade de
investigar o que pensavam os participantes acerca da Educação Patrimonial. Foi então distribuído a cada um deles um caderno destinado aos registros dos momentos considerados por eles como importantes no evento. Os registros deveriam ser individuais a fim de se observar a dimensão da visão que tinham a respeito da Educação Patrimonial, de acordo com as atividades propostas no Workshop.
Considerei importante a diversidade de pensamento e de vivência, respeitando a interação sob os diferentes olhares no trabalho desenvolvido em equipe, destacando-se a estratégia apontada por Perrenoud:
Seja qual for o ponto de partida, aqueles que desejam lançar ou relançar uma dinâmica de cooperação devem aproveitar as ocasiões e envolver-se para fazer com que um projeto comum emerja, sendo ao mesmo tempo bastante mobilizador para que os participantes não voltem imediatamente para sua torre de marfim, e bastante aberto para não dar a impressão de que tudo está resolvido de antemão. (PERRENOUD, 2000 p.88)
Desta forma foi possível construir um trabalho em equipe. Houve participação efetiva dos envolvidos no evento (professores e outros). Eles pesquisaram, analisaram seus dados e apresentaram suas idéias, segundo a ótica da Educação Patrimonial.
No início sempre há um quadro de rejeição por parte de alguns participantes, uns ficam um tanto temerosos de escrever errado, alguns demonstram sentimento de insegurança no ato de falar em público, outros consideram que o assunto não é importante ou não serve para a disciplina que lecionam. Essas características foram registradas nos cadernos e, aos poucos, substituídas pelo prazer de conhecer uma nova forma de ensinar e valorizar o patrimônio. Observemos a afirmação:
“Esta oficina me fez aprender a construir novas possibilidades, a partir de hoje vou enriquecer mais a educação e o processo de ensino- aprendizagem da minha escola, vou ensinar sabendo partir da realidade do aluno, buscar conhecer seu cotidiano e finalmente desenvolver minhas idéias, “desta vez fora das paredes da sala de aula”. Percebi hoje que ainda me encontro realizando um trabalho educacional muito solitário”. (LUIZA, 2006).
Percebo que o relato acima não se refere ao fato de retirar as matérias curriculares da escola ou as metodologias e dinâmicas pedagógicas já utilizadas pelo professor para introduzir outras, mas de oportunizar outro meio educativo e redimensionar os já existentes para a realidade sócio-educativa da comunidade. O que pode ser revisto e percebido pelo educador são as necessidades mais imediatas dos alunos e o ambiente sócio-cultural do qual
eles provêm. Isso fica claro nas observações da professora a partir do contato com a Educação Patrimonial.
A Educação Patrimonial, em interação com os Temas Transversais, é, nesta ótica, o ponto de partida para as aprendizagens, encaixando-se nos planos de ensino como desencadeadores da aprendizagem com significado tanto para o professor quanto para os alunos. É nesta visão que Silva (2006b) indica que:
O ensino, a aprendizagem e as relações com os temas transversais devem se dar dentro de um contexto de convivência social. Neste sentido, os educadores deverão estar preparados para situações escolares inesperadas, explicitar com clareza e articular bem as diferentes relações de conteúdos com a temática.
Nesta prática docente a ação pedagógica não é isolada, o professor interage constantemente com seus alunos e com as outras pessoas da comunidade, constituindo uma relação sócio-educativa. Busca no cotidiano e nos objetos e/ou nos patrimônios materiais ou imateriais novas fontes de ensino e pesquisa. Nesta dimensão a atividade docente exige uma postura de se comportar como sujeito interativo, ator e mediador das construções de saberes. O conteúdo escolar previsto não será necessariamente eliminado ou deixado de ser ensinado, mas terá outra tônica, outro modo de ser expresso interdisciplinarmente, mais rico e com novas formas de possibilidades (LUIZA, 2006).
