4. Analysis
4.11. Loot Box legislations and restrictions
O quadro teórico-metodológico do ISD fundamenta-se em uma visão de desenvolvimento humano com base em Spinoza (1677/1954), Marx (1845/1951), nos princípios de Leontiev, Luria e, principalmente, em Vygotsky. Entretanto, o ISD, que rejeita os princípios teóricos do behaviorismo, não se caracteriza como uma corrente linguística, filosófica, psicológica ou sociológica, mas como uma corrente que se pode chamar de ciência do humano (BRONCKART, 2006).
O ISD desenvolve uma abordagem transdisciplinar dos fenômenos humanos, buscando subsídios em diversas disciplinas. Essa abordagem filia-se ao movimento do interacionismo social, considerando-se uma de suas variantes. Para Bronckart (1997/2003), a expressão Interacionismo Social designa uma posição epistemológica que pode ser reconhecida nas diversas correntes das Ciências Humanas. Essa área de conhecimento considera “as propriedades específicas das condutas humanas como sendo resultado de um processo histórico de socialização, possibilitada pela emergência e pelo desenvolvimento dos instrumentos semióticos” (BRONCKART, 1997/2003, p. 21).
No entanto, o ISD, pelo fato de a linguagem assumir um papel fundamental e decisivo no desenvolvimento humano, tanto em relação aos conhecimentos e aos saberes quanto em relação às capacidades do agir e à identidade das pessoas, diferencia-se do Interacionismo Social de Vygotsky. Em razão da importância dada à linguagem, a formulação do ISD envolve um componente discursivo, denominado sociodiscursivo, segundo Bronckart (1997/2003).
Para Bronckart (2008), a ideia fundamental do interacionismo é a de que a evolução humana deve ser apreendida em uma perspectiva dialética e histórica. O autor afirma que não se pode conceber a genealogia humana em termos de uma linha direta e contínua (Piaget), mas em termos de uma “linha indireta ou
descontinua”. O autor acrescenta que as capacidades biológicas da espécie humana possibilitariam as atividades coletivas com o uso de instrumentos. Para a organização dessas atividades, foi “necessária a emergência de produções linguageiras”. Essas atividades gerais e suas atividades linguageiras, por sua vez, deram origem a: “[...] um mundo de fatos sociais e de obras culturais, que se superpôs ao meio físico, e a reabsorção dos elementos desse mundo por organismos particulares levou à construção de um funcionamento psíquico consciente” (BRONCKART, 2008, p.110).
Desse modo, segundo o autor, é preciso rejeitar toda concepção essencialista do ser humano e analisar cientificamente as suas capacidades em uma perspectiva genealógica. Ele esclarece, ainda, que Vygotsky atribui à linguagem um papel central no desenvolvimento, na construção das atividades coletivas, das formações sociais, dos mundos representados (cf. HABERMAS, 1987), nas mediações formativas e transformadoras dos indivíduos. Entretanto, Bronckart (2008) ressalta que, apesar de essas concepções tentarem instaurar uma entidade da ordem do agir como unidade central das Ciências Humanas, Vygotsky não conseguiu completar seu projeto, o qual foi retomado por Leontiev na Teoria da Atividade. Esse modelo resultante, mesmo que procurasse estudar a questão da atividade, tomando a linguagem como um mediador, não explorou o papel desta como instrumento.
Assim, Bronckart (2004), com o objetivo de superar essa lacuna, encontrou em outras teorias pressupostos que o ajudaram a explicitar o papel da linguagem no desenvolvimento humano. Com a reformulação do trabalho de Habermas (1987), Bronckart (2004, 2008) propõe a relação entre a linguagem e o agir humano. Para ele, o agir realiza-se levando em consideração as representações coletivas, que são organizadas em sistemas chamados por Habermas (1987) de mundos (formais ou representados): mundo objetivo, mundo social e mundo subjetivo. Segundo Bronckart (2008, p.22), em determinado “estado sincrônico esses três mundos constituem os sistemas de coordenadas formais em relação aos quais todo agir humano exibe pretensões de validade e a partir das quais se exercem avaliações e/ou controles coletivos”.
Para o autor, essas três dimensões não são propriamente tipos de agir, mas indicam, de algum modo, como o agir humano pode ser avaliado. Essa abordagem
permite-nos identificar que toda forma de agir se realiza em função de sistemas, de determinações diversas (relacionadas ao próprio produtor do texto, a seus destinatários, à sociedade, ao meio físico) em conflito. Para exemplificar isso, um indivíduo pode julgar correto tomar uma decisão que o favorece, mas, ao mesmo tempo, entrar em conflito consigo mesmo, pois tal decisão pode afetar um coletivo de trabalho. Assim, o agir envolve conhecimentos explícitos e implícitos, conflitos entre representações de mundo do próprio indivíduo e dos diferentes envolvidos em uma dada situação, isto é, confrontos entre os elementos do mundo vivido e os conhecimentos formais individualizados.
Bronckart (2004), ao reformular a tese de Ricoeur (1983; 1984; 1985) sobre a reconfiguração do agir humano por meio de textos narrativos, afirma que, para Ricoeur, o ser humano encontra-se em constante conflito diante de inquietude existencial e das contradições de seu tempo, pois as representações sobre o agir são contraditórias, conflituosas ou não racionais.
Conforme Ricoeur (1983; 1984; 1985), o ser humano encontra na narrativa, ou seja, na elaboração de textos narrativos, um modo de superar esse estado “caótico” por meio da “reconfiguração das ações”. Isso acontece com a construção de um mundo “ficcional” em que os agentes, os motivos, as intenções, as razões, as circunstâncias são postos em cena de modo racional, sem que haja contradições ou conflitos. Assim, cria-se uma harmonia que serve para organizar o “caos existencial”. Como esses textos estão disponíveis a todos, os indivíduos podem apropriar-se deles para construir uma possível compreensão das ações e de si mesmos como agentes e atores (BRONCKART, 2004).