• No results found

Perceptual study on stereoscopic viewing comfort

viewing comfort 6

6.4. Perceptual study on stereoscopic viewing comfort

Assim, é importante que os discentes saibam quais eram os valores ideológicos implícitos nas fábulas de Esopo, escritas no século VI a.C., e de La Fontaine, produzidas no século XVII, de Fedro, no século I a.C., e de Monteiro Lobato, em épocas mais atuais. É imprescindível saber se os enunciados desses e de outros autores eram os mesmos em épocas tão distintas, se houve alguma modificação e qual foi o motivo que os levou a alterar ou não os sentidos dos textos.

As fábulas originaram-se na Antiguidade e transformaram-se com o tempo no que hoje conhecemos como tradição popular. De acordo com Souza (2004), possivelmente, esse gênero destacou-se na sociedade no século VI a.C. através de seu maior fabulista, o grego Esopo. Porém não é a Esopo que se pode atribuir a origem desse gênero. Primeiramente, aparece no antigo Egito e na Índia e, depois, no Ocidente.

A fábula (...) possui uma longa tradição e está entre as mais antigas manifestações literárias. Suas origens confundem-se com as da literatura como um todo. Antes mesmo que o homem tivesse o domínio da palavra escrita, a fábula já existia em forma de narrativa oral (SOUZA, 2004, p. 16).

Com relação ao caráter literário da fábula, Souza (2004), ao citar Antônio Candido, descreve que toda obra, para ser literária, precisa cumprir sua função total, a de simbolizar o mundo por meio de mecanismos expressivos que constituem um sistema simbólico capaz de transmitir certa visão do mundo. Nessa perspectiva, as fábulas podem ser enquadradas como produções literárias por representarem simbolicamente “a expressão de uma coletividade e retornam para esta mesma coletividade como forma de alimento espiritual, contribuindo para a formação da identidade comum do grupo” (SOUZA, 2004, p. 16).

Muitos discentes, porém, não entendem o caráter literário das fábulas como a capacidade de refletir a condição humana e a vida de uma sociedade. Muitos leem as fábulas porque elas são sugeridas pela escola, outros alunos leem por entretenimento e outros afirmam que elas são textos moralistas usados apenas quando se quer dar uma lição de moral a alguém. Diante dessas questões, seria importante levar o aluno a perceber que a fábula é um texto literário que proporciona conhecimento da vida e do mundo e que, ao lê-las, os discentes podem experimentar e compartilhar sensações e experiências do cotidiano, refletir sobre a vida, sobre si e sobre os outros, envolver-se na história ao ponto de identificar-se com os fatos narrados, pensar na temática, discuti-la e correlacionar esses assuntos com o seu cotidiano.

Diante dessa característica simbólica de representação do real, as fábulas também podem ser instrumentos de convencimento do homem para com o outro. Nesse caso, Portella (1983) esclarece que Aristóteles enquadra a fábula no campo da retórica como um mecanismo de persuasão e ressalta que a razão de Aristóteles ter considerado o caráter oratório

em relação à fábula é o fato de ele ter sistematizado os princípios da retórica a partir do que se praticava em seu tempo e anteriormente, nesse campo, a exemplo de Esopo, espécie de orador popular, que inseria, em seus discursos, histórias inventadas ou reais como meio atraente e eficaz de persuasão (PORTELLA, 1983, p.2).

Fica evidente, nos comentários de Portella (1983), que a origem da fábula está atrelada às necessidades do homem de persuadir o seu próximo com algo que possa atingi-lo de forma indireta. Dessa forma, a fábula é um instrumento bem organizado capaz de denunciar publicamente a verdade de uma determinada situação sem fazê-la explicitamente. Para o autor, isto é denominado de “verdade camuflada” e ocorre por que

todo homem odeia a verdade tão logo ela o atinja. ‘A verdade nua e crua machuca’ é a expressão corrente na boca do povo. Nem mesmo partindo da boca de um sábio ou de um santo, é recebida com prazer, especialmente se ela visa corrigir o comportamento humano. Como, porém, não podemos prescindir da verdade, a fábula foi o meio encontrado para proclamá-la sem que o homem se sentisse diretamente atingido por ela e consequentemente não a rejeitasse de pronto (PORTELLA, 1983, p.126).