Em determinados momentos os professores deixavam claro que seria muito importante para eles ter acesso aos resultados desta investigação. Senti que os sujeitos deste trabalho realmente estão dispostos a melhorar sua prática, e a necessidade de ficar com uma cópia deste trabalho (resultados) está relacionada à ansiedade de se obter uma fonte de consulta e informações relevantes acerca do assunto, já que trata de realidades próprias de patrimônios daquela cidade.
É de fundamental importância que nas parcerias para a pesquisa, formação de professores e na construção de conhecimentos, haja o que eu chamo de responsabilidade epistemológica, pois considero relevante quando Krasilchik (2006, 29) nos ensina que a socialização do conhecimento é uma prática social que implica processos de tradução e de re-contextualização, a fim de tornar os saberes produzidos acessíveis para os indivíduos.
Durante todo este trabalho os professores percebiam quantas possibilidades de ensino e de aprendizagem existem no seu meio cultural, social, ambiental, arquitetônico... A cidade, as pessoas, as histórias são objetos importantes para a construção de novos conceitos. Quando a educação valoriza o local ou a realidade do aluno, possibilita um pensamento global.
Essa oficina está sendo de grande valia para mim, pois estou elaborando junto a três colegas um projeto sobre Patrimônio Histórico intitulado: Vigia, seus momentos históricos e suas memórias culturais. Percebo, a partir de agora, que tenho um leque de possibilidades para fazer um bom trabalho educativo. Vou utilizar estes conhecimentos e procurar melhorar minha prática, envolvendo-me mais com interdisciplinaridade e a transversalidade. (ALESSANDRA, 2006)
A meu ver, a avaliação da Alessandra vem confirmar a análise feita por Silva (2005a) acerca dos estudos da aprendizagem significativa, presente na teoria de Ausubel, enfatizando que, para entender o mecanismo de compreensão ou de aprendizagem, é preciso entender que tanto a professora citada como os alunos numa sala de aula apresentam organizadores prévios (conhecimento prévio). Ou seja, o ser humano “carrega” consigo conceitos já existentes na estrutura cognitiva do sujeito que permitem a ancoragem de uma nova informação na estrutura cognitiva, com um grau de abstração suficiente de modo a facilitar a integração da nova idéia, servindo de idéia de esteio entre o novo conhecimento e a estrutura hierárquica de conhecimentos do sujeito.
Neste sentido, cabe também a análise realizada por Silva (2005b) acerca dos Parâmetros Curriculares Nacionais como importante documento para o educador refletir, no momento em que são referenciais que valorizam o trabalho docente e proporcionam a construção de novos saberes a partir do conhecimento prévio, da realidade da escola, do mundo atual e do contexto da realidade vivida por seus partícipes. Logo, estes Parâmetros, associados aos conhecimentos construídos na Educação Patrimonial, procuram diminuir o gap19 entre o fazer pedagógico e a aprendizagem do aluno.
A valorização das vivências, analisadas nesta investigação, foi possível também de ser observada nas informações coletadas no “caderno de saberes coletivo”, o qual ficou sob a responsabilidade de dois professores para registro das reflexões gerais percebidas pelo grupo. Vi nesse caderno informações semelhantes a um livro de atas, que foi de grande importância quanto aos aspectos metodológicos abordados. Mas também vi que os professores, mesmo conhecendo seus monumentos, parece que pouco sabiam o que fazer para ensinar sobre os objetos de sua cidade, havendo, por exemplo, um registro que diz que ...essas informações acrescentam algo em nossos conhecimentos que, mesmo morando na Vigia, não sabia, não conhecia... foi um despertar para fazer algo melhor...
Ora, se o sujeito (professor) é capaz de perceber cada vez mais além daquilo que já sabia, e ainda interligar os novos saberes com possibilidades de ampliar a práxis docente, isto 19 No sentido de distância.
indica que a oficina sobre Educação Patrimonial trouxe um estímulo para que os professores fortaleçam suas idéias.