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Em relação ao texto empírico, segundo Bronckart (1999), sua estrutura interna é considerada um “folhado” constituído por três camadas superpostas: a

infraestrutura geral do texto, os mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos. A infraestrutura geral do texto refere-se ao nível organizacional dos textos. Essa infraestrutura geral é constituída pelo seu plano geral (plano

global), pelos tipos de discursos do texto, pela modalidade de articulação desses tipos de discurso e por suas sequências locais.

3.5.1 O plano geral e as sequências textuais

O plano geral ou global pode ser visualizado no processo de leitura e configurado em forma de um resumo dos conteúdos temáticos. Podemos também,

com ele, identificar os actantes principais postos em cena pelos textos e depreender os segmentos temáticos centrais. Para a identificação do plano global, servimo-nos, por exemplo, de diferentes índices linguísticos: os macro-organizadores textuais, peritextuais (intertítulos, mudanças de partes ou de capítulos), cotextuais (presença de parágrafo introdutório, apresentando as divisões do texto) e os conhecimentos prévios em relação ao gênero ao qual o texto pertence. Identificadas essas partes, elas são nomeadas, de preferência, com termos referentes às categorias da Semiologia do Agir, propostas por Bronckart (2004a), ou aos elementos constitutivos do trabalho do professor.

Entretanto, segundo Machado e Bronckart (2009), o trabalho de identificação do plano global e das sequências textuais (tipos de textos) não deve acabar aí. “É necessário ainda interpretar o conjunto dos resultados” (MACHADO; BRONCKART, 2009, p.54). Os autores ressaltam que o plano global pode indicar se todos os textos que veiculam prescrições podem ser classificados como “textos prescritivos propriamente ditos” (MACHADO; BRONCKART, 2009, p.54), com a presença de uma sequência injuntiva (cf. FILLIETTAZ, 2004), ou como “prefigurativos ou procedimentais”. O plano global pode, ainda, identificar a relação que se estabelece entre o enunciador e o destinatário.

Quando o texto se organiza em uma sequência textual global, segundo Machado e Bronckart (2009), podemos também identificar as representações feitas pelo produtor sobre os objetivos de sua ação linguageira, conforme o tipo de sequência, (convencer, fazer compreender, dirigir o olhar do destinatário, manter sua atenção), as suas representações em relação ao objeto temático (se difícil de ser compreendido pelo destinatário ou controverso), as suas capacidades de compreensão e a posição do destinatário em relação ao objeto tematizado (igual ou diferente à posição do produtor).

Portanto, essa análise do nível organizacional pode trazer informações, mesmo que parciais, sobre a figura do professor, que é construída, e sobre alguns dos aspectos de seu trabalho (MACHADO; BRONCKART, 2009). Cabe destacar que as sequências explicativas locais nos textos são “outro índice de que se representa o objeto temático como sendo de difícil compreensão para os professores, o que é uma das características que dá a esses documentos um ar de

gênero de divulgação científica ou paradidático” (MACHADO; BRONCKART, 2009, p. 55).

Finalmente, a presença marcante de sequências argumentativas nesses textos apresenta o objeto temático como controverso, indicando que os professores podem ter posições diferentes das dos prescritores. Segundo Machado e Bronckart (2009), um dos objetivos desses textos é convencer os destinatários de que as proposições defendidas são verdadeiras, razão pela qual devem ser aceitas. Além disso, os autores ressaltam que, em se tratando do agir, a detecção do plano global permite uma primeira identificação dos tipos de agir principais que são organizados por esse plano, das fases representadas da tarefa e dos actantes principais.

3.5.2 Os tipos de discurso encontrados nos textos

Quanto aos procedimentos utilizados para a identificação dos tipos de

discurso ou das “modalidades de organização enunciativa”, conforme Bulea (2007),

eles são os mesmos já explicitados em inúmeros trabalhos de Bronckart (1997) e de outros pesquisadores que assumem o Interacionismo Sociodiscursivo como sua base teórica central. Esses tipos de discurso são definidos como segmentos textuais que podem ser identificáveis e diferenciados com base em suas características linguísticas ou nas configurações de unidades linguísticas específicas de cada um deles (um subconjunto de tempos verbais, determinados pronomes, organizadores). A identificação desses segmentos é o ponto central para a detecção das “figuras interpretativas do agir” ou, como propostas por Bulea (2007, 2010), das “figuras de ação” (MACHADO; BRONCKART, 2009, p.56).

Os tipos de discurso considerados pelo ISD, com base em Bronckart (1997), são: interativo, relato-interativo, teórico e de narração. O discurso interativo é caracterizado pela presença de pronomes pessoais (eu, tu, nós, você), que representam os participantes da interação, e pela presença de tempos verbais (presente, futuro perifrástico, imperativo), os quais situam as ações verbalizadas temporalmente de acordo com o momento de produção. Segue exemplo:

“Como eu disse a vocês... o propósito da aula hoje... é que nós... é que vocês discutam... discutam os dois textos que vocês estão com eles... o propósito da aula... é que vocês discutam... os textos que estão consigo [...]”. (Segunda aula transcrita do Professor – turno 01).

O discurso relato-interativo caracteriza-se pela presença de unidades

linguísticas que situam os participantes da interação (desinência verbal e pronomes pessoais). O par perfeito-imperfeito situa os fatos narrados como distantes temporalmente em relação ao momento da produção, conforme exemplificado:

“Eu tinha muitas ilusões. Acreditava realmente que trabalhar no ensino superior era completamente diferente do trabalho que nós desenvolvemos no ensino fundamental e médio [...]”. (Primeira entrevista – Professor – turno 07).

O discurso teórico caracteriza-se pela ausência de marcas de referência

aos participantes da interação e pelo uso marcante do tempo presente genérico. Pode haver presença de você genérico, que remete aos pólos da interação verbal em geral, mas não aos protagonistas concretos da interação em curso. Além disso, os acontecimentos verbalizados são descritos como existentes no momento da produção, como evidenciado:

“[...] Trabalhar com alunos que têm objetivos e trabalhar com alunos que não têm objetivos, que são pressionados pelas instituições que prestam serviços para estarem numa faculdade e concluírem o curso superior [...]”. (Primeira entrevista – Professor – turno 07).

O discurso de narração caracteriza-se pela ausência de qualquer unidade

linguística que remeta ao participante da interação e pela presença de uma referência textual que desloca o acontecimento verbalizado para um tempo separado, distante do momento da interação. Eis um exemplo:

“[...] Ela descreveu ali... uma praia de nudismo... ela poderia...// Cidadezinha qualquer... ele vai descrevendo uma cidadezinha do interior... depois ele vai mostrando as características da cidadezinha [...]”. (Primeira aula transcrita – Professor – turno 15).