Quando me propus a fotografar todos os momentos desta pesquisa, tinha comigo a intenção de utilizar como estratégia a fotografia como instrumento didático importante para a leitura crítica dos espaços cotidianos do passado, comparando-os com o presente e olhando o futuro. Como exercício na oficina de Educação Patrimonial, solicitei aos professores fotos antigas para serem analisadas. De maneira a analisar as imagens em diferentes épocas, fotografei alguns dos ambientes visitados e os professores fizeram uma analogia, mostrando a importância didática das imagens para o resgate da história e para o estudo das transformações que ali ocorreram com o tempo.
Esse exercício traduz-se na valorização do indivíduo e suas vivências. Viabiliza a conscientização das funções sociais pelas quais passam os sujeitos da história e proporciona o desenvolvimento de momentos críticos e reflexivos, seja na sala de aula ou na comunidade. Além disso, possibilita a formação de agentes modificadores de uma realidade social, política e ambiental adversa.
O estudo da fotografia (imagem nova e antiga) em Educação Patrimonial requer uma observação atenta aos detalhes nela figurados. E o professor, no uso da docência, leva o aluno a ser investigativo, minucioso, curioso, elementos indispensáveis numa investigação científica, especialmente no ramo antropológico, biológico, social e ambiental.
Na oficina, após esse processo de ensino-aprendizagem com uso das fotografias, os cursistas perceberam que as imagens, quando coletadas, organizadas e divulgadas, transformam-se num poderoso instrumento de conscientização e apreensão de dados referentes a assuntos que se deseja estudar. Foi o que percebi na fala do professor Renato ao analisar a fotografia de um mesmo ambiente (Igarapé da Rocinha) que ainda existe na cidade, mas que sofreu modificações com o passar do tempo.
Segundo o professor:
O estudo das fotos mostra que a cidade vem sofrendo profundas modificações no comportamento cultural e na qualidade de vida dos moradores. A fotografia mostra que estas mudanças ocorrem tanto pelos avanços da modernidade industrial como pela ocupação de áreas constituídas de ambiente naturais, com densas coberturas vegetais, entre mangues e igarapés que servem como pontos de referências culturais, históricas e ambientais da comunidade. (RENATO, 2006)
Percebemos nesta análise a leitura crítica da fotografia que pode ser realizada na escola pelo professor e pelos alunos, demonstrando que a imagem traduz uma história dinâmica e não é neutra. Há, no entanto, que se tomar cuidado para que a retórica dessa análise não venha atender somente aos interesses particulares. Uma das grandes vantagens nesse recurso (imagem) é facilitar o exercício de discursos variados, da oralidade e da escrita. Facilita um amplo relacionamento com a história e possibilita uma reinvenção dos espaços por ela retratados.
O estudo patrimonial por meio de imagens promove uma leitura sobre as transformações ligadas aos movimentos e avanços tecnológicos, bem como se podem verificar as interferências, até certo ponto, que produzem diretamente na cultura local e nos hábitos da comunidade. De acordo com Gomes (1996), a imagem fotográfica, ao registrar a experiência, pode provocar novas percepções, produzir a subjetividade inerente ao ato de olhar, imortalizando o fato e o espaço captados, contextualizando-os. Para DALLA ZEN (2000), fotógrafo profissional, a fotografia enquanto referência visual dá significado aos dados coletados, facilita novas produções de sentido e sugere olhares específicos.
Figura 12 A, B, C e D: O comercio da cidade da Vigia e o mercado de peixe em quatro momentos e ângulos diferentes.
As figuras 12A, 12B, 12C e 12D representadas nas fotografias mostram o comércio da cidade da Vigia e o mercado de peixe em quatro momentos e ângulos diferentes. Do lado esquerdo são imagens antigas e, do lado direito, são recentes. As fotografias (antigas e
A
C D
recentes) foram analisadas pelo professor Renato Teodósio, acompanhado dos demais participantes durante o Workshop. A análise permitiu aos participantes perceberem na fotografia um documento histórico com conteúdo próprio, não necessariamente atrelado a um texto escrito, mas que pode ser lida e interpretada por diferentes olhares. Esta análise foi documentada em forma de filmagem e reproduzida em DVD para servir como exemplo de exercício pedagógico da EP na sala de aula.