Silva (2010), ao fazer uma espécie de mapeamento da origem das fábulas e apontar sua função à formação do leitor crítico, esclarece que a fábula é uma possibilidade de conhecimento do universo social, porque é

(...) uma narrativa curta, de caráter crítico, que expõe de forma sintética fatos da vida, sem, contudo, deixar claro a que fatos específicos se refere. Nascida da necessidade natural que o homem sente em expressar seus conhecimentos, experiências e circunstâncias do seu universo por meio de imagens e símbolos (SILVA, 2010, p.40).

Verificamos, por meio da afirmação da autora, que as fábulas nascem das necessidades humanas em um determinado momento e que, em outro momento, essas necessidades podem deixar de existir ou evoluir. Além disso, fica evidente, também, em seus esclarecimentos, que esses enunciados fazem parte de uma simbologia que os protege por meio do dizer disfarçado da sociedade sem que o enunciador comprometa-se com seu posicionamento crítico submerso na narrativa.

Ao transcrever o percurso histórico desse gênero, Silva (2010) pontua os valores ideológicos implícitos nas fábulas de cada momento e, dentre eles, destaca um episódio da bíblia contido no livro de Juízes. Nele, Joatão, personagem bíblico, usa uma fábula com a finalidade de advertir seus ouvintes a fazerem a escolha de seu irmão como rei. Percebemos, implicitamente, que, nesse contexto, a fábula possui uma ideologia de dominação, pois relata um contexto histórico de luta de poder.

Mais adiante, Silva (2010) apresenta as ideologias perpassadas nas fábulas de Esopo, escravo alforriado que viveu na Grécia antiga no século VI a.C. Autor de muitas fábulas, ele as capturava no cotidiano, divulgava-as com intuito de criticar ou esclarecer determinada situações do mundo real em que viveu por meio de histórias breves e concisas.

Nessa perspectiva, Silva (2010) enfatiza que

(...) tanto em Joatão quanto em Esopo, as histórias criadas com as personagens do mundo vegetal e animal serviram para que os seus ouvintes entendessem melhor situações concretas do mundo real. Primando pela brevidade e concisão, as duas fábulas apresentam-se, então como instrumentos de persuasão, evidenciam seu caráter doutrinário e moralizante (SILVA, 2010, p.42).

Além de Esopo, outros fabulistas ajudaram divulgar o gênero fábula pelo mundo mantendo-as vivas até os nossos dias. Dentre eles, temos Fedro no século I

a.C., escravo romano que aperfeiçoou esse gênero e criou suas próprias fábulas. As fábulas fedrianas, assim como as fábulas esópicas, tinham como objetivo denunciar as injustiças sociais e até mesmo à escravidão, mas, diferente das fábulas de Esopo, possuíam um estilo próprio e uma escrita bem criativa e refinada que se destacava por sua forma e estilo. Esse estilo próprio do autor, segundo Portella (1983), proporcionou a esse gênero “caracteres de gênero literário autônomo” a partir dessa época (PORTELLA, 1983, p. 120).

La Fontaine também entrou no rol dos fabulistas que se propuseram a divulgar muito bem as fábulas. Foi considerado, no século XVII, como o maior fabulista moderno. Autor dinâmico e criativo passa reescrever as fábulas de Esopo e a criar suas próprias fábulas. Entretanto, diferente de Esopo, as fábulas de La Fontaine eram mais delicadas e poéticas. Porém, essa elaboração do estilo literário era simples e atraia o público. Por meio de um texto bem criativo e ritmado, seus textos eram bem aceitos pelo povo e pela alta sociedade de sua época. Uma das razões para isso está no fato de que poucos entendiam as críticas presentes nas entrelinhas de seus textos.

Ao pensarmos em um trabalho com as fábulas na escola, é importante que o docente proporcione momentos de reflexão sobre os aspectos sociais, culturais e discursivos desse gênero e sua repercussão na sociedade, pois é de suma importância a mudança na leitura que alguns alunos fazem desses textos. Muitos, sem conhecer o contexto de produção, tiram conclusões equivocadas ao lerem textos como estes. Tendem a particularizá-lo compreendendo-o como um tema voltado aos problemas individuais do ser humano e não como problemas de uma sociedade e de suas ideologias. Por tanto, cabe ao professor a quebra desses paradigmas por meio de atividades que possam dar direcionamento aos seus alunos a uma postura crítica e participativa.

Expostas as considerações sobre o percurso histórico da fábula, discorremos, na próxima subseção, sobre algumas definições e características desse gênero.