Em 1882 noticia-se a intenção de construir um novo teatro no centro do Porto. Havia já um projecto concreto para o mesmo, iniciativa de Manuel Benjamim Coelho Guimarães e Benjamim de Oliveira, «dignos commerciantes e devotados amadores da arte dramatica», que haviam constituído sociedade, para tal empreendimento, com o conhecido e influente empresário Moutinho de Sousa. A dita Sociedade viria a adquirir os terrenos do largo da Cancela Velha, onde se encontrava até então em funcionamento o popular Teatro da Trindade, tendo sido a sua demolição «superiormente ordenada» de
71 A partir do original Un drama nuevo de Manuel Tamayo y Baus, tradução de Fernando Caldeira. 72
175 forma a construir um teatro de primeira ordem, com projecto do Arquitecto Tomás Soller (O Comércio do Porto, 6.04.1882, p. 2).
Convém retirar desta iniciativa duas reflexões. Em primeiro lugar, questionarmo-nos se necessitava o Porto de outro teatro de primeira ordem ou se se tratava do aproveitar, por parte desta sociedade, do descrédito em que havia caído o Teatro de S. João. Em segundo, procurar o porquê da demolição dos teatros populares da cidade no mesmo ano (1882), o Trindade e o Variedades, ambos situados fora da rede do Bairro teatral.
Até este momento descobrimos vários aspectos relacionados com a gestão dos espaços teatrais do Porto e em particular as estratégias de variada ordem no sentido da sua sobrevivência comercial. Vimos que a crise trouxe dificuldades que alguns teatros souberam superar e que o Teatro de S. João se manteve numa crise latente e persistente, sob a mira dos espectadores que dele exigiam altíssima qualidade, mas que nem sempre viabilizavam com a sua presença a sua subsistência. Procurámos, por outro lado, acompanhar a actividade de teatros que, apesar de situados fora da rede a que chamamos Bairro teatral, foram importantes pólos de espectáculo e atraíram públicos frequentadores desse mesmo, com ele entrando em concorrência. Porém, essa concorrência em pouco afectava o Bairro: o público encontrava nele as novidades teatrais e a folia que procurava; os homens do mundo do teatro, o melhor e mais propício lugar da cidade para fazer vingar o seu negócio.
Dito isto, e abordando a segunda questão, parece-nos que, se o desaparecimento do Teatro da Trindade pode ser entendido na óptica da construção de um novo teatro no mesmo local onde se achava já implantado e como consequência da vistoria pouco abonatória por parte da Comissão de Inspecção aos Teatros e Casas de Espectáculos da Cidade do Porto (CARNEIRO 2002: 855), o Teatro das Variedades deve ter sido vítima das vistorias e dos melhoramentos que se terá visto incapaz de implantar, de forma a continuar a funcionar. Através da imprensa da época, damo-nos conta do iminente desaparecimento deste último através de uma notícia acerca de um benefício a realizar- se no Teatro do Príncipe Real:
A empreza do theatro das Variedades em quanto não consegue abrir o seu theatro com os melhoramentos que lhe foram indicados pela authoridade competente rogou á empreza do theatro Principe Real, para que n’este theatro sejam realisados alguns
176 espectaculos em beneficio de alguns artistas escripturados com quem se acham compromettida. (O Comércio do Porto, 6.04.1882, p. 3)
Alguns meses depois, achando-se já devoluto, anunciava-se a demolição do Teatro das Variedades, espaço que para além do importante papel social que desenvolveu no espaço urbano em que se inseria, terá servido, como já anteriormente referimos e o cronista indica, como rampa de lançamento para vários actores que agora vingavam em outros palcos de maior visibilidade:
Vai desapparecer o velho e desgracioso casarão denominado Theatro de Variedades, que tantas horas agradaveis proporcionou outr’ora aos seus frequentadores habituaes e que abriu carreira a diversos artistas dramaticos que hoje trabalham em companhias consideradas. (O Comércio do Porto, 7.10.1882, p. 1)
Recordava-se aquele que serviu de semente para este teatro, a antiga barraca dos Dallots, «iniciadores entre nós do theatro barato», que foi vítima de um incêndio de «algum invejoso das prosperidades» destes empresários. Ficava uma certa mágoa pelo desaparecimento do «popular theatro» que «valha a verdade, deixa saudades a muitos». Infelizmente, foi «condemnado por não satisfazer aos mais hodiernos progressos das casas de espectaculos» (O Comércio do Porto, 7.10.1882, p. 1). O Teatro das Variedades foi demolido a 7 de Outubro de 1882 (O Comércio do Porto, 8.10.1882, p. 2), resumindo-se a actividade teatral da cidade ao Bairro teatral, até à construção do Teatro Carlos Alberto, em 1897. Era também o fim temporário dos teatros populares e, consequentemente, do “teatro barato”. Mas há que notar um importante facto também referido na notícia do jornal: os desenvolvimentos urbanísticos, as exigências de conforto e segurança geralmente feitas ao espaço urbano interferiram com a vida de teatros que já não se coadunam com esses novos padrões de modernidade. O Bairro teatral parecia estar melhor apetrechado para responder a essas novas exigências.
