Então solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra. Mark Twain
Com novos tempos, desponta a sociedade moderna. A era da globalização chegou sem “pedir licença”, exigindo inúmeras transformações nos âmbitos pessoal, social, cultural, político, pedagógico. Dessa forma, esta unidade tem como proposta descrever de que forma tais mudanças têm impactado o desenvolvimento humano e de que forma o exercício da autonomia tem contribuído, por meio das tecnologias e dos ambientes virtuais, para a aprendizagem e a formação de um cidadão consciente, crítico e reflexivo.
Freire (2011) alerta a sociedade quanto à necessidade de se estar atento às práticas de desumanização presentes nas entrelinhas da globalização, que muitas vezes promove a cultura de massa, o pensamento tecnicista, limitando a formação integral do sujeito. Enfatiza-se que autonomia não é somente independência, autodidatismo ou proatividade, mas também, como destaca Lalande (1999, p. 115) “[...] a condição de uma pessoa ou de uma coletividade cultural, que determina ela mesma a lei à qual se submete”.
Ao longo da história da humanidade, foram realizados inúmeros estudos investigativos dedicados especialmente à apreciação no que se refere à autonomia. Segundo Zatti (2007), na própria filosofia, em Platão (428/427 a.C. - 347 a.C.), identifica-se que o conceito de autonomia estava vinculado ao domínio de si e de seus desejos. Em Sócrates, destaca-se a proposta de conhecer a si, integralmente. Em Aristóteles (384/383 a.C. - 322 a.C.), o principal marco consiste na intensa busca pela dimensão moral da autarcia: a felicidade. Ele salienta que:
Quando a vontade é autônoma, promulga leis universais isentas de todo interesse, que reclamam a obediência por puro dever, que é a própria idéia do imperativo categórico. Dessa forma Kant considera a autonomia da vontade o princípio supremo da moralidade (cf. KANT, 1974a, p.238). A esta idéia de autonomia se prende a idéia de dignidade da pessoa. O ser racional ao participar da legislação universal, ao se submeter à lei que ele próprio se confere, é fim em si, não possui valor relativo, mas uma dignidade, um valor intrínseco. “A autonomia é pois o fundamento da dignidade da natureza humana e de toda a natureza racional” (idem, p. 235). […] A idéia que perpassa toda a obra acima citada é a de uma educação pelo exercício racional que leva à autonomia. (ZATTI, 2007, p.
16).
Séculos depois, na cultura contemporânea, identificam-se resquícios de corriqueiras iniciativas nas quais faltam o compromisso social, a integração do sujeito com a sociedade e nas quais, muitas vezes, tal indivíduo se encontra vitimizado pelo processo de globalização e até mesmo pela não participação da “elite intelectual”, daqueles que detêm pensamento bem articulado, fundamentado em concepções críticas que norteiam a educação para a prática da liberdade.
Segundo Freire (2011), a autonomia consiste na capacidade de se autogestionar, na capacidade de agir livremente, no exercício pedagógico de experiências que estimulem a responsabilidade do sujeito, a ação-reflexão-ação, lembrando que Freire (2011, p. 47) “[...] ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Um indivíduo autônomo fomenta novas iniciativas, construções, incentiva a criatividade e a autoria, possibilitando a emancipação, pois afirma Perrenoud (1999, p. 96) “[...] toda ação educativa só pode estimular o autodesenvolvimento, a autoaprendizagem, a autorregulação de um sujeito, modificando seu meio, entrando em interação com ele”.
Para garantir a formação integral e o exercício da autonomia, o sujeito precisa estar disposto a solucionar efetivamente rotineiras questões. Zabala e Arnau (2010) afirmam que as competências cognitivas são elementos indispensáveis frente às realidades, uma vez que, por meio delas, o indivíduo pode intervir ativamente nos problemas do cotidiano, dominando, além de procedimentos técnicos, destrezas necessárias à resolução de questões.
Conforme apresentado por Castells (1999), considerada a atual sociedade e os paradigmas tecnológicos, é imprescindível propiciar ao indivíduo aprendizagem baseada nas dimensões política, social, afetiva, fundamentando-se em situações- problema, desafiadoras, interativas, envolvendo aspectos dialéticos entre significante e significado. Assim, o sujeito desenvolverá iniciativas investigadoras, autônomas, imprescindíveis no contexto existencial da sociedade contemporânea.
