Segundo Araújo (2001), a base do Membro Taquaral, no Estado de São Paulo, apresenta níveis de conglomerado que podem ser considerados como sendo “pavimentos transgressivos”. Assine et al. (2003) estudando a Formação Tatuí no Estado de São Paulo, verificaram que em diversos locais há a presença de delgados conglomerados descontínuos, clasto-sustentados, con- tendo restos de peixes e coprólitos, e salientaram que tal conglomerado poderia ser representante de um depósito residual (“lag” transgressivo) associado ao início da transgressão do Membro Taquaral.
3.3 Geologia Estrutural
A seguir serão discutidos questões da Geologia Estrutural, tanto regionalmente quando lo- calmente, para dar suporte as futuras discussões quanto ao padrão estrutural que será caracteri- zado pelo presente trabalho.
3.3.1 Contexto Estrutural Geral
A Bacia do Paraná apresenta diversos alinhamentos estruturais onde ocorre grande con- centração de falhas alinhadas e também altos estruturais, diques e “sills” de diabásio. Tais alinhamentos são tidos como reflexos das reativações de grandes estruturas pré-existentes no embasamento da bacia. O desenvolvimento Estrutural da Bacia do Paraná foi influenciado du- rante grande período de tempo por duas direções principais: N-NE e NW (Almeida, 1967) e, localmente por direções E-W, sendo a direção NW determinante para a orientação de estrutu- ras de grande porte, refletindo estruturas antigas do embasamento, como as falhas de Itu, Piraí, Cururu e Cachoeira (Pires Neto, 1996). Nas regiões de Rio Claro e Piracicaba, Estado de São Paulo, estão presentes várias destas estruturas, como os altos estruturais de Pitanga, Pau d’Álho, Artemis e Jibóia, que fazem parte dos alinhamentos estruturais do Rio Tietê, Rio Mogi-Guaçu e Jacutinga.
Regionalmente, as principais feições estruturais que são reconhecidas na Bacia do Paraná, apresentam-se na forma de alinhamentos estruturais, que possuem direções preferenciais NE- SW, NW-SE e, menos frequentemente, direção E-W. Estes alinhamentos são tidos como reflexos das reativações de estruturas do pré-existentes do embasamento da Bacia do Paraná, sendo mui- tas vezes paralelas as grandes feições produzidas durante o Ciclo Brasiliano, que por apresen- tar maior tendência a uma deformação rúptil, condicionaram a formação e reativação, durante diversas vezes no Fanerozoico. Estas descontinuidades reativadas proporcionaram a sedimen- tação e deformação dos pacotes sedimentares da bacia, com a formação de falhas, padrões de fraturamento, altos e baixos estruturais alinhados devido a propagação destes nos pacotes sedimentares. Assim, os alinhamentos NW-SE, principalmente durante o Mesozoico, condici- onaram a entrada e alojamentos de soleiras e diques de diabásio, representados pela Formação Serra Geral, bem como a ocorrência de corpos alcalinos (Godoy, 2006; Soares, 1991).
3.3 Geologia Estrutural 3 Geologia Regional
Segundo Soares (1991), são reconhecidos cinco direções de alinhamentos: Paraná (N25E), Pitanga (N60E), Rio Ivaí (N45W), Rio Piriqui (N70W) e Goioxim (N20W). A direção Pitanga (N55 - 45E) é a mais importante, tendo extensão e deformação correspondendo a transcorrência principal, que foi reativada de forma paralela ao sistema de transcorrência sudeste (Cubatão, Jacutinga, etc.), com cinemática horária. A direção Paraná (N25 - 45E) corresponde a um leque de falhas de empurrão com alto ângulo até falhas mistas. As direções Piriqui e Ivaí correspondem a fraturas de extensão do sistema transcorrente Neoproterozóico.
Os principais alinhamentos reconhecidos são os do Rio Paranapanema, Rio Moji-Guaçu, Rio Tietê, com direções NW-SE, e o prolongamento da zona de falhas de Jacutinga, com direção NE-SW. A Figura 3.1 mostra os principais alinhamentos estruturais encontrados na Bacia do Paraná.
Figura 3.1: Principais alinhamentos estruturais da Bacia do Paraná. Retirado de Godoy (2006). Segundo Riccomini et al. (2005), o alinhamento Jacutinga exerce grande influência no arca- bouço estrutural, lhe associando aos diques clásticos injetados por fraturas de forma ascendente, com ocorrência próxima ao AEP, formados durante a reativação do alinhamento sofrido durante o Permotriássico. Os alinhamentos de direção NW-SE tem grande importância a partir do Cre- táceo Inferior, por ser a direção principal para o alojamento dos diques de diabásio ligados a
3.3 Geologia Estrutural 3 Geologia Regional
Formação Serra Geral, como por exemplo o Arco de Ponta Grossa.
Os alinhamentos estruturais tem papel fundamental para a formação e crescimento da bacia, sendo um fator ímpar para o controle da sedimentação, estruturação e erosão das unidades sedimentares desta bacia. Como estes alinhamentos são prolongamentos das descontinuidades que estão presentes no embasamento, atuaram como limites de blocos, delimitando portanto regiões com diferentes altitudes relativas, refletindo diretamente no controle sedimentar e nas espessuras das camadas sedimentares depositadas (Soares, 1991).
3.3.2 Quadro Regional
Soares (1974) discutiu duas hipóteses sobre a formação dos altos estruturais (Pitanga, Ar- temis, Jibóia e Pau D‘Álho), uma sendo tectônica e outra atectônica. O autor sugeriu o arque- amento das estruturas provocado por rochas intrusivas concordantes e compactação diferencial sobre irregularidades paleotopográficas e, para a hipótese tectônica, a implicação de esforços horizontais ou verticais. Estes esforços tectônicos deveriam estar ligados a Reativação Weal- deniana (Neo-Jurássico a Eo-Cretáceo), que ocorreram juntamente ou após os magmatismos basálticos. Fúlfaro et al. (1982) consideram o domeamento ocorrido nestes altos estruturais, como sendo contemporâneo ao soerguimento Jurássico-Cretácico da região costeira adjacente a Bacia de Santos.
