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O enraizamento do castanheiro na história produz actualmente dois tipos de comportamentos negativos (Bourgeois, 1993:8):

- a saudade de um passado sentido como um paraíso perdido;

- a rejeição de um passado sentido como um período de miséria felizmente terminado. Contemplando soutos e castinçais como um todo, podemos distinguir três vertentes integrantes: a produção do fruto, a produção de madeira e uma outra não menos importante e pertinente nos debates actuais, a ecologia, que engloba aqueles dois sub-sistemas interagindo em conformidade com a paisagem, a história e tradição, o homem e a terra. O equilíbrio florestal, nas áreas de Trás-os-Montes, guardou, ao longo de séculos, o castanheiro entre as suas espécies privilegiadas. O castanheiro é um dos mais importantes ex-libris da região que com a sua presença enaltece a paisagem nordestina, tendo sido escolhido para símbolo do Parque Natural de Montesinho (PNM). Os laços de interdependência do castanheiro com a sociedade rural ocuparam narrativas de Magalhães (1910:184), no início do século passado como a seguir se transcrevem: d’ella, veio o berço onde fomos alados pelas doçes cantigas da nossa mãe, como veio o antigo leito que atravessa gerações entre as famílias e onde essas gerações fizeram suas núpcias; d’ella veio o arcaz para a guarda do bragal, a tulha para o grão, o tear e a alfaia agrícola. Vem diariamente para a construção do ninho da nossa família a trave, o barrote, o caibro, a esquadria de portas e janelas e até os soalhos. (...) Vieram d’ella os riquíssimos tectos, escurecidos pelo tempo, artesoados com brasões esculpidos ao centro. (...) Veio e vem ainda essa sumptuosa talha de altares, ora nua ora recamada de oiro, onde a côrte celestial, pelos seus santos e archanjos sahidos do mesmo páu (...) se nos apresenta

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multiforme nos templos, - como nos virá também esquife que nos leve ao dôce socêgar da vida...

Relativamente às propriedades da secular espécie se refere Paiva (1990:17), ao valor medicinal ou terapêutico de diferentes partes do castanheiro (folhas, casca, flores e frutos) têm também sido utilizados na fitoterapia popular, devido às suas propriedades adstringentes, sedativas, tónicas, etc. Acrescenta o mesmo autor que o castanheiro fornece castanhas, madeira e lenha, o castanheiro é também utilizado na curtidura de peles, pela riqueza em taninos, e em cestaria, sendo as varas mais grossas aproveitadas para cajados e para o varejo da azeitona, assim como para outras aplicações.

Esta cultura é marcada por uma grande heterogeneidade tanto no que se refere às suas variedades, às áreas plantadas, à idade dos castanheiros e ao seu peso no conjunto dos rendimentos da exploração agrícola. Devido à sua rusticidade, adapta-se perfeitamente a uma estratégia pluriactiva:

- é melhoradora do solo: enriquecimento do solo através das pastagens extensivas (folhagem, fezes) e cogumelos (maiores rendimentos) dentro dos moldes da agricultura orgânica;

- sendo o tratamento do souto idêntico ao tratamento da floresta, sem tratamentos químicos, a produção de castanha é considerada uma forma de produção biológica; - mérito reconhecido pelas entidades protectoras do ambiente e pelos consumidores

mais conscientes, sendo uma mais-valia ao nível dos mercados, conseguindo a castanha cotações mais elevadas.

O sistema de agricultura dos vales sub-montanos de Trás-os-Montes realça a importância crescente do castanheiro, após o declínio, como cultura nele praticada e com potencialidades a explorar. Apesar de imperar o minifúndio e a agricultura se encontrar combalida, existe na região uma significativa mancha de soutos e castanheiros dispersos que interessa proteger. A cultura do castanheiro tem sido um meio de fixação de pessoas em zonas de montanha, aliada às tradições lúdicas na época da produção, às feiras temáticas da castanha e aos magustos nas escolas. Está ligada a um manancial de tradições e histórias com que os mais velhos presenteiam os mais jovens. Ditos, provérbios e adágios da população preenchem as páginas da história local: “pelo S. Martinho, castanhas e vinho; do cerêjo ao castanho bem m’avânho, mas do castanho ao cerejo mal me vejo”.