Na Figura 3, pode-se observar a representação e as relações de interatividade estabelecidas nas dimensões política, social e afetiva do sujeito, que servem como energia propulsora e promovem o desenvolvimento da dimensão
autônoma. Sobressai que, dependendo do contexto sócio-histórico em que o indivíduo se encontra inserido, tais iniciativas poderão ser utilizadas de forma diferenciada, com menos ou mais intensidade.
Figura 3 – Dimensões do desenvolvimento autônomo
Fonte: Freire (2012) adaptado.
Para Piaget (2005), os aspectos político, social, afetivo e cognitivo integram o processo de impulso necessário à aprendizagem e ao desenvolvimento de competências autônomas, porquanto o diálogo com o outro, as relações sociais, as relações de afetividade estão em permanente interação. Em sua concepção, o desenvolvimento intelectual do sujeito está conectado à fase de desenvolvimento biológico e de adaptação do indivíduo ao meio. Ao se considerar a base teórica piagetiana, não há competência absoluta, mas diversas, desenvolvidas e em desenvolvimento constante, impulsionando iniciativas, ações, resolução de situações-problema, que, segundo Piaget (2005), acontecem pelos processos de assimilação e acomodação, isto é, quando ocorre a movimentação de recursos de mobilização, ocorre a evolução, o desenvolvimento psicológico do sujeito.
Piaget (1995) enfatiza que tais elementos possibilitam a formação integral do indivíduo, que se constitui pelo sujeito epistêmico (aquele que compreende o real, em que se concentra a responsabilidade pela construção do conhecimento) e o sujeito psicológico (aquele que leva em conta a particularidade, a subjetividade humana). Na concepção piagetiana, o homem é um sujeito biofisiológico, ou seja,
Autonomia Afetivo Social
utiliza as funções no contexto fisiológico (neurológico, genético, bioquímico, dentre outros) e no biológico.
Já aos olhos de Bourdieu (1998), a sociedade é composta por um conjunto de áreas. Nelas existem questões, situações hostilizadoras que permitem o aprimoramento de ações eficazes, estimulando o desenvolvimento de atitudes que impactam a ampliação do capital cultural e consequentemente o desenvolvimento humano.
A proporção seria esta - quanto maiores as ações e as estratégias eficazes, maior o desenvolvimento do capital cultural6. Quanto maior o envolvimento, a iniciativa, maior a aprendizagem e o desenvolvimento de habilidades e consequentemente de autonomia. Pode-se asseverar, portanto, que, por meio das mudanças sociais ocasionadas pelas relações humanas, das tecnologias e até mesmo do meio, é possível potencializar o desenvolvimento pessoal de cada indivíduo, principalmente qualitativamente. A comunicação propicia a cooperação, a interatividade, a autoria e é imprescindível à consolidação de novas competências, permitindo ao sujeito psicológico o exercício efetivo de sua aprendizagem, criatividade e autonomia.
Para vivenciar e compreender o desenvolvimento autônomo é preciso tornar- se capaz de assumir riscos, ter consciência dos limites e das possibilidades, exercitar a liberdade conscientemente, construir autoria, mesmo diante de coação. É imprescindível exercitar a dimensão cooperativa do plano atitudinal e cognitivo, contribuindo para o estabelecimento de novas relações interativas, cooperativas e de respeito mútuo. Reitera Cunha Filho (2003, p. 66) “Não há autonomia fora do social; a autonomia por sua vez, em hipótese alguma, significa anulação do indivíduo.” ao contrário, exercer a autonomia é contrapor-se ao individualismo, ao egocentrismo.
É preciso instigar o sujeito a comprometer-se com relações sociais, reflexões críticas, coletivas, aproximando-o dos objetos cognoscíveis propostos não somente por conteúdos mecanicistas e lineares, mas principalmente por situações-problema, assumindo atitudes críticas e tendo como referência as próprias experiências.
6Pode ser compreendido como o “conjunto de conhecimentos e relações com a cultura e a linguagem”. (CHARLOT, 2013, p. 135)