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4. Analysis

4.5 Pay to win, free-to-play, and pay to play

Os gêneros profissionais são designados por Clot (2010, p.89) como orientadores da ação dos trabalhadores. Esses gêneros, geralmente, permanecem implícitos e oferecem a cada um a possibilidade de apoio, em todos os sentidos do termo. O autor afirma que esse conceito de gênero procura extrair algumas consequências da experiência dos grupos homogêneos, ou seja, cada coletivo de trabalho tem suas maneiras de “fazer, dizer ou sentir” (CLOT, 2010, p.89) estabilizadas, durante algum tempo, em seu meio profissional; elas dizem respeito às tarefas, ao coletivo de trabalho, às relações de hierarquia.

Por esse motivo, Clot (1999) defende a existência de gêneros sociais de atividades, os quais contêm não somente os gêneros de discursos (BAKHTINE, 1984 apud CLOT, 1999), mas, ainda, gêneros de técnicas, que estabelecem a ligação entre a operacionalidade formal e prescrita dos equipamentos materiais e as maneiras de agir e de pensar de um grupo. Para Clot (2010, p.89), além da presença de enunciados deslocados ou convencionais em um meio profissional, constata-se a presença de gestos, de atos materiais e corporais aceitos ou não.

Dessa forma, encontra-se uma “gama de atividades obrigatórias, possíveis ou, ainda, proibidas” (CLOT, 2010, p.89). De acordo com ele, os previsíveis sociais de um gênero, na maioria das vezes subentendidos, referem-se tanto às atividades técnicas e corporais quanto às atividades de linguagem. Os gêneros de atividade vinculados a uma situação e a um meio estabilizam e fixam (nunca de modo definitivo) as maneiras comuns de considerar “as coisas e os homens” (CLOT, 2010, p.89-90).

Segundo Clot (2010, p.90), uma das características dos gêneros de atividade merece atenção. Eles, de certa forma, “conservam uma função psicológica para cada trabalhador à medida que servem para agir”. Para o autor,

os gêneros são, portanto, coerções e, ao mesmo tempo, meios de agir; recursos de que se pode dispor, assim como obrigações a cumprir para serem válidas nossas intenções na interação com os outros e no uso dos objetos; como ainda, um instrumento, um sistema transpessoal de métodos que garantem ao sujeito o controle e a avaliação das finalidades de sua ação singular, os quais exercem influência no poder de agir dos trabalhadores. (CLOT, 2010, p. 89-91).

Clot (2010, p.119) esclarece que entre a organização do trabalho e o próprio sujeito existe um trabalho de reorganização da tarefa pelos coletivos profissionais. O objeto teórico e prático que a Clínica da Atividade esforça-se para circunscrever é precisamente o trabalho de organização do coletivo em seu meio, mais especificamente seus entraves, seus equívocos, seus sucessos e insucessos, ou seja, sua história possível e impossível.

Portanto, segundo Clot (2010, p.119), entre o prescrito e o real, há um terceiro termo que o autor designa como gêneros sociais do ofício ou gêneros profissionais. Nesses gêneros, incluem-se, ainda, as obrigações compartilhadas pelos trabalhadores para realizarem suas tarefas frequentemente, os obstáculos, a organização prescrita do trabalho (já incorporada pelo coletivo em si) e as prescrições impostas. Clot (2010, p.119) ressalta que sem o recurso dessas formas comuns da vida profissional assiste-se a um desregramento da ação individual, a uma “queda do poder de ação”, a uma tensão vital do coletivo, a uma perda de eficácia do trabalho e da própria organização. O autor afirma, ainda, que a noção de gêneros profissionais provém da noção de gêneros proposta por Bakhtin, em outro contexto, para refletir sobre a atividade linguageira20. Para esse autor, as relações

entre o sujeito, a língua e o mundo não são diretas e manifestam-se através dos gêneros discursivos de que o sujeito dispõe para entrar em intercâmbio (BAKHTINE, 1984, p.285 apud CLOT, 2010, p.120).

Para Clot (2010, p.121), esses gêneros são falares sociais em uso em determinada situação. Podemos pensar na mesma relação quando o foco é o trabalho, porque as formas prescritas são, para os trabalhadores, em relação à sua forma de agir, ao mesmo tempo, restrições e recursos. Segundo o autor, os gêneros profissionais, de algum modo, são partes implícitas da atividade, isto é, são considerados como um intermediário social, um conjunto de avaliações

20 Terno usado para referir que diálogo é uma relação, na interação viva, entre previsíveis e imprevisíveis, entre o reiterável e o acontecimento. (Ver Faïta, 1998 apud Clot, 2010).

compartilhadas que, de maneira tácita, organizam a atividade profissional. Os sujeitos:

Sabem o que devem fazer graças a uma comunidade de avaliações pressupostas, sem que seja necessário (re-) especificar a tarefa a cada vez que ela se apresenta e são conhecidas pelo coletivo, por isso não há necessidade de verbalizá-las (CLOT, 2010, p. 121-122).

Quanto à restrição e ao recurso dos gêneros profissionais, dentre outros aspectos, Clot (2010, p.125) salienta que em um meio profissional não se abandona a ideia de compartilhar formas de vida em comum, reguladas e reforçadas pelas circunstâncias. Segundo Clot (2010), as tensões enfrentadas pelos trabalhadores são, muitas vezes, um bom sinal para se buscar a estabilidade do gênero profissional, e a renúncia ao gênero pode significar uma desordem na ação individual do trabalhador. Portanto, os gêneros profissionais desempenham uma função psicológica insubstituível. Clot (2010, p.125) defende a tese de que, em seu aspecto essencialmente transpessoal, os gêneros profissionais exercem a função psicológica na atividade de cada um. Eles organizam as atribuições e as obrigações ao definir essas atividades independentes das características subjetivas dos indivíduos que as executam em um dado contexto.

Enfim, os gêneros ajustam não as relações intersubjetivas, mas as relações interprofissionais ao fixar “o espírito dos lugares como instrumento de ação” (CLOT, 2010, p.125). É por meio de seu intermédio que os trabalhadores avaliam-se e julgam-se mutuamente (cada um deles avalia sua própria ação). Clot (1999, p.4) ressalta que os gêneros profissionais constituem-se, ao mesmo tempo, de restrições e recursos. Os gêneros seriam constantemente transformados e reestruturados “sob o efeito das contribuições estilísticas dos indivíduos ao trabalho”. Segundo Bronckart (2008, p.101), trabalhos como os de Clot (1999/2006) demonstram que o estilo, a forma de fazer do trabalhador, permite um “retrabalhar contínuo dos gêneros em situação”.