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Se é incontestável o peso económico que o castanheiro ocupa de forma directa, não é menos importante o seu peso como património cultural, paisagístico e ambiental contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento de outras actividades económicas e de lazer como o turismo, o artesanato e a caça (Bento, 1999:9). Quer isto dizer, que a produção de castanha constitui uma fonte de mais-valias que não pode dissociar-se de um complexo de outros recursos próprios do meio rural, intimamente ligados a actividades económicas geradoras de riqueza e criadoras de emprego, assentes na valorização das pessoas e dos recursos endógenos.

O Turismo em Espaço Rural (TER) salienta-se igualmente pelo importante papel do sector da castanha na gastronomia da região nordestina, de excelente qualidade e tradição. A castanha a par do fumeiro fazem parte da gastronomia local, através de uma infinidade de actividades. Na região, tanto em casa como em restaurantes, são confeccionados uma variedade de pratos e doces caseiros, designadamente, sopa de castanha, mousse, tartes e compotas de castanha, puré, pudim, gelado de castanhas e tantos outros.

Anualmente, a Feira da Castanha da Terra Fria em Terroso – Bragança, tem como objectivo promover a castanha e seus derivados, o artesanato e a própria região. A este certame concorrem os interessados (residentes e forasteiros) a vários concursos, particularmente, fotografia sobre o castanheiro, gastronomia (à base de doces de castanha) e concurso das cultivares de castanha Longal e Judia. Relativamente ao concurso de gastronomia, foram editados pela Junta de Freguesia de Espinhosela três livros de receitas cuja base é a castanha, correspondentes a compilações de certames anteriores.

O potencial produtivo de TM, relativamente à castanha, é muito significativo para a economia local, tendo em conta que, em 1999, eram 24 339 ha a área ocupada (INE, 2001) por esta cultivar e a produção atingiu 24 723 toneladas (INE, 2001), cujas receitas ascenderam a um valor muito próximo dos dois milhões de contos16. Podemos, assim, fazer uma ideia clara da importância deste fruto, não só a nível local mas também do país. Estes valores espelham bem o potencial produtivo da região e a importância económica do fruto no Interior Norte de Portugal. Concretamente, a situação, ao nível do sector primário em Bragança e Vinhais, alterou-se significativamente no período de 1989 a 1999; há menos pessoas na actividade, a área média das explorações agrícolas aumentou, tendo

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Quadro IV.1: Ocupação do Solo pelos Castanheiros em Bragança e Vinhais.

Concelhos Área Castanheiros

(ha) (%) Nº Expl. (%) Área/Expl. (ha) Bragança Vinhais 2 529 2 744 48 52 2 275 2 135 52 48 1,11 1,29 Total (1989) 5 273 100 4 410 100 1,20 Bragança Vinhais 5 708 4 570 55,5 44,5 2 924 2 158 57,5 42,5 1,95 2,11 Total (1999) 10 278 100 5 082 100 2,02

Fonte: Matos et al. (2001:4); (INE: RGA, 1991;2001)

Pela observação do quadro IV.1, no período entre recenseamentos, a área de souto aumentou para o dobro na TFT, com taxas de crescimento de 126% no concelho de Bragança e de 67% no concelho de Vinhais. Neste último, o número de explorações quase se manteve, o que indica que a área média de souto por exploração aumentou, neste caso concreto de 1,29 ha para 2,11 ha. O concelho de Bragança detém a maior área de souto (5 708 ha) e o maior número de explorações (2 924) do país. Vinhais ocupa o segundo lugar relativamente à área de castanheiro (4 570 ha) e o terceiro relativamente ao número de explorações (2 158) 17. Vinhais e Bragança ocupam no conjunto uma área total de 1/3 (10 278 ha) da área total ocupada com castanheiros no país (28 825 ha).