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Segundo Morin (1984), a entrevista em profundidade examina todas as ramificações de uma dada conjuntura, podendo definir-se como um encontro verbal e de caráter interativo entre o investigador e o entrevistado. Expressa o autor que na entrevista intensiva com perguntas abertas, o entrevistado tem grande liberdade no contexto das perguntas que lhe são colocadas, tornando-se extremamente ricas as suas respostas. Ouvir as revelações sobre a experiência das pessoas que constituem a unidade de análise da nossa investigação, foi um suporte valioso, na medida em que nos proporcionou um conhecimento mais aprofundado da realidade em estudo.

Com o decorrer da investigação iam surgindo elementos novos que se foram delineando e incorporando como peças de um puzzle na construção da realidade, conduzindo o foco da investigação na trajetória adequada. Daqui resultou informação muito útil e pertinente não prevista inicialmente, que nos alertou para variáveis e fenómenos que de outro modo poderiam escapar à nossa interpretação.

7.1.2.3.1. Os Sujeitos Analisados

Como já referido, a administração das entrevistas (personalizadas com base num guião estruturado em questões abertas – Anexo L) teve como critério a responsabilidade na direção e/ou funcionamento das atividades do curso de Enfermagem Veterinária (Diretora da Comissão de Curso), na coordenação da área de formação (Coordenador do Departamento de Ciência Animal) e numa visão mais ampla dos cursos da ESAB (Diretor da ESAB, Presidente do Conselho Técnico-científico e Vice-Presidente do Conselho Pedagógico). Dada a participação ativa no processo de discussão,

implementação e organização do curso, foi igualmente entrevistado um elemento da Comissão de Constituição do Curso.

7.1.2.3.2. Objetivo das Entrevistas

O trabalho de recolha de informação primária culminou na realização das entrevistas. O objetivo das entrevistas foi complementar a informação já recolhida (primária e secundária), no sentido de preencher algumas lacunas e dúvidas encontradas ao longo do trabalho. Pretendeu-se assim saber, nas palavras dos órgãos decisores da ESAB, o que consideram os mesmos sobre o processo de educação para o desenvolvimento sustentável na Escola. Para além de outras questões subjacentes ao Marco ACES, procurou-se igualmente saber que estratégias de sustentabilidade curricular das disciplinas do curso de Enfermagem Veterinária (incorporação de uma disciplina específica, transversalidade…) estaria a Escola disposta a incorporar no futuro.

7.1.2.3.3. Adequação do Guião de Entrevista aos Respondentes

Embora o guião de entrevista incorporasse um tronco comum de questões, o diálogo foi dirigido, por parte da investigadora, para os aspetos que, de acordo com as funções dos interlocutores, mais se relacionavam com a investigação. Assim, ao Vice-Presidente do Conselho Pedagógico e à Diretora da Comissão de Curso, foi colocada maior ênfase nas questões relacionadas com a organização do Plano Curricular do curso, ao Coordenador do Departamento de Ciência Animal e à Comissão de Constituição do Curso, relevaram-se as questões relacionadas com o funcionamento da atividade letiva da licenciatura e ao Presidente do Conselho Técnico-Científico/Diretor da ESAB, foram abordados aspetos relacionados com a cooperação internacional para a promoção do desenvolvimento sustentável, a Ciência & Tecnologia e os projetos sustentáveis da Escola.

Casualmente, foi necessário aclarar alguns aspetos pontuais que ficaram menos explícitos no ato da entrevista (datas de eventos e pormenores relacionados com os projetos da ESAB, como o número de alunos envolvidos, os cursos, entre outros), conseguido posteriormente por via de entrevista complementar.

7.1.2.3.4. Validação do Guião da Entrevista

O guião de entrevista foi validado por dois docentes da área das Ciências Sociais e, em consequência, foram reajustadas três questões.

7.1.2.3.5. Local da Entrevista

É desejável que o local da entrevista facilite o reconhecimento das circunstâncias em que o sistema analisado se desenvolve.

O ato da entrevista deverá ocorrer preferencialmente no local de trabalho do entrevistado, e como é particularmente do interesse do investigador, deve ser dada ao respondente a primazia na marcação da hora e local da entrevista.

Este é um aspeto muito importante na relação entrevistador-entrevistado que traz vantagens a ambos. O entrevistado, para além de se sentir mais confiante no seu ambiente de trabalho, pode, caso seja necessário, ilustrar mais facilmente exemplos práticos do âmbito da investigação. Para o investigador, é particularmente importante que a entrevista se efetue no local de trabalho, pois permite-lhe observar e contactar diretamente com a situação real. Embora tenhamos que reconhecer que esta não é condição sine qua non para o bom resultado da entrevista (entrevistadora e entrevistados laboram na mesma instituição), todos os respondentes elegeram como lugar da entrevista o seu local de trabalho.

Como o guião de entrevista teve a sua génese no Marco Teórico ACES, para facilitar a interpretação das questões colocadas aos respondentes, foi previamente distribuída uma síntese das dez características da rede ACES, para familiarização com as temáticas (ver Tabela 5.1).

7.1.2.3.6. Notas de Campo

No que respeita às notas escritas retiradas em trabalhos de campo, uma das normas apontadas por diversos autores, prende-se com a presença de citações dos próprios inquiridos, transcrevendo as suas palavras e dando-lhes o sentido exato e pessoal que lhe foi atribuído no momento pelo observador. Patton (1990) releva a importância desses registos, porque eles podem nunca mais ser captados da mesma maneira, mesmo quando é possível repetir a entrevista. Devem, pois, ser tratados como matéria preciosa na análise qualitativa do estudo.

Assim, no processo de análise qualitativa tiveram-se em conta as ações observadas (atitudes e motivações), sendo registadas neste trabalho algumas citações com as palavras exatas dos respondentes, por nos parecer pertinente fazer ressaltar algumas situações em primeira voz, expressando-as e reproduzindo-as fielmente no seu modo original.

No ato de recolha de dados foi utilizado um gravador de áudio e transcrita toda a informação posteriormente (cerca de 40 páginas em word). Para maior rigor na interpretação do conteúdo e compreensão dos fenómenos, foram ordenadas as respostas resultantes das entrevistas, com a finalidade de identificar, descrever, enquadrar e relacionar os factos recolhidos e selecioná-los de acordo com o objetivo de estudo. As entrevistas foram integralmente executadas pela própria investigadora, em setembro e outubro de 2012, e prolongaram-se por cerca de uma hora, em média.

Este processo de diálogo permitiu aos respondentes desenvolverem diferentes perceções sobre o curso, encará-lo sob diversos ângulos e mesmo desenvolver compromissos sobre as problemáticas ambientais para o futuro nas suas áreas de influência. Tal processo veio enriquecer profundamente a informação e a investigação na sua globalidade e, eventualmente, abrir uma porta para a implementação/reforço da SCES na ESAB.