5. Chapter 5: White Teeth
5.5 The perfect blankness of the past
Frederick Law Olmsted nasceu em Hartford, Connecticut, em 26 de Abril de 1822, num ambiente confortável e numa época em que a América estava em sua "infância" (MARTIN, 2011). Segundo Rybczynski (1999) a família possuía uma loja especializada em
distribuição de tecidos importados tornando-a proeminente na sociedade local, além dela descender dos colonizadores originais, oriundos de Essex, Inglaterra.
Um dos traços da personalidade de FLO, era a determinação obsessiva pelo que fazia, fosse intencional, ocasional ou pessoal. Com a vida pessoal permeada por tragédias, ele passou a redirecionar os pesares pessoais para o trabalho, característica que o acompanharia a vida inteira. A primeira grande perda foi a da mãe, quando tinha apenas quatro anos. Um ano após a morte da esposa John Olmsted casou-se uma segunda vez e, após duas semanas, batizou os filhos e mandou FLO para a escola, a fim de adquirir educação formal: basicamente a alfabetização, com iniciação à leitura de textos moralistas e puritanos criados e escritos por pessoas da comunidade dentre os quais o livro de soletrar, The American Spelling
Book, de Noah Webster de 1786.
Inicialmente FLO frequentou a escola do Presbitério do Reverendo Zolva Whitmore, que seguia regras mais flexíveis, permitindo que os alunos circulassem livremente pelos campos, florestas e lugares de entorno, prática que posteriormente causou sua expulsão. A seguir foi morar com os avós paternos para acompanhar a escola de Hartford. Como gostava de companhia de pessoas mais velhas, não foi esforço estar com o avô, com quem conversava e fazia caminhadas, escutando histórias sobre as batalhas e marchas na guerra contra Quebec. Numa destas o avô lhe mostrou um olmo (Ulmus sp.) muito grande, e contou que fora plantado por ele e o filho (o pai de FLO), dizendo “(...) era apenas uma mudinha, mas veja agora, como está grande!” (MARTIN, 2010, p.15). Essa lembrança provavelmente tornou-se uma das chaves para compreender sua ligação com a vegetação nativa e sua paciência para esperar que a planta crescesse e adquirisse o porte previsto. Suas próximas escolas foram em Ellington e em Newington, ambas em Connecticut. A segunda pertencia ao Reverendo Joab Brace, um professor severo que completava a educação formal e religiosa com trabalho braçal obrigatório, que muito enriqueceu a independência de FLO.
Aos 14 anos FLO desenvolveu uma severa erupção cutânea contraída por contato com o sumagre venenoso (Rhus esp.) infecção que chegou aos olhos, afetando seriamente sua visão. Para Rybczynski (1999) a cegueira temporária pode ter sido uma forte conjuntivite. Levado a um médico em Nova Iorque ficou claro que os olhos iriam melhorar, mas academicamente não havia perspectiva futura, ao menos para os parâmetros da época. Como não iria para a faculdade, e tendo que aprender um ofício, escolheu Topografia, o que era um contrassenso, já que a profissão demandava uma visão aguda e perceptiva de detalhes, para desenhar mapas acurados. O treinamento também durou pouco tempo.
FLO juntou-se ao irmão em Yale, onde foi admitido como ‘aluno especial' (ouvinte). A experiência durou apenas três meses. Desistindo de Yale e acompanhando a tendência natural norte-americana para a agricultura, decidiu ser fazendeiro. Cabe ressaltar que no século XIX os Estados Unidos eram um país eminentemente agrícola, tendo despertado para a industrialização só em fins do século. Para FLO a agricultura não era uma questão romântica de amor à terra, mas uma proposta para unir os conhecimentos de química (aprendidos em Yale) às virtudes do ruralismo. Inscreveu-se como aprendiz com George Geddesa, na fazenda
Fairmount, Nova Iorque, o qual também havia desenvolvido um rastelo (ciscador) conhecido como Geddes' Harrow e um tipo de portão com gonzos (Geddes' Swinging Gate). Ele era o que FLO queria: ser um fazendeiro que fizesse a diferença.
Durante as noites FLO lia revistas e livros especializados em agropecuária para aperfeiçoamento técnico e espiritual, dentre os quais destacou-se o livro Sartor Resartus de Thomas Carlyleb, que incorporaria à sua bibliografia especial pelo resto da vida, e exerceu
grande influência em seu pensamento teórico. No resumo deste, um romance ficcional avant-
garde, o personagem conclui que ‘tudo é caos e a única opção é construir um significado, o melhor que puder' (MARTIN, 2011). FLO decide responder por meio do trabalho, mas não qualquer trabalho, e sim um em que ajudar ao próximo fosse a meta, de modo a redimir-se pelas falhas com a religião estabelecida, com a qual tinha pouca familiaridade e admiração.