A fotografia pode ser um meio de expressão na Educação Patrimonial para uma tomada de conscientização entre os alunos na perspectiva de preservação ambiental. O professor e o aluno percebem e reconhecem os elementos do universo ou espaço-ambiente no qual estão inseridos. Quando o sujeito faz o registro visual (fotografia, filme, observação etc.) em diferentes momentos e espaços temporais, há grande perspectiva da produção de conhecimento, reconhecimento e crítica do indivíduo em relação ao território e às transformações. Os resultados do ato de identificar, observar, analisar podem servir de fonte de interpretação dos elementos que constituem o universo subjetivo e o universo mais amplo, coletivo.
Figura 13 A e B: Ilha da Fantasia na maré baixa (A) e na maré alta (B).
A Figura 13 mostra um local denominado Ilha da Fantasia em dois momentos :maré baixa (A) e maré alta (B). As fotos permitem ao professor discutir questões da Educação Ambiental relacionadas aos impactos da urbanização na cidade, como a grande quantidade de lixo e detritos orgânicos levados pela maré ao rio.
A fotografia serve, neste sentido, de instrumento didático à tomada de consciência ecológica, estimulando a preservação ambiental como referência cultural. Nessa abordagem entende-se que, às vésperas do terceiro milênio, a fotografia — tecnologia das mais antigas que vem sendo cada vez mais sofisticada — pode ter função de um elo de reintegração entre a
arte, a ciência, a cultura e a sociedade numa visão complexa, holística e com caráter interdisciplinar, no sentido de criar cultura e construir conceitos.
Se correlacionar a análise fotográfica com a memória acerca da Ilha da Fantasia descrita pela professora Deyse20, percebo que as histórias, de natureza trágica ou não, ao serem contadas permitem uma tessitura forte que aquece, emociona e estabelece solidariedade. As fotografias são memórias que guardam narrativas míticas, a repetição assume vida própria, eterniza-se. Em oposição, o que a fotografia reproduz ao infinito só ocorre uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente (BARTHES, 1984, 13).
O enfoque nos problemas reais e cotidianos permitiu discussões a partir de um contexto cultural mais amplo. As reflexões estão associadas a ações nas quais as relações entre o desenvolvimento cognitivo e a educação são consideradas a partir de um ponto de vista dialético que analisa, além dos aspectos científicos, as características culturais regionais e suas intrínsecas correlações históricas. No desenrolar do projeto a fotografia foi caracterizada como instrumento teórico-prático de análise crítica da realidade, o que possibilitou a vinculação significativa entre teoria e prática. Facilitou a re-significação do patrimônio cultural e o resgate da memória social comunitária. Tornaram os sujeitos desta nova história protagonistas ativos na construção de suas próprias identidades.
A partir desses entendimentos, busquei realizar com os professores uma mudança conceitual no que vem a ser patrimônio. Eles perceberam que a fotografia não é apenas uma imagem técnica, mas um produto documental histórico o qual pode ser de grande utilidade pedagógica na EP. Esta interpretação é corroborada por Kossoy (2000, 34), ao afirmar que o dado do real, registrado fotograficamente, corresponde a um produto documental elaborado cultural, técnica e esteticamente, portanto ideologicamente: registro/criação. O fotógrafo é, desta forma, alguém que interpreta e registra uma dada realidade de acordo com suas próprias referências que servirão de apoio aos registros escritos da história da cidade. Nesse sentido, fotografar é uma forma de expressão, o “congelamento” de uma situação e seu espaço físico inserido na subjetividade de um realismo virtual (GOMES, 1996, 8).
Enfim, a fotografia e a Educação Patrimonial compõem um terreno fértil na elaboração de uma nova relação homem-natureza e do homem com sua própria natureza, na consolidação de uma consciência ecológica, valorizando as diferentes formas de vida e, sobretudo, chamando à responsabilidade o sujeito/cidadão para formular um novo pensamento coletivo, global. À medida que a fotografia permite “enxergar a si próprio” e o 20 Memória citada na página 97.
mundo em que vivemos, poderemos caminhar rumo à construção do mundo que sonhamos e queremos, com uma sociedade mais poética, justa, solidária, sustentável e eticamente global.