Para Almeida (1981) a evolução da Bacia do Paraná teria sido influenciada por eventos tectônicos inicialmente compressivos durante o Paleozoico e posteriormente distensivos durante o Mesozoico, ligados aos processos de rompimento e separação da América do Sul e África. Segundo o autor, os falhamentos NW foram reativados no Juro-Cretáceo, os falhamentos NE não foram afetados e, no início do Triássico, os lineamentos E-W se desenvolveram provavel- mente relacionados aos processos envolvendo a abertura do Atlântico Sul, já que se apresentam paralelos às zonas de fraturas oceânicas.
Riccomini (1995) considera que os alinhamentos de direção WNW, NW e NNW reconhe- cidos na Bacia do Paraná influenciaram na distribuição destes altos estruturais, sendo que os altos estruturais de Pitanga, Jibóia, Artemis e Pau D‘Álho, estão localizados nas proximidades do cruzamento entre os alinhamentos Rio Mogi-Guaçu e Tietê, ambas com orientações NW-SE. Fúlfaro et al. (1982) consideram uma fase compressiva ativa no final do Permiano que originou a Estrutura de Pitanga e as falhas inversas associadas a ela, e no Neo-Jurássico a Eo-Cretáceo, estas estruturas foram reativadas.
Para Zalán et al. (1990) as estruturas de orientação NW bem como as de orientação NE, apresentam claras evidências de movimentações tectônicas com um componente horizontal, que são atribuídas aos estágios mais finais do magmatismo Serra Geral.
3.3 Geologia Estrutural 3 Geologia Regional
Alto Estrutural de Pitanga (AEP)
O Alto Estrutural de Pitanga, também denominado de Domo de Pitanga em alguns trabalhos (e.g., Riccomini, 1992; Sousa, 1997), possui a morfologia de um domo, ou seja, um braquianti- clinal que se encontra no vale do rio Corumbataí, com os flancos de delimitados pelos sistemas de falha Passa Cinco - Cabeça e Ipeúna - Piracicaba. Uma das características principais desta estrutura, é o fato de que o Grupo Itararé aflorar rodeado por unidades mais superiores da bacia, podendo se observar praticamente toda a coluna estratigráfica da Bacia do Paraná.
O sistema de falhas Passa Cinco - Cabeça é considerado o mais importante dentro do AEP, pois apresenta a maior diversidade de estruturas. Nela encontra-se um arranjo de falhas normais de direção preferencial NW-SE, e ainda falhas isoladas com orientação próxima a N-S e NNE- SSW. Algumas características principais como o preenchimento de falhas por rochas básicas, falhas que cortam sequências basais (Formação Combumbataí) e falhas que controlam a linha de afloramentos da Formação Rio Claro, podem ser observadas (Sousa, 2002). O sistema de falhas Ipeúna-Piracicabaapresenta arranjo de falhas normais com direção preferencial NW-SE e secundariamente NE-SW, e algumas falhas isoladas com direção N-S e E-W. Ocorrem também falhas direcionais de direção NW-SE, sendo a maioria de cinemática dextral com altos valores de mergulho. As falhas deste sistema exercem grande influência no controle de drenagem e relevo local, ao longo dos traços do Rio Corumbataí e de alguns dos seus afluentes (Sousa, 2002).
Segundo Sousa (1997), existem pelo menos três etapas para o desenvolvimento das falhas que geraram esta estrutura, sendo a primeira etapa marcada por um conjunto de falhas normais com distensão aproximada E-W, a segunda marcada por falhas sindeposicionais a Formação Rio Claro em uma tectônica distensiva e uma terceira etapa marcada por falhas inversas e trans- correntes que deformam a Formação Rio Claro.
Segundo Riccomini (1992) e Riccomini et al. (2005), o AEP teria sido originado a partir de 6 principais fases de movimentação tectônica, entre o Paleozoico e o Quaternário: (1) Eventos sísmicos que foram responsáveis pela injeção dos diques clásticos na Formação Corumbataí, por liquefação de depósitos marinhos, relacionados a reativação das Falhas de Jacutinga no Neo-Triássico; (2) Extensão na direção NE-SW com o alojamento de diques e soleiras no Eo- Cretáceo; (3) Transcorrência dextral gerando falhas transcorrentes com orientação NW-SE a WNW, NNE e ENE, falhas inversas e, localmente, dobras; (4) Compressão na direção NE-SW com a formação de falhas transcorrentes sinistrais de direção ENE, e também falhas transcor- rentes destrais de direção NNE e NNW; (5) e (6) Neotectônica no vale do Rio Passa Cinco, apresentando falhas normais e reversas de direção NE, relacionadas a uma tração NW-SE.
A Figura 3.2 mostra o arranjo estrutural da região onde se encontram as áreas de estudo. Pode-se observar que a região é caracteriza por um arranjo de lineamentos de direção NW-SE, NE-SW e E-W, que se relacionam com as zonas de falhamentos normais descritos na área. Assim, as falhas NW-SE foram de importância para o desenvolvimento e estruturação do Alto
3.3 Geologia Estrutural 3 Geologia Regional
Estrutural de Pitanga, e outros altos presentes na região.
Figura 3.2: Principais lineamentos e falhas da região de Rio Claro, Piracicaba e Ipeúna. O Alto Estrutural de Pitanga está delimitado pelo círculo 1 (Modificado de Sousa (2002)).