Com a ajuda do pai comprou uma fazenda de uns 24 hectares próxima à Hartford, chamada Sachem's Head; uma língua de terra maltratada e esgotada de nutrientes se projetando no Estuário de Long Island. A experiência em Sachem's Head foi relativamente produtiva, com colheitas próximas ao razoável e despesas acima do inesperado, servindo-lhe de primeiro plano na aplicação dos conhecimentos aprendidos com Geddes e aperfeiçoados ao longo de 1847, tanto nos primeiros ensaios de paisagismo na reforma e organização estética da fazenda como do trabalho de restauro da casa que morou. Em 1848, vendeu a fazenda e comprou outro lote de terra, desta vez em Staten Island, batizando-o de Tosomock Farm. Contratou trabalhadores e, fazendo uso dos novos conhecimentos técnicos e experiência em
Sachem's Head, plantou fruteiras de maneira científica e passou a vender a produção para a
cidade de Nova Iorque. Uma das inovações foi a diversificação de cultivares para atender o mercado, plantando peras quando havia excesso de uvas e vice e versa. Também organizou a criação de mudas para transplante e venda, criando o que hoje conhecemos como ‘viveiro de
a George Geddes (1809-1883) - engenheiro, agrônomo, historiador, pacifista e político americano. b Thomas Carlyle (1795-1881) - filosofo, escritor satírico, ensaísta, historiador e professor escocês.
mudas comercial’. Aí, deu os primeiros passos no paisagismo, embora o conceito de
landscape architecture (arquitetura da paisagem) não existisse na época, quer como vocação
quer como prática profissional. Parte dos trabalhos e obras nesse campo eram realizados por arquitetos e jardineiros.
Tendo vizinhos ilustres como o poeta romântico e editor do New York Post, William Cullen Bryant, o magnata das publicações de livros, George Putnam e os descendentes dos holandeses colonizadores originais como William Vanderbilt, seu esforço em organizar esteticamente o espaço natural de entorno não demorou a chamar atenção. Algum tempo depois, Vanderbilt o convidou para elaborar um projeto de paisagismo em sua fazenda, na seção New Dorp em Staten Island. Nessa época, John Hull e Charles Brace mudaram-se para Nova Iorque, fazendo visitas freqüentes a FLO durante uma das quais, decidiram viajar à Europa (basicamente para promover a saúde de John Hull), FLO se juntou a eles numa jornada que iniciou no Reino Unido, prosseguiu pela França, Bélgica e Alemanha e se encerrou no outono de 1850.
Em Liverpool visitaram Birkenhead, um parque projetado por Joseph Paxtonc e
construído exclusivamente com fundos públicos, onde FLO se impressionou com a paisagem de caminhos sinuosos e amplos riachos, mas o que marcou a visita foi a mistura de todas as classes sociais no mesmo lugar. A paisagem inglesa o encantou, apesar do déjà vu com as brumas líquidas e o verdor. Também lhe chamou a atenção a separação social no parque privado do Castelo de Chirk em Gales, ao contrário de Birkenhead, que era público. O passeio incluiu visitas às fazendas inglesas para aprimorar as técnicas e o conhecimento dos últimos implementos agrícolas, o que lhe garantiu expedições a diversas fazendas.
Em Nova Iorque, Putnam convidou FLO para publicar um diário da viagem, relatando suas experiências como fazendeiro e diletante da paisagem. Em seguida FLO embarcou numa expedição a Newburgh, New York, para consultar Andrew Jackson Downingd, o editor da
revista Horticulturist and Journal of Rural Art and Rural Taste (O Horticultor e Revista de Arte e Gosto Rural) a fim de organizar o livro que seria publicado em 1852, Walks and Talks
of na American Farmer in England (Passeios e Conferências de um Fazendeiro Americano na
Inglaterra).
Neste mesmo período, Harriet Beecher Stowe publicou Uncle's Tom Cabin (A Cabana do Pai Tomas), por nós nesse estudo referido anteriormente e cujo tema que gira em torno das
c Joseph Paxton (1803-1865) - jardineiro (paisagista), arquiteto e membro do parlamento inglês. É o autor do Palácio de
Cristal da Grande Exposição Mundial de 1851.
condições de vida nas comunidades escravas tornou-se um dos pontos de partida para o Abolicionismo. FLO leu o livro e logo abraçou criticamente a causa como um Gradualista, acreditando que, com o tempo, a escravidão desapareceria. Ele concordava que a escravidão era uma coisa errada, embora não tivesse certeza se a libertação imediata seria a resposta' (MARTIN, 2011).