Voltando então ao Teatro da Rainha, vemos que os seus empreendedores não deixavam nada ao acaso, nem mesmo o nome. E havendo já o teatro do “Príncipe Real”, em 1883, procurou-se autorização para utilizar o pomposo título de teatro “da Rainha”:
S. M. el-rei, a quem hontem foi apresentado pelo snr. Antonio Moutinho de Souza o projecto do novo theatro (…), dignou-se permittir que esse (…) seja denominado Theatro da Rainha. (O Comércio do Porto, 7.01.1883, p. 2)
Profetizavam então os cronistas da época que este teatro passaria a ser, quando inaugurado, «um dos primeiros, senão o primeiro, do nosso paiz, não só em quantidade de lugares como na boa disposição de todas as divisões internas do edifício» (O
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Comércio do Porto, 7.01.1883, p. 2). Porém, a empresa responsável sofreria um
prematuro e rude golpe, com o trágico falecimento do mentor do teatro, o Arquitecto Tomás Soller, a 12 de Junho de 1883 (O Comércio do Porto, 13.06.1883, p. 1):
Foi hontem [2 de Julho de 1883] lançada a primeira pedra para a construcção do Theatro da Rainha (…). Os iniciadores do theatro tiveram o bello pensamento de aproveitar o lançamento da primeira pedra para ligarem ao edificio uma commemoração imperecível do artista [que] o projectou. (O Comércio do Porto, 3.07.1883, p. 1)
O retrato do falecido Arquitecto, «pintado sobre azulejo», foi colocado «debaixo da primeira pedra», sendo igualmente depositadas «algumas moedas». No mesmo podia ler-se uma legenda: «Thomaz Augusto Soller, projectou este theatro que não logrou vêr construido, em 1882». Estiveram presentes na cerimónia os proprietários do teatro, Manuel Benjamim, Benjamim de Oliveira e Moutinho de Sousa, bem como o agora Arquitecto responsável pela direcção das obras, António Francisco Fontes Soares73, e o «constructor» Manuel Gomes da Silva (O Comércio do Porto, 3.07.1883, p. 1).
Tendo a construção do novo teatro começado em Agosto de 1883, em Dezembro surge a notícia a dar conta que as obras prosseguiam «com grande actividade», prevendo-se que devia «ficar concluido em agosto do proximo anno [1884].» Supomos que estariam lançadas as suas fundações, já que se acrescenta que «o theatro vai bem construido, conhecendo-se já pelas obras realisadas as proporções e a disposição interna d’aquelle edificio, que no seu genero será um dos primeiros do paiz» (O Comércio do
Porto, 13.12.1883, p. 1). Após esta notícia, nada mais se soube deste teatro através da
imprensa da época.
Tudo indica que um desentendimento entre os proprietários e o Governador Civil, que, autoritariamente, queria ver todos os pontos da legislação aplicados (CARNEIRO 2002: 862-863), terá sido um dos principais factores para a não conclusão do Teatro da Rainha. Esse, e claro, a crónica insuficiência de verbas, mesmo quando envolvia capitalistas, daí o sentimento de utopia com que ficamos ao falar deste teatro. Não só porque o empreendimento era deveras ambicioso e, sejamos claros, procurava suplantar o primeiro teatro da cidade, o Teatro de S. João, que, até a data, rendia menos que um teatro de segunda ordem, mas também pela própria personalidade de Moutinho
73 Este viria a ser substituído pelo Engenheiro Eduardo Augusto Falcão, assumindo a direcção da obra. A construção do Teatro da Rainha ainda não havia avançado, visto que o empreiteiro, Manuel Gomes da Silva, encontrava-se ainda a construir «o môdel do mesmo theatro, em madeira». Esta maquete viria a «figurar na [futura] exposição das obras do architecto Soller.» (O Comércio do Porto, 25.08.1883, p. 2)
178 de Sousa, que já não era a primeira vez que avançava numa tentativa megalómana de um grande empreendimento teatral (falhado).