Enquanto isso, Henry Raymond, cofundador e editor do New-York Daily Times (atual
New York Times) e conhecido de Brace, buscava um correspondente para a questão do Sul.
Em 1851, o recém-lançado New-York Daily Times era um periódico que revolucionou o modo de fazer jornalismo na época, bastante lido e influente. Brace indicou FLO, que foi contratado para fazer uma ronda jornalística pelo sul escravagista, observar a veracidade dos fatos e corroborar E.B. Stowe, veementemente atacada pelo New York Sun que era pró-escravagista e, segundo Martin, premiava o ‘sensacionalista, o malicioso e o estranho’ (2011, p.77).
De 1852 a 1853 FLO viajou pelo Sul e sua correspondência de viagem, publicada pelo jornal, rendeu-lhe uma certa fama pública, não só pela imparcialidade das críticas como pela contundência. Assinando sua correspondência como Yeomen, FLO expunha seu caráter democrático e igualitarismo pessoal ao afirmar que “a escravidão com sua miríade de ineficiências, era um sistema defeituoso no tocante ao trabalho e à produção” (MARTIN, 2011, p.84). Era uma crítica bastante pessoal, baseada em observações empíricas, e arrasadora para o modelo socioeconômico americano do século XIX, pois argumentava que a “escravidão não só era um sistema econômico defeituoso como também promovia a deficiência cultural” (MARTIN, 2011).
Ao retornar, FLO retomou os negócios de Tosomock e foi visitado por sua colega de infância, Anne Charlotte Lynch, influente poetisa que tinha um salon no Greenwich Village frequentado pelos luminares literários da época, inclusive Edgar Allan Poe. Sua estadia promoveu um frenesi literário em FLO, que decidiu também escrever. Ou seja, Tosomock estava começando a perder a importância. Buscando alguma realização literária, FLO começou a procurar um espaço para publicar.
Saindo de Nova Iorque em fins de 1853, ele e John Hull (que acabara de chegar da Suíça onde iniciara um tratamento para a tuberculose), partiram para uma nova aventura jornalística no Texas. Em Nashvillle visitaram Samuel Allison, um antigo colega de classe de Hull e dono de uma fazenda de algodão, que achava que a escravidão deveria ser ampliada até o Amazonas e cujo único interesse na iminente guerra na Europa era o preço do escravo e o algodão. Também achava que o Norte não tinha cavalheiros, exceto os de origem na nobreza
holandesa ou que tinham muito dinheiro. FLO desenvolveu uma profunda aversão a esse personagem e suas opiniões. Os próximos dias foram de tormenta para ele, meditando e analisando as palavras de Allison que tanto o incomodaram. Allison era rico e vivia uma vida de luxo, embora ostentasse uma imensa pobreza cultural. Isso iria refletir profundamente e tanto em sua luta para o fim de escravidão quanto para o fortalecimento da prática do Igualitarismoe.
Nas andanças pelo Texas, FLO se defrontou com a pobreza extrema dos pioneiros e fazendeiros escravistas. De Austin a San Antonio encontraram um grupo de comunidades alemãs efetivadas pelo Príncipe Carl de Solms-Braunfels em 1844 e compreendia cerca de 150 famílias cuja finalidade era reduzir o pauperismo na Alemanha e cortar os impulsos expansionistas norte-americanos. Ao contrário das vistas anteriormente, essas comunidades eram prósperas e bem equipadas. Sua organização, limpeza e prosperidade inspiraram FLO a comparar os dois modos de fazer agricultura.
Os irmãos retornam a Nova Iorque em 1854. FLO então passou a fazenda Tsomock para John Hull e assinou um contrato de parceria com a editora Putnam’s rebatizada de Dix, Edwards & Company. Na ocasião a Putnam’s concorria com a Harper’s New Monthly
Magazine (mais conhecida atualmente como Harper’s Magazine) pela integridade
jornalística, com ênfase no universo intelectual e social americano. A Harper’s não respeitava os direitos autorais copiando artigos por plágio ou roubo autoral (chamado de transferência), sendo obrigado, em certo momento, a pagar a Dickens pela publicação de Little Dorrit. A
Harper’s sabia que Dickens não era uma pessoa indicada para ser enfurecida. Em fins de
1857 FLO vendeu a Putnam’s e findou sua carreira